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Amyr Klink navegando neve

Entre Céu e Mar: O Porto

O medo de quem navega não é o mar, mas a terra. O grande medo de Amyr Klink, como ele próprio diz, não está nas tormentas, nas ondas gigantes, nos problemas que podem surgir no barco. Seu maior temor, durante o desenvolvimento de uma viagem, é mais simples que isso: a possibilidade de a viagem não ser iniciada, a chance de seu barco, depois de anos de estudos e projetos, permanecer em terra.

A aventura, ao que parece, começa antes do mar. Ela tem início nos primeiros encontros de trocas de informações com engenheiros, médicos, nutricionistas, projetistas, arquitetos, especialistas navais. Passa pelos estudos e cálculos sobre a posição das estrelas por meio do compasso e da calculadora. E chega no grande desafio de criar, com poucos recursos, um barco que fosse capaz de trazê-lo da África para o Brasil remando ou, no caso do Paratii, robusto o suficiente para suportar 642 dias no mar.

 

“Descobri navegando que o tempo gasto em pensar e projetar é o mais importante da vida de um barco. Mesmo uma mínima canoa de pescar lulas que não tenha um projeto escrito, foi projetada na cabeça de seu construtor, foi projetada no olhar afiado do tirador que estudou o corte na mata”, escreveu em “Linha D’Água – Sobre estaleiros e homens do mar”.

Assim, com seu gosto peculiar pela quebra de regras, Amyr construiu, para sua primeira grande travessia, um barco que capotasse. Depois, desafiou a equipe, parceiros e empresários em busca do material perfeito, fosse qual fosse, para navegar entre os dois pólos. Os anos no mar e no frio da Antártica certamente não se aproximam do tempo dessas viagens em terra. “Amontoados de chapas”, ideias e papeis se acumulam sobre mesas de todas as partes do mundo com uma única certeza: barcos de verdade não nascem por acaso.

Texto por Vinícius Bopprê

Criança realidade virtual metodologia steam

Escola do Futuro

Em qualquer sociedade a criação das crianças ocupa papel central na vida da comunidade. Tem sido assim há séculos, desde quando a maior preocupação era ensinar aos pequenos a sobreviver por conta própria em meio à natureza. É claro que hoje as prioridades de conhecimento mudaram, assim como a própria maneira como encaramos a infância, no entanto, o desejo de preparar os jovens para o futuro da melhor maneira possível permanece.

A novidade da educação no século XXI parece focar justamente no fato de que a melhor maneira, na verdade, não é um conceito único. Cada vez mais surgem escolas que rompem estereótipos do que acreditamos ser uma boa instituição de ensino – centrada na disciplina e em conteúdos pré-determinados – focando em realidades locais e na autonomia da criança em perseguir seus interesses e desenvolver habilidades cada vez mais necessárias para a convivência global.

Nessas escolas do futuro, mais do que apenas preparar os alunos para o vestibular, busca-se formar cidadãos globais que contribuirão efetivamente para a construção de um mundo melhor, através de conceitos como liderança, respeito, tolerância, solidariedade e sustentabilidade, que são ensinados em paralelo aos conhecimentos técnicos e acadêmicos.

O mais interessante é que essa busca está se tornando cada vez mais abrangente e inclusiva, com diferentes iniciativas se proliferando pelo mundo todo.  Algumas representantes  brasileiras estão se destacando com propostas educacionais inovadoras, que misturam tecnologia, valorização da natureza e responsabilidade social em suas filosofias.

Em Cotia, na Grande São Paulo, o Projeto Âncora aposta na ideia de construir um mundo melhor através da educação, promovendo a inserção social de crianças e adolescentes carentes com o uso de um modelo nada convencional. A proposta valoriza a autonomia no processo de aprendizagem, enxergando-o como uma busca pessoal do aluno, explica a representante do projeto, Ana Paula Alcantara.

“A aprendizagem é customizada, ela é coletiva, mas também é uma busca pessoal. A criança precisa estar motivada a aprender para realmente conseguir absorver esses conteúdos de maneira efetiva, não porque precisa estudar para uma prova, depois esquece e nunca mais usa”, disse Ana Paula ao Olhares do Mundo.

Dessa forma, os estudantes formam turmas de acordo com seu ritmo de desenvolvimento – e não idade. Cada aluno tem um roteiro pessoal de estudos, preparado exclusivamente para ele, e que será desenvolvido em parceria com a comunidade.

