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Bonecos Madurodam Holanda Haia Soldados

Um país no microscópio

Se, em teoria, o próprio universo já coube em uma casca de noz, seria possível observar um país no microscópio? Na Holanda, sim. A poucos quilômetros de Amsterdã, a bela cidade de Haia guarda um tesouro que condensa a essência holandesa em cerca de 17 metros quadrados: Madurodam, a cidade em miniatura.

Das tulipas aos moinhos, passando pelos famosos diques, todas as marcas registradas do país estão presentes em Madurodam. Na verdade, a própria existência do parque, criado em 1952, é um tributo à coragem do povo holandês na figura de um homem, o herói de guerra George Maduro.

Em 1940, Maduro, que nasceu na colônia holandesa de Curaçao, era militar e cursava Direito na Universidade de Leiden quando os alemães atacaram o país. Sob sua liderança, os holandeses conseguiram se defender naquela ocasião.

Porém, após a Holanda ter sido ocupada, Maduro aderiu à resistência holandesa e foi capturado por oficiais nazistas. Aprisionado no campo de concentração de Dachau, morreu de tifo em 1945, poucos meses antes do fim da Segunda Guerra.

Posteriormente, Rebecca e Joshua, pais de George, doaram o capital para a construção de Madurodam, que foi inaugurada em 1952 como uma homenagem póstuma a seu único filho. O parque também tem uma função filantrópica, pois desde aquela época os lucros obtidos com a venda de ingressos são revertidos para instituições de caridade.

A obra do arquiteto Siebe Jan Bouma encanta pelo requinte dos detalhes. Através dela é possível observar a evolução da arquitetura holandesa através do tempo, os pormenores de importantes locais do país, como o Rijksmuseum de Amsterdã, o porto de Roterdã, a Torre Dom, da Catedral de Utrecht, e até vivenciar aspectos da história cultural holandesa, como a história do menino Hansje Brinker, que teria salvo o país impedindo o rompimento de um dique.

Além destas atrações, Madurodam guarda outras surpresas aos visitantes. Os barcos e lanchas que flutuam em meio à reprodução dos famosos canais holandeses funcionam de verdade, assim como os aviões da versão diminuta do aeroporto de Schipol. As luzes da cidade se acendem e os “jogadores” se movimentam em estádios de futebol lotados com bonecos que chegam a ter as roupas trocadas de acordo com as estações do ano. Nem as plantas escapam – são todas reais, produzidas pela técnica bonsai.

E se engana quem acredita que, para preservar as maquetes, o público é mantido à distância. Além de poder caminhar e tirar fotos à vontade na instalação, os turistas podem operar os diques holandeses e descobrir mais sobre a história da Holanda através de telas interativas com áudios em sete idiomas, incluindo o inglês.

Esta última característica interativa foi uma adição da reforma realizada para comemorar os 60 anos do parque, em 2012. Ao todo, foram trinta novas atrações interativas e oito milhões de euros investidos para preservar este patrimônio nacional em toda a sua beleza.

Da próxima vez que estiver pedalando pela Holanda, aproveite para conhecer Madurodam e se encantar com a perícia e a técnica dos conterrâneos de Rembrant.

Átomo estrutura Sofia Amundsen

A vida secreta das partículas

“Se aceitamos que nada pode se transformar, que nada surge do nada e que nada desaparece, então a natureza simplesmente tem de ser composta por pecinhas minúsculas, que se combinam e depois se separam”. É com essa explicação de seu misterioso professor de filosofia que a jovem Sofia Amundsen é apresentada a uma das ideias científicas mais importantes da humanidade: o átomo.

Hoje a existência dele é amplamente aceita pela ciência e seus estudos geram diversas implicações. Desde a mais terrível e conhecida, a bomba atômica, até ferramentas que já se tornaram difundidas, como radiografias, as aplicações da tecnologia nuclear estão presentes em nosso dia a dia, mas nem sempre foi assim.

 

DE ONDE VEIO A IDEIA?

Essa longa história começa com o pensador grego Demócrito (460 – 370 a.C), apresentado no romance “O Mundo de Sofia”, de Jostein Gaarder, como o precursor da ideia de que a natureza é composta por pequenas partículas indivisíveis, que se combinam de diferentes formas parar criar tudo o que existe.

Demócrito chegou a essa conclusão por meio de seu raciocínio e experiência, sem o auxílio de um método científico que pudesse transformá-lo em uma teoria. Seu pensamento permaneceu “adormecido” por muitos séculos, até que, no início do século XIX o químico britânico John Dalton retoma o conceito, dando início a uma série de estudos.

Como resultado de sua teoria, Dalton projetou um modelo atômico similar a uma bola de bilhar: esférico, maciço e indivisível. O projeto de Dalton, o primeiro com viés científico, serviu de inspiração, até que o físico britânico Joseph John Thomson levou a ideia adiante a partir de estudos que fazia acerca de descargas elétricas em gases especiais, contidos em tubos fechados.

Em seu experimento, considerado a base para as modernas lâmpadas fluorescentes, Thomson comprovou que, ao estabelecer uma diferença de potencial elétrico no interior dos tubos preenchidos com gases especiais, em baixa pressão, ocorria a emissão de luz.

Para Thomson, a explicação para esse fenômeno só seria possível considerando que o átomo tivesse partes ainda menores, os chamados elétrons. Assim, ele concluiu que foi o deslocamento dos elétrons provenientes da região do terminal negativo em direção à região do terminal positivo que provocou a emissão de luz.

Baseado nesta evidência, Thomson propôs um novo modelo atômico que acabou por ser apelidado de “pudim de passas”. Este  novo modelo sugeria que o átomo era uma massa homogênea de carga positiva, sobre a qual estariam “encrustadas” pequenas partículas de carga negativa, os elétrons. Pela primeira vez um cientista pode comprovar cientificamente que o átomo não era indivisível e, além disso, era possível explicar a eletricidade.

Após as publicações dos trabalhos da teoria quântica, de Max Planck, e da teoria da relatividade, de Albert Einstein, no início século XX, um aluno de Thomson “superaria o mestre” e criaria uma nova teoria atômica. Em 1911, o físico neozelandês Ernest Rutherford apresentou ao mundo um novo modelo atômico, baseado em experimentos feitos com radiação alfa incidente em uma lâmina de ouro, dando início ao que chamamos de teoria atômica moderna.

Ao bombardear uma folha finíssima do metal com partículas de radiação alfa, o cientista percebeu que as partículas atravessavam a lâmina, mas sofriam desvios.

Isso o levou a concluir que o átomo não era uma massa compacta de carga positiva e negativa como Thomson pensava, deveriam existir espaços dentro dele. Assim, Rutherford considerou que o átomo teria uma parte central, um núcleo, de carga positiva, constituído de prótons, ao redor do qual orbitariam os elétrons.

A explicação proposta por Rutherford foi que as partículas de radiação alfa, de carga positiva, que ricochetearam foram aquelas que estavam se dirigindo aos núcleos dos átomos, mas, como eles também possuíam carga positiva, se repeliam.

A partir de então o modelo Rutherford-Bohr, também conhecido como modelo planetário, se instalou no imaginário popular como sinônimo de átomo. No entanto, a física moderna também já contestou essa ideia.

 

 

“O ÁTOMO DE HOJE É UMA EQUAÇÃO”

Atualmente, a teoria mais aceita é a chamada modelo padrão, que inclui 17 partículas fundamentais, agrupadas em bósons e férmions. De acordo com ela, os férmions são as partículas que constituem toda a matéria e se dividem entre quarks – os formadores de hádrons, entre eles prótons e nêutrons – e leptons, categoria na qual os elétrons estão inseridos.

A descoberta do Bóson de Higgs só foi possível porque, em 2008, a Organização Europeia para Pesquisa Nuclear (CERN, em francês) anunciou o lançamento do Grande Colisor de Hádrons, um acelerador de partículas de 27 quilômetros de circunferência localizado na fronteira entre França e Suíça.

Com esse equipamento se consegue simular condições de temperatura e pressão semelhantes às que teriam ocorrido no Big Bang, a grande explosão que teria originado todo o universo, criando o cenário ideal para a detecção das partículas.

Naturalmente, todo esse processo acontece em nível microscópico e é indetectável para os nossos olhos. Daí a importância de um aparelho como o GCH, pois nos permite criar modelos e comprovar teorias que, de outra forma, seria impossível.

Essas novas descobertas levaram a um novo conceito sobre qual seria a forma do átomo. Embora nas escolas ainda seja utilizado, de maneira didática, o modelo planetário, atualmente, o conceito é outro, como explica o professor Ítalo Francisco Curcio, da Universidade Presbiteriana Mackenzie:

“O modelo de hoje é o chamado modelo probabilístico e ele trabalha em cima de modelos matemáticos. Ele não tem uma figura propriamente (…) O átomo de hoje é uma equação, as partículas são equações”, disse ele ao Olhares do Mundo.