Reprodução/Projeto Âncora

A tecnologia é peça fundamental nessa integração, especialmente no que diz respeito à comunicação entre equipe pedagógica e as turmas, assim como o acompanhamento do progresso das crianças.

A escola conta com uma plataforma digital em que os alunos têm suas próprias páginas, em uma espécie de blog interno. Nelas, as crianças postam o que aprenderam, seu progresso em relação às atividades, seus interesses. Também são registradas suas atitudes e comportamentos. No fim, tudo se transforma em um relatório utilizado por professores, coordenadores e assistentes sociais para monitorar o aprendizado das crianças. O objetivo da escola no futuro é conseguir que os pais também tenham acesso ao software, conta Ana Paula.

Os alunos também podem interagir entre si na plataforma através dos chamados grupos de responsabilidade, espécie de comissões em que eles se reúnem para discutir e solucionar problemas do dia a dia, como alimentação, bullying, uso da água, conservação da horta, cuidados com os materiais escolares, manutenção das instalações, comunicação, eventos, entre outros.

A ideia é que os jovens busquem seus interesses e aprendam com eles na prática, explica Ana Paula:

“Por que você tem que aprender dentro da escola se você, por exemplo, tem um gosto por marcenaria? O grupo ou você mesmo pode ir à marcenaria do seu bairro e entender como são feitas as coisas. Ali você mede, aprende sobre volume, vários conteúdos que você sobe para a plataforma e por whatsapp você fala com seu tutor (professor). (…) A autonomia se dá dessa maneira: eu sou responsável pelo meu estudo, faço meu planejamento, realizo minha autoavaliação com ajuda do meu tutor e sou avaliado por ele. Assim evoluo os meus estudos”, comenta.

“A instituição trabalha para que a gente consiga formar comunidades de aprendizagem e elas só são possíveis por conta da tecnologia, que é a grande tecelã desta rede”, completa.

Mas há também um cuidado para que a tecnologia seja inserida de modo construtivo nesse aprendizado. Os alunos são incentivados a utilizar computadores e smartphones como ferramentas de estudo, porém, apenas aqueles que apresentaram um comportamento responsável durante um ano e meio de avaliações podem utilizá-los durante as aulas – e nunca para navegar em jogos ou redes sociais.

Em São Paulo, a Escola Viva também visa preparar seus alunos para os desafios do mundo contemporâneo com responsabilidade, considerando a tecnologia como parte fundamental do processo de aprendizagem.

Reprodução/Escola Viva

“Hoje não podemos desconsiderar que o celular é parte do corpo desse aluno. Então ao invés de ficar só na restrição de uso, também pensamos em formas de usar esse dispositivo a favor dos diferentes processos de aprendizagem”, explica a coordenadora do Ensino Fundamental II, Luce Diogo.

Um exemplo da adoção efetiva da tecnologia em sala de aula realizada pela escola está em um projeto dos alunos do sexto ano envolvendo a pesquisa sobre civilizações antigas e o popular game de construção de mundos Minecraft para a disciplina de História, relembra Luce.

“Uma coisa é você ver as imagens do modo de vida de uma civilização antiga através de uma página de livro, uma relação bidimensional. Outra é você pensar nesses dados coletados no livro e construir uma estrutura tridimensional dentro de um jogo. Esse processo fez com que o aluno experimentasse o lugar de protagonista, porque ele tinha que coletar dados, elaborar um projeto, montar uma estrutura e depois conhecera estrutura que outros alunos criaram. O instrumento de avaliação era a própria maquete construída no jogo, não era mais a prova”.

Adotar esse tipo de abordagem exigiu que a escola também preparasse a própria equipe para lidar com os desafios do mundo digital, além de trazer os pais para a discussão, propondo um debate amplo e rompendo antigos preconceitos.

“Nós trabalhamos em uma frente de formação com adultos, famílias e professores. Para o professor o universo virtual nas relações com os alunos é uma experiência nova. Ele pode ter alunos na sua rede social? O que isso significa? Esses são pontos de reflexão para a equipe de professores, entender os impactos dessas escolhas e a responsabilidade de cada um.