 

PRÓXIMOS PASSOS

Os anos de esforço e as brilhantes descobertas de especialistas que se dedicaram a estudá-los são um exemplo de quanto podemos evoluir se nos focarmos nos detalhes. Entretanto, mesmo com a tecnologia moderna, ainda estamos longe de saber tudo sobre os átomos ou criar afirmações definitivas.

A ciência é, por natureza, dinâmica e compreender seu caráter mutável faz parte do processo das descobertas, o que não invalida as tentativas anteriores, como lembra o professor Ítalo:

“Um dia, pode até ser que alguém diga ‘tudo isso que vocês fizeram é bobagem’. Mas eu não acredito nisso. Eu não acho que é bobagem, porque elas estão respondendo perguntas importantes. Eu posso até dizer que, um dia, poderá existir outra verdade. Mas a verdade que eu tenho atualmente atende as necessidades de hoje. Em ciência não existe mentira, existe mudança da verdade.”

E será que essa história um dia terá um ponto final? Sofia Amundsen também se fez alguns questionamentos deste tipo, mas assim como nossos cientistas, ainda não chegou a uma resposta definitiva. O que importa, para ela, é que “um verdadeiro filósofo nunca desiste”.

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Doce ciência

Atire a primeira pedra quem nunca saiu da dieta em nome dos encantos de um macaron. Ou não conseguiu resistir a um crème brulée. Ou ficou com água na boca diante de um suflê de chocolate. Pois é, a pâtisserie francesa tem o poder de converter até os mais ferrenhos praticantes de dietas livres de açúcar a provar, nem que seja um pedacinho, de suas delícias. Mas o que a torna tão especial?

A diferenciação da pâtisserie já começa na origem do nome. Embora a palavra pâte signifique massa em francês, o termo pâtisserie designa especialmente a prática da confeitaria de alto nível. A fabricação de pães, por exemplo, está no ramo da boulangerie.

A pâtisserie também não se resume às receitas. O segredo está na combinação entre “o uso de ingredientes mais refinados, técnicas executadas à perfeição e a preocupação com o acabamento e finalização das produções”, contou Breno Guelssi, professor de Tecnologia em Gastronomia do Centro Universitário Senac, ao Olhares do Mundo.

No caso, a confeitaria francesa eleva estes três princípios a seu nível máximo, sendo considerada por muitos como a “matemática da gastronomia”. Mas o professor também alerta que é preciso incluir o equilíbrio como parte fundamental do processo: “com ingredientes bons e baixo domínio de técnica ou técnica elevada e ingredientes de pouca qualidade não há milagre a ser feito. Os dois elementos precisam estar em perfeita sintonia”, lembra Guelssi.

 

 

Outro ingrediente muito especial para as sobremesas é a tradição. A origem das sobremesas na Europa remonta ao século I a.C.. Embora naquela época a única maneira para adoçar as refeições fosse através do mel ou frutas, uma vez que os europeus não conheciam o açúcar, já existiam algumas receitas que exploravam o sabor doce, como as nozes caramelizadas com mel.

O cenário gastronômico europeu mudou após a descoberta da América e a chegada de novos ingredientes, principalmente o açúcar, e não foi diferente na França. No entanto, o país teve um empurrão a mais com a chegada de Catarina de Médici à corte no século XVI. A nova rainha, esposa de Henrique II, trouxe consigo de Florença os cozinheiros acostumados às novidades e técnicas para a criação de sobremesas, o que revolucionou a culinária na corte.

Foi o chef confeiteiro de Catarina, o italiano Popelini, quem inventou a chamada pâte à chaud (ou massa quente). Aperfeiçoada no século XVIII por um confeiteiro chamado Avice tornou-se pâte a choux devido ao formato de couve flor (choux, em francês) dos primeiros doces. Atualmente, é a base para quitutes famosos como a éclair, Saint-Honoré e Paris-Brest.

As novidades nas cozinhas reais continuaram com o passar dos anos. No século XVII, a rainha Maria Teresa de Áustria, esposa de Luís XIV, trouxe o cacau em sua comitiva, uma adição revolucionária. O chantilly, outra marca registrada da pâtisserie, também surgiria no reinado de Luís XIV.

Mas foi justamente quando a pâtisserie deixou os castelos que atingiu seu auge criativo. Após a Revolução Francesa muitos cozinheiros ficaram sem trabalho e se dirigiram à Paris em busca de oportunidades. Lá, abriram as primeiras casas de gastronomia refinada, que hoje conhecemos como restaurantes.

Nesta época surge um dos maiores mestres da gastronomia francesa, Antonin Carême, responsável pela criação de doces como a éclair. Carême também inovou na apresentação das refeições, chegando a construir palácios de açúcar inspirados em construções históricas que estudava nos museus e bibliotecas.

O século XIX assistiu a um boom da pâtisserie devido à criação do processo de retirada do açúcar da beterraba, mais barato para os europeus que o açúcar de cana, importado da América e da África.

Ao mesmo tempo em que se popularizou nesta época, a pâtisserie contou com a ajuda de outro mestre, Auguste Escoffier, para consolidar-se como um setor de destaque na culinária. Foi Escoffier quem instituiu o sistema de brigada dentro de uma cozinha, que consiste na separação entre cada função para manter o serviço organizado. Entre as mais importantes está a de Chef Pâtissier, o responsável pela execução de todas as sobremesas e pratos doces servidos.

 

 

Vale lembrar que a gastronomia é parte da cultura de um país, logo, também pode e deve sofrer mudanças de acordo com as demandas da sociedade. No século XX, após o efervescente ano de 1968, que promoveu profundas mudanças sociais, surge um novo movimento na gastronomia francesa chamado nouvelle cuisine.

“Trata-se de uma nova concepção de se preparar os alimentos, usando-se, sobretudo, ingredientes frescos, de temporada, processo de cozimentos curtos, cardápios leves, evitando-se marinadas, fermentações e molhos a base de farinha, manteiga e caldos. Trata-se de uma cozinha clássica, estética e muito artística na sua apresentação”, explica no artigo “A gastronomia francesa: da Idade Média às novas tendências culinárias” o professor Carlos Roberto Antunes dos Santos, da Universidade Federal do Paraná.

Seguindo essa tendência, o trabalho de Gaston Lenôtre se destacou . O chef recebeu o crédito por diminuir a quantidade de farinha e açúcar nas receitas, além de introduzir frutas tropicais como o kiwi. Por isso, Lenôtre é considerado o pai da nouvelle pâtisserie.

Hoje podemos considerar a pâtisserie um fruto de todas as tradições, técnicas, ingredientes e inovações pelas quais passou ao longo dos séculos. Ao mesmo tempo, são esses elementos que a mantém em movimento, instigante e sempre atual.

Orquestra dos Vegetais músicos legumes

A Orquestra dos Vegetais

Subir os degraus de escadarias, admirar as obras de arte, apresentar os ingressos, passar pelas cortinas, chegar em um ambiente amplo, encontrar seus assentos e se acomodar. Logo depois, silêncio total. Uma melodia, talvez doce e calma, ou agitada e imponente, passa a preencher todo o salão. O espetáculo começa. Se você já assistiu a um concerto ao vivo, provavelmente passou por uma experiência muito similar a essa.

No entanto, para toda a tradição existe um protocolo a ser quebrado. Em Viena, um grupo levou a ideia de subverter as regras da música adiante e foi assim que surgiu a inusitada Orquestra dos Vegetais (The Vegetable Orchestra).
Como o próprio nome já indica, a orquestra se apresenta com instrumentos feitos com vegetais como abóboras, pepinos, cenouras, fabricados pelos próprios músicos a cada concerto.

O trabalho, baseado no conceito de música experimental, surgiu em fevereiro 1998. Na época, um grupo de amigos interessados em música experimental decidiu colocar a ideia em prática e descobrir o som dos alimentos. Eles foram escolhidos por estimularem também os outros sentidos, como o olfato e paladar e, claro, a criatividade.

Atualmente são onze músicos, um engenheiro de som e um produtor de vídeo na orquestra, e a própria equipe prepara os instrumentos antes de cada apresentação. Para garantir a qualidade do som, eles sempre se certificam de que os vegetais sejam frescos e os instrumentos são preparados pouco antes das apresentações.

As singularidades da orquestra dos vegetais não param por aí. O que sobra da produção dos instrumentos é transformado em uma sopa para os ouvintes saborearem ao fim do espetáculo, o que também diminui o desperdício de alimentos.

Já no que diz respeito ao som, a criatividade também é marca registrada da orquestra. Influenciados por artistas como Steve Reich, John Cage e a banda Kraftwerk, seus membros definem seu estilo musical como “vegetal, influenciado por música eletrônica contemporânea, música concreta, musica noise, música improvisada e pop”, de acordo com declarações registradas em seu site. Os artistas também não têm formação musical clássica, uma vez que são de outras áreas artísticas, o que também traz ainda mais referências e estilos ao trabalho.

Mas, por trás do processo criativo, existe uma estrutura bem organizada para reunir todas essas influências e ainda criar sons e instrumentos inovadores. Segundo a equipe, existe espaço para improviso eventualmente, porém suas músicas são pensadas anteriormente e escritas em partituras, como manda a tradição, para apresentar um estilo coeso aos ouvintes.