“Uma outra questão é que chamamos a assessora de língua portuguesa para conversar conosco sobre o texto do mundo virtual. Havia uma crença de que se o aluno escrevesse com abreviações ou palavras novas nesses dispositivos poderia impactar negativamente na escrita de um texto. E então ela nos trouxe pesquisas de universidades defendendo que não há prejuízo na escrita de textos porque o aluno escreve muito nesse tipo de dispositivo. Isso foi uma quebra de paradigma na escola,  havia uma insegurança das famílias em relação a isso e uma preocupação em relação a formação desse escritor”, comenta Luce.

Para a instituição, o destaque conferido aos usos construtivos da tecnologia e seus impactos na nova sociedade em que estão inseridos ajuda os estudantes a compreenderem melhor as consequências de suas ações e, portanto, evitarem situações perigosas, como o ciberbullying.

“Queremos formar pessoas que saibam atuar em ambientes colaborativos e que pensem soluções para questões do mundo contemporâneo. O jovem quando está em um ambiente virtual, ele tem a sensação que está no ambiente privado. Então um passo para essa formação é entender que é um ambiente híbrido, não é nem só privado e nem só público. Ele precisa entender que, ao publicar conteúdos no mundo virtual, ele tem uma responsabilização, um compromisso ético.”

Aproveitar a tecnologia para desenvolver competências sociais, acadêmicas e pessoais necessárias ao mundo global também é o objetivo da Avenues, que abrirá sua primeira unidade em São Paulo em 2018. O colégio já tem uma unidade em Nova York e pretende promover o intercâmbio entre os alunos, além de uso extensivo da tecnologia nas instalações, com direito a Wi-Fi em todas as dependências, tablets e computadores como material didático e uma equipe totalmente focada no desenvolvimento de novas tecnologias como partes centrais em seu programa de estudos, como explica Dirk A. DeLo, diretor global de Infraestrutura e Desenvolvimento de Campus da Avenues:

Reprodução/Avenues

“A tecnologia é uma ferramenta usada para permitir que nossos alunos ampliem seu aprendizado para muito além das paredes da sala de aula. Como parte de nossa missão de criar cidadãos globais, a tecnologia permite que os estudantes fiquem confortáveis fora de suas zonas de conforto desde muito pequenos. Nosso currículo também enfatiza o uso responsável da tecnologia, para que nossos alunos usem o poder da tecnologia para o aprendizado apropriado e produtivo e compreendam o que significa ser um cidadão digital responsável”.

Utilizando a metodologia STEAM (uma abordagem integrada de Ciências, Tecnologia, Engenharia, Artes e Matemática) como estratégia pedagógica, a escola incluirá a tecnologia até mesmo no ensino do jardim de infância, adequando a utilização de acordo com a idade e necessidade das crianças.

Para Dirk, a “tecnologia permite a criação de novas habilidades, inconcebíveis sem ela”, o que também abre novas possibilidades para um sistema de educação mais adaptável e abrangente:

“Combinada com o aprendizado personalizado, a tecnologia cria um ambiente mais inclusivo. Existem aplicativos colaborativos que podem ser usados para uma participação mais livre dos estudantes e a tecnologia assistiva integrada aos tablets realmente permite que crianças com necessidades especiais ou até mesmo adultos não alfabetizados a utilizem como ferramenta de aprendizagem”, avalia.

As estratégias que a educação vem encontrando para se adaptar ao mundo virtual são muitas, o que torna o debate cada vez mais rico e frutífero. Ainda é cedo para saber como cada método irá se desenvolver e quais as próximas adaptações a sociedade exigirá, porém, a tendência de alunos cada vez mais empoderados, recebendo formações que levam em consideração todos os âmbitos de sua vida, parece ser a melhor saída para a criação de um sistema educacional mais justo, moderno e eficiente. Com estudantes motivados, cheios de energia para criar um futuro melhor, o benefício definitivamente será de todos.

 

 

 

Novos Padrões

Às vezes tudo se resume a um momento de inspiração, outras, a anos de pesquisas e tentativas; algumas surgem como simples ideias para resolver problemas do cotidiano, outras ganham status de descoberta. A verdade é que não existe uma receita única para uma grande ideia e é impossível prever quando elas irão surgir mas todas, dentro de suas capacidades, levaram nossas vidas a novos patamares.