Por fim, a principal ideia transmitida pela orquestra dos vegetais é a de que qualquer coisa pode ser uma ferramenta para a música, basta direcionar o olhar para novas possibilidades. O grupo se apresenta em turnês pelo mundo e já há shows marcados em Luxemburgo para 2017.

Plantação Lavanda Provença França

Entre Rosés e Lavandas – conheça a Provença

A memória funciona de maneira peculiar. Com o passar do tempo, é interessante observar o que lembramos sobre os lugares: um aroma, um rosto, uma sensação. Quando o local em questão é a Provença, na França, difícil é escolher a lembrança preferida.

Em meio ao perfume dos campos de lavanda, ruínas romanas e paisagens do Mediterrâneo, a região é uma das mais famosas e belas da França. Sua história remete ao século VII a.C., quando estima-se que foi colonizada por gregos. Posteriormente integrou o Império Romano, de onde herdou o nome – uma derivação da palavra província.

Na Idade Média foi controlada por diversas dinastias, como as casa de Barcelona e Anjou e tornou-se até mesmo sede do papado no século XIV, no que ficou conhecido para os historiadores da religião católica como Cisma do Ocidente. Atualmente oferece a seus moradores e visitantes belas paisagens pontuadas por monumentos históricos, riquezas naturais e patrimônios culturais.

O complemento perfeito para desfrutar de um tour na região é justamente uma das marcas registradas do local: o vinho rosé. Essa versão da bebida, que é de difícil produção, encontrou na Provença o lugar ideal para se estabelecer.

Um dos segredos desse vinho tão especial está na escolha do processo de fabricação. Para criar a mistura perfeita, o método clássico – mais utilizado na Provença – consiste em interromper antecipadamente a maceração, que é o tempo em que o suco passa em contato com as cascas das uvas para obter aromas, sabores e coloração mais fortes. Nesta fase, a bebida também é conhecida como mosto.

No vinho rosé, esse estágio dura até 24 horas e o resultado é um vinho de sabor frutado e cor clara. Na Provença, especificamente, o cuidado para que a bebida tenha a tonalidade exata começa nos vinhedos, bem antes da maceração, como conta ao Olhares do Mundo o sommelier Manuel Luz, da importadora Cantu: “As uvas são colhidas alguns dias antes da maturação que seria ideal para elaborar vinhos tintos, para não atingirem seu grau máximo de tinta nas cascas, o que facilita o processo”.

No entanto, este não é o único método. Para a produção de vinhos tintos mais encorpados, é permitido que os enólogos drenem até 10 por cento do mosto durante a maceração.  A partir do líquido retirado também é possível fabricar rosés, no que é conhecido como método de sangria. Segundo Luz, esta tecnologia, comumente utilizada no Chile, na Argentina e na Califórnia, é “mais fácil de elaborar e gera vinhos ligeiramente mais doces”. Há também quem opte por misturar uvas brancas e tintas durante a maceração, porém, esse processo é pouco indicado, pois pode gerar uma bebida de pior qualidade.

Além da excelência, para fabricar um rosé a autenticidade também é um critério fundamental. Por isso, na União Europeia, é proibido misturar vinhos tintos e brancos prontos e comercializar o resultado como se fosse um rosé, o que valoriza o método tradicional e representa uma vitória para os tradicionais produtores da Provença.

A tradição do rosé na região francesa vem de longa data e, atualmente, a variedade corresponde a 90 por cento da produção local, dominância que pode ser explicada também pelo conjunto de fatores denominado terroir. Esse conceito, muito estudado pelos amantes dos vinhos, indica a relação de elementos da natureza, como clima, relevo e solo de determinada região, além da ação do homem, que confere características específicas às bebidas.

Na Provença, o clima tende a ser mais seco, com verões quentes e outonos e primaveras mais chuvosos. O vento mistral, também mais seco, evita que as uvas sofram com excesso de umidade e mofo. Os solos, em sua maioria, pobres, “dão elegância a cepas de personalidade como, Syrah e Grenache”, explica ao Olhares do Mundo o sommelier Georgio Robert Silva Pereira, da Ville du Vin. A presença de montanhas expõe as frutas a diferentes intensidades de luminosidade. Os recursos naturais tornam a região muito propícia ao cultivo de uvas como as famosas Cabernet Sauvignon e Grenache, já citada anteriormente.

Para o sommelier, o que também torna o terroir da Provença especial é a ação antrópica, movida pela expertise de séculos de produção: “O grande diferencial é que, em média, os rosés da Provença passam 6 meses em bâttonage (método em que o vinho fica em contato com as leveduras), fazendo com que as leveduras se desintegrem e se unam ao vinho, conferido-lhe uma textura de boca elegante, densa”, comenta Pereira.

A influência do terroir vai além da produção e afeta o próprio consumo da bebida, uma vez que a França é o maior produtor e também consumidor da variedade. O rosé combina perfeitamente com a culinária da Provença, leve e refrescante. O vinho, que deve ser servido entre 8 e 10 graus Celsius, é uma boa pedida para acompanhar frutos do mar, entradas, canapés, queijos frescos e um lindo cenário, seja à beira do Mediterrâneo ou em qualquer outro lugar.

Tecnologia genética

Feitos para o seu DNA

Há 20 anos, quando os jornais noticiavam o nascimento da ovelha Dolly – o primeiro mamífero a ser clonado com sucesso a partir de uma célula adulta – muitos se perguntaram: até onde a tecnologia genética poderia chegar?

O tempo passou, as pesquisas avançaram e o que antes parecia uma ciência distante ou história de ficção científica aos poucos está mudando para melhor o cotidiano das pessoas. Entre as novidades surgidas com essa onda, uma das mais inusitadas é a personalização de produtos a partir do DNA, conferindo a cada objeto uma identidade tão única quanto o código genético. É o primo da tecnologia genética.

Uma das pioneiras nessa inovação é a startup norte-americana Vinome, que oferece aos clientes a possibilidade de escolher vinhos a partir das preferências determinadas pelo DNA. Em outras palavras, um vinho específico para o seu paladar.

A partir de um teste genético e um questionário de preferências pessoais, a empresa consegue identificar os sabores mais agradáveis ao paladar dos clientes e então selecionar as bebidas. Além disso, todos os vinhos comercializados são de pequenas vinícolas californianas, o que confere um tom ainda mais exclusivo à proposta.

A genética também está transformando o design de interiores, tornando-o cada vez mais personalizado. Empresas como a norte-americana DNA11 fabricam quadros coloridos com o código genético a partir de amostras de saliva, no tamanho e cor que o cliente desejar. Uma versão moderna do tradicional retrato, a peça exclusiva é também uma nova forma de representação sobre como as pessoas veem sua natureza interior e incluem sua presença no espaço.

A genética, quem diria, também pode ser usada como ferramenta de resgate das origens, quebra de tabus e formação de identidade étnica e social. O mapeamento genético pode rastrear rotas de migração de ancestrais, composição étnica do DNA e até comparar amostras atuais com as de sítios arqueológicos, como uma forma de entender nossa própria evolução.

A melhor parte é que, o que antes estava apenas ao alcance de cientistas e grandes instituições, hoje pode ser compartilhado como uma atividade lúdica entre membros de uma família, a partir do trabalho de empresas como a Family Tree DNA. Os kits da companhia oferecem a possibilidade de rastreamento da genealogia do pai ou da mãe, origens étnicas e geográficas da família e até a descoberta de novos ramos familiares a partir de outros DNA’s.

E, na área de saúde, as aplicações da genética vão muito além do famoso teste de paternidade. Se ainda não é possível comprar medicamentos produzidos a partir da sua genética, empresas como a Geneu já oferecem cosméticos produzidos a partir de análises do DNA para oferecer os melhores cuidados com a pele.

A partir das informações sobre o estilo de vida e amostras genéticas, a companhia monta um tratamento com séruns específicos que, em conjunto com uma mudança de hábitos, prometem uma melhora efetiva nos problemas dermatológicos.

Essas são algumas das novidades desenvolvidas pela ciência e a tecnologia genética até agora. Ainda é cedo para dizer qual impacto essas e outras técnicas exercerão no mundo nos próximos 20 anos mas, se depender do sucesso desses resultados, o futuro será pra lá de interessante.

Tempestade tormenta temporal Roger Hill Mitch Dobrowner Fotografia

Detalhes da tempestade

O norte-americano Mitch Dobrowner sempre viu na natureza uma fonte de encantamento. Ainda adolescente, com o incentivo do pai, descobriu a paixão pela fotografia, porém, as obrigações da vida se impuseram e apenas anos depois pode se dedicar ao seu maior talento: a fotografia de paisagens. E ele conta com a parceria de Roger Hill, o caçador de tempestades.

Em 2005, Dobrowner decidiu unir as duas paixões e transformá-las em arte. Foi assim que passou a percorrer o Meio-Oeste dos Estados Unidos em busca de uma das manifestações mais belas e perigosas da natureza: as tempestades. União de ventos, chuva e trovões, as tempestades e seu poder destrutivo são capazes de nos deixar vulneráveis e maravilhados ao mesmo tempo. Em suas imagens, Dobrowner busca captar um misto destes sentimentos, ressaltando a imponência das formações pelo contraste em preto e branco.