No entanto, os responsáveis por tais avanços nem sempre ganham fama pelo que desempenharam. A história também mostra que, quando uma grande ideia é criada por uma mulher esse crédito é ainda menos valorizado ou, nas piores situações, suprimido e usurpado.

Mesmo com as piores condições, a criatividade das mulheres nunca se deteve. Ao longo dos anos, elas produziram inovações que impactaram milhões diariamente no mundo inteiro, estabelecendo novos padrões em diversas áreas. Um exemplo de como o talento pode superar até as piores barreiras. Conheça aqui algumas dessas inventoras:

 

 

Em 1908, a alemã Amalie Auguste Melitta Bentz estava cansada de limpar os filtros de linho que usava para coar café, que eram difíceis de lavar. A outra opção em voga, usar filtros de metal ou cerâmica, não era muito melhor: precários, eles deixavam resíduos de pó na bebida, estragando o sabor.

Mas a então dona de casa e mãe de dois meninos não desistiu de buscar uma solução mais confortável para seu dia a dia. A jovem decidiu inovar: usando papel absorvente que encontrou nos materiais escolares de um dos filhos, Melitta fabricou um filtro com pequenos furos e colocou-o no fundo de um recipiente de latão específico desenvolvido por ela. O resultado foi um café mais leve, aromático e sem resíduos de pó.

Melitta logo percebeu que a ideia era boa demais para não aproveitá-la. Neta de cervejeiros e filha de um editor de livros, Melitta cresceu em meio a um ambiente empreendedor e levou essa herança para a vida adulta. No final daquele ano, ela obteve a patente do coador de papel e do suporte, utilizando-a para começar a própria empresa.

No início, a produção dos filtros era terceirizada e a própria família era quem tocava o negócio, com os filhos de Melitta trabalhando como entregadores e o marido deixando seu trabalho no comércio para dedicar-se exclusivamente ao desenvolvimento da companhia. Para tornar a ideia conhecida, eles iam de porta em porta oferecendo o produto, um esforço que logo seria recompensado.

Em 1909 a empresa realizou sua primeira grande venda, com 1200 filtros comercializados na feira de Leipzieg. Com a fama do produto, Melitta recebeu prêmios e a empresa cresceu. Hoje milhões de pessoas em todo o mundo usam os coadores de papel diariamente e a Melitta® é considerada uma das maiores companhias alemãs, presente em cerca de 100 países, e continua sendo administrada pela família fundadora.

 

 

Stephanie Kwolek tinha um sonho: queria ser médica. Incentivada a gostar de ciência pelo pai, que morreu quando ela tinha apenas 10 anos, Stephanie decidiu lutar para salvar vidas. Mas, aos 23 anos, quando ela obteve seu diploma em química pela Universidade Carnegie Mellon, esse sonho parecia distante.

Em 1946, a recém-formada Stephanie pensou que o emprego que conseguira na empresa de produtos químicos DuPont® seria um bom começo rumo à medicina. Com ele, poderia economizar algum dinheiro para se manter durante a nova graduação.

Anos depois, Stephanie havia se apaixonado pela pesquisa química e construído uma carreira sólida na área. No início da década de 1960, ela e sua equipe pesquisavam materiais que pudessem tornar pneus mais resistentes. Stephanie trabalhava com polímeros, que são materiais feitos com carbono, mas não estava obtendo o resultado que precisava: uma mistura que formasse fibras resistentes.

Em vez de uma solução clara e viscosa, sua mistura de ácido tereftálico e p-benzenodiamina formava um líquido opaco e pouco viscoso. Seus colegas acreditaram que, ao ser resfriado, provavelmente formaria fibras quebradiças mas, mesmo assim, ela decidiu tentar transformá-lo em fios para descobrir o que aconteceria.

O resultado surpreendeu a todos. A descoberta de Stephanie formava fios até 5 vezes mais resistentes que o aço. Testes posteriores revelaram uma ampla gama de aplicações, desde a fuselagem de aviões até construções, luvas de cozinha, revestimento de pneus e, principalmente, roupas de proteção.

A partir dos anos 1970, o Kevlar, como foi nomeado, passou a ser utilizado em coletes a prova de balas usados por policiais nos Estados Unidos e também em vestimentas de bombeiros. Projeções estimam que, desde essa época, mais de 3 mil policiais norte-americanos tiveram suas vidas salvas pelos coletes feitos com o material. Após muitas reviravoltas, o sonho de Stephanie se transformou em legado e esperança para todos aqueles que tiveram e terão uma segunda chance graças à proteção do Kevlar.

 

 

Para a nova-iorquina Grace Murray Hopper, pioneirismo nunca foi questão de escolha: inovar e quebrar as regras eram conceitos que simplesmente faziam parte de sua personalidade desde cedo. No início do século XX, chegar à universidade era um privilégio para poucos – algo ainda mais raro para as mulheres – mas, mesmo assim, na década de 20, Grace se graduou em Matemática e Física e seguiu para o PhD em Matemática na Universidade de Yale, tornando-se a primeira mulher a conseguir tal diploma.

Só isso já seria o bastante para colocá-la em um patamar alto da História. No entanto, um acontecimento que mudou o curso da humanidade também deixou sua marca na vida de Grace. Pouco depois, seria a vez dela de fazer o mesmo.

Em 1941 os Estados Unidos entraram na Segunda Guerra Mundial. Impressionada com a barbárie, Grace decidiu que faria sua parte no esforço de guerra. Aos 37 anos ela foi aceita na Marinha norte-americana e formou-se como primeira da turma. A Tenente Hopper foi designada para trabalhar no Serviço de Computação de Navios em Harvard, onde permaneceu até 1949, recusando promoções em sua carreira acadêmica para seguir com os projetos militares. Nessa época, ela trabalhava com o Mark I, um dos primeiros projetos de computadores criados. A enorme máquina era, na verdade, uma calculadora superpotente, que pesava 5 toneladas. Grace precisava transformar fórmulas matemáticas em um sistema que o Mark I compreendesse para que pudesse executar os comandos. Em outras palavras, programação.

Grace, que não conhecia programação antes de entrar para o novo trabalho, aprendeu o conceito rapidamente, e junto com o matemático Howard Aiken foi responsável por programar a máquina. A parceria se estendeu também pelos modelos Mark II e Mark III, gerando uma série de pesquisas. Foi Grace quem descobriu o primeiro “erro de computador”, utilizando o Mark II.

A máquina teve um problema e os pesquisadores descobriram que uma mariposa havia entrado no mecanismo, atraída pela luz. Foi Grace quem, a partir do episódio, apelidou os erros de computação de bugs (insetos, em inglês).

Já nos anos 1950, Grace saiu da Marinha dos EUA e começou a trabalhar na Eckert-Maunchly, onde contribuiu para a criação do UNIVAC, o primeiro computador para uso comercial dos EUA. Lá, ela também desenvolveu o primeiro compilador da história. O aparelho era responsável por “traduzir” a linguagem em que os comandos eram dados (no caso, fórmulas matemáticas complexas) para a linguagem em que a máquina funcionava (sistemas matemáticos mais simples).

Quando todos diziam que não era possível, Grace desenvolveu outro protótipo de compilador, que compreendia a escrita dos comandos em inglês através da linguagem que criou, a FLOW-MATIC, o que basicamente fez com que os computadores pudessem ser usados por pessoas que não tinham treinamento em matemática avançada.

Acostumada a vencer desafios, Grace não parou por aí. Em 1959 o governo norte-americano reuniu as principais empresas de tecnologia do país para criar uma linguagem que fosse fácil para o uso comercial e também compatível de um computador para outro. Com base na FLOW-MATIC surgiu a Common Business-Oriented Language (COBOL). Ainda hoje o COBOL é base para vários sistemas de grandes instituições, como bancos e até entidades governamentais.

“A Incrível Grace”, ou “Vovó Cobol”, como ficou conhecida, voltou a trabalhar para a Marinha dos EUA e se dedicou até o fim da vida ao ensinamento e mentoria de jovens, um de seus maiores orgulhos. Grace permanece incentivando novos talentos através de sua memória e também das ações criadas para homenageá-la, como o Prêmio Grace Murray Hopper, realizado pela Association for Computing Machinery (ACM) e o congresso Grace Hopper Celebration of Women in Computing, desenvolvido pelo Anita Borg Institute, e que visa destacar a carreira de mulheres na tecnologia.