Uma das características de seu trabalho é a priorização da forma: quanto mais volumosas as nuvens estão, melhor para o fotógrafo, o que torna a viagem ainda mais perigosa. Para cuidar de sua segurança ele conta com o apoio do amigo, Roger Hill, com quem estabeleceu parceria desde o primeiro projeto. Além do apoio de Hill, Dobrowner se vale da influência de grandes fotógrafos na busca pelas imagens perfeitas. Ansel Adams, por exemplo, famoso por suas fotografias de paisagens, é o mais citado em sua lista de referências.

Mas nem só de tempestades vive o trabalho de Mitch Dobrowner. Em paralelo aos retratos dos temporais, ele desenvolveu um projeto voltado a paisagens naturais e outro a cenários urbanos. No primeiro, percorreu desertos como o do Arizona, retratando suas paisagens inóspitas e singulares, em um cenário que lembra um planeta pós-apocalíptico ou mesmo Marte.

Já o segundo retrata a cidade de Los Angeles, na Califórnia, sob várias luzes e momentos, porém no mesmo ponto de observação. Neste caso, é interessante notar como a mudança na iluminação e na formação das nuvens no céu influencia na composição final da imagem – mesmo quando o ângulo da cidade parece semelhante nas fotografias – como se fosse uma troca de lentes.

Não por acaso, sua emocionante obra já rendeu frutos e se torna cada vez mais conhecida. Além das 18 premiações registradas em seu site oficial – incluindo Lucie Awards, PX3 e Sony World Photo Awards -, ele foi destaque na imprensa internacional com reportagens sobre seu trabalho publicadas em importantes veículos como a revista National Geographic e o site Huffington Post.  Recentemente, lançou uma exibição solo em Paris.

Casa na árvore tecnologia sustentável inovação natureza

A Fantástica Casa da Árvore

Naves espaciais, navios pirata explorando terras distantes, esconderijos de super-heróis: não importa no que se transformam a mando da imaginação, casas na árvore são sempre sinônimo de aventura e refúgio. E que tal utilizar tecnologia sustentável para inovar?

Então, por que não levar essa ideia além? Foi o que pensou o arquiteto Aibek Almasov, do escritório A Masow Architects, ao projetar a futurista “Árvore na Casa”. A estrutura circular será toda feita de vidro, metal e madeira e englobará uma árvore em meio a uma floresta, permitindo uma integração total com a natureza e harmonia com o meio ambiente.

A casa utilizará essa tecnologia sustentável de modo a lhe conferir autonomia, como a captação de água da chuva, placas de energia solar e aproveitamento da iluminação natural. Ao todo, a planta contém 4 andares, sendo que o último será um local de contemplação da vista da floresta em 360 graus.

O objetivo é que ela se torne um espaço de convivência para que os visitantes possam escapar das cidades e relaxar por alguns momentos, evidenciando um propósito social e uma nova abordagem, mais inclusiva, da própria arquitetura.

O projeto existe desde 2013, porém apenas em 2016 o escritório conseguiu investidores para levar a construção adiante, o que deve acontecer ainda em 2017. O local escolhido para sediar a empreitada é a cidade de Almaty, no Cazaquistão, país de Almasov.

Não é a primeira vez que a cidade, ex-capital e também a maior do Cazaquistão, é palco das obras do escritório. Suas paisagens montanhosas cercadas por parques nacionais já inspiraram a construção de vários outros projetos pela equipe de Almasov, sempre seguindo a linha do minimalismo e da integração com o ambiente pelo uso do vidro, cores claras e harmonia na decoração.

A “Árvore na Casa” ainda não tem paralelo, mas pouco a pouco lugares de todo o planeta começam a adotar a ideia de que ambiente e construção ganham muito quando são complementares. É o caso dos famosos iglus de vidro do Hotel Kakslauttanen na Finlândia, onde é possível assistir ao lindo espetáculo da aurora boreal debaixo das cobertas. No futuro, quem sabe, as cidades coexistam em mais harmonia com a natureza, uma mudança que seria bem-vinda para todos.

Explore seus sentidos

O ideal de uma arte completa, que explore todos os sentidos, não é uma novidade. A busca pela integração entre as diversas modalidades artísticas é tão antiga quanto a criação da ópera, que mescla elementos do teatro e a da música, e está cada vez mais presente com o apoio da tecnologia, após o desenvolvimento de técnicas como filmes em 5D e jogos em realidade virtual.