 

 

Amyr Klink foto perfil olhares

Entre Céu e Mar: A Travessia

Sozinho, entre céu e mar, Amyr Klink partiu da Namíbia, na África, no ano de 1984. Seu destino era o Brasil. Mais precisamente Salvador, Bahia. O método escolhido para vencer as 3.700 milhas náuticas do Atlântico Sul que o separavam de sua terra natal era o remo. Amyr Klink decidiu enfrentar o segundo maior oceano do planeta com a força de seus braços e pernas, numa embarcação de pouco mais de seis metros de comprimento.

“A minha rota, longa, fria e tempestuosa, contava, no entanto, com correntes favoráveis na quase totalidade do trajeto e com a preciosa regularidade dos alísios de sudeste que unem o Sul da África ao Nordeste brasileiro. Caminho difícil e longo, mas o único possível para um barquinho a remo”, escreveu Amyr em “Cem dias entre céu e mar”livro que conta toda a história da travessia, desde o projeto do barco que, em junho daquele ano, tocaria o oceano.

Foram anos de pesquisa, dias de angústia e infinitas pilhas de papéis burocráticos até a chegada do dia 18 de junho. O dia da grande libertação, o dia em que Amyr seria dono de seu próprio destino. Se o alívio da partida foi grande, maior foi a alegria de sobreviver à despedida turbulenta em que quase viu seu barco naufragar. Os ventos que expõem os diamantes escondidos sob a terra são também os responsáveis pelas grandes ondas que, somadas às turbulências térmicas, fazem daquela costa africana um lugar extremamente inóspito. “Que diabos vim fazer aqui?”, pergunta a si mesmo. “Sair daqui”, responde, enquanto rema, de costas, “pensando na frente”.

Vencida a costa da Namíbia, e com as correntes trabalhando a seu favor, a viagem começou a render. O comandante impôs à sua tripulação de único homem um regime de trabalho de 10 horas diárias de remo. Fizesse chuva ou fizesse sol. Superou as capotagens, sem lutar contra elas, como era o plano de desenvolvimento do barco, e se encantou com o que o Atlântico escondia além das ondas e tempestades.

“Noite escura, sem céu nem estrelas. Uma noite ardentia. Estava tremendo. O que seria desta vez? A resposta veio do fundo. Uma enorme baleia, com o corpo todo iluminado, passava exatamente sob o barco, quase tocando-lhe o fundo”, descreveu Amyr. Guiado pela posição das estrelas e com a companhia de baleias festivas, tubarões famintos e gaivotas tão solitárias como o comandante, Amyr chegou à costa brasileira, cem dias depois de ter partido.

Encontrou abrigo na Praia da Espera e às 13h30 ligou o rádio para dizer aos seus amigos que estava, finalmente, cercado de coqueiros. Conversou com um pescador, que perguntou como é que tinha sido sua pescaria e por ali ficou, “balançando os pés na água”. “Na quietude daquela noite, a última, ancorado no infinito sossego da Praia da Espera, sonhando com os olhos abertos e ouvindo outros barcos que também dormiam”, Amyr decidiu não desembarcar. Ao contrário, dormiu. Achou que ainda precisava de alguns momentos a sós com o Atlântico.

Texto por Vinícius Bopprê

Uma Rota Romântica na Alemanha

Para quem gosta de viajar, a beleza da experiência não está apenas na chegada ao destino, mas em todo o caminho percorrido. Quando a viagem em si já é uma jornada, aproveitar cada segundo fica ainda mais fácil. Os alemães entendem disso como ninguém: a rota romântica, trajeto de 380 km que liga 28 cidades na Baviera, não é apenas o roteiro de viagem mais popular do país, é também um dos passos mais importantes que o turismo alemão deu para se reconstruir após a Segunda Guerra.

No entanto, quem percorre o trecho que vai do rio Meno aos Alpes mergulha em uma narrativa muito mais antiga que o século XX. As cidades preservadas datam da Idade Média, o que faz a rota lembrar muito uma viagem no tempo pela história da Alemanha.

O meio mais popular para percorrer o roteiro costuma ser o carro, incentivado pela excelente infraestrutura das autobahns alemãs, mas as possibilidades são as mais diversas: os turistas podem utilizar os trens que ligam Frankfurt a Munique ou o ônibus exclusivo da rota. Com ele, é possível partir de Frankfurt ou Munique e parar em cada cidade com apenas uma passagem. Como a validade do bilhete é de seis meses, o viajante tem a liberdade de ficar quanto tempo quiser em cada parada.

Mas