Embora seja cada vez mais comum a confluência entre formatos, técnicas e conceitos, até o momento, tem sido raro encontrar ideias que valorizem ou mesmo estimulem tato, visão, olfato, audição e paladar ao mesmo tempo, considerando todos como parte integrante da mesma experiência individual e coletiva.

É com o objetivo de romper essa barreira e integrar ainda mais os sentidos de forma inovadora que a compositora, maestrina, escritora e chef de cozinha Ysanne Spevack criou o projeto “Yntegrity”, que também é uma tentativa de unir suas carreiras na música e na gastronomia em uma única exposição, com um toque de personalização.

 

A iniciativa envolve gastronomia, neurociência e música, em uma abordagem única. Na estreia da exposição, em Nova Iorque, a temática escolhida para o pontapé inicial foi a felicidade. Ao longo da performance, os elementos são cuidadosamente combinados para integrarem-se entre si e ao ambiente, tornando-a o mais sinestésica possível.

O paladar, que não costuma ser abordado em instalações artísticas, dessa vez tem papel de destaque. Os pratos são preparados cuidadosamente utilizando conceitos como alimentação orgânica, livre de açúcar, com origens locais, vegana e são decorados de acordo com a proposta, buscando sintonia com a obra do artista Uncle Riley – colaborador de Ysanne no projeto – e com a música ambiente fornecida por um coral ao longo do jantar.

Assim como a interpretação da arte é única para cada pessoa, o “Yntegrity” traz a neurociência como forma de personalizar ainda mais o momento, avaliando os níveis de felicidade e os sentimentos de cada participante.

O novo conceito não poderia ser mais pertinente a esta época, envolvendo o engajamento físico, emocional, social e artístico das pessoas, despertando sensações intensas e criando memórias únicas como apenas a arte pode fazer.

Korakuen Okayama jardim lago

As estações de Korakuen

“Compositor de destinos”, como diria o poeta, o tempo é um dos motores da vida nas metrópoles. Seja lento e arrastado como nos momentos gastos no trânsito ou veloz e imprevisível como o das notícias e da tecnologia, ele influencia a perspectiva sobre o espaço, a vida, as relações e as experiências. Com tantas oscilações, nada mais fácil do que perder a própria noção do tempo Mas na cidade de Okayama, no Japão, os moradores têm um lembrete e tanto para admirar a beleza do passar dos dias: o jardim Korakuen.

Conhecido como um dos três Grandes Jardins Japoneses, Korakuen dá boas vindas a cada estação do ano de uma forma especial, decorado com maestria pelos ciclos da natureza.

Seja todo florido ou coberto de neve, o jardim Korakuen enfeita a paisagem local desde 1700, quando ficou pronto após 13 anos de construção. Idealizado pelo senhor feudal Ikeda Tsunamasa como um local dedicado à paz e contemplação, Korakuen tornou-se um oásis de beleza onde as transformações sazonais vivem em sintonia com a estabilidade da história.

Apesar de ter sido parcialmente destruído na Segunda Guerra Mundial, em 1945, o jardim recuperou sua antiga forma graças a registros e pinturas da época e, hoje, preserva detalhes arquitetônicos da época em que foi construído, sendo também considerado um patrimônio cultural do Japão.

A cada estação do ano, Korakuen revela suas belezas peculiares para a temporada ao renovar sua paisagem em harmonia com a natureza. Um exemplo é o jardim Iris e a ponte Yatsuhashi, que ganham flores brancas e lilases no verão. Já o bosque Chishio-no-mori brilha com a tonalidade avermelhada de suas árvores maple no outono, enquanto a neve cobre o terreno no inverno.

Cada novo ciclo traz consigo também uma forma diferente de celebrar. No dia de Ano Novo, em meio ao inverno japonês, os grous que são criados em instalações no jardim podem passear livremente por algumas horas, devido à cerimônia tradicional da região. Já no verão, o parque recebe o festival do plantio de arroz, celebrando as heranças agrícolas do país.

Em todas as estações, destaca-se a beleza arquitetônica do local, composta por estruturas como a casa Renchi-Ken, que não foi danificada pelos bombardeios da guerra e hoje surge para os visitantes como um capítulo do diálogo entre passado e presente.

Do outro lado do rio Asahi, o imponente castelo de Okayama completa a paisagem. Anterior ao jardim, a construção da propriedade original data do século XVI e a estrutura atual, criada após a destruição do castelo na Segunda Guerra, é fiel à arquitetura da era Edo. Uma lembrança permanente sobre a resiliência ante as transformações do tempo.

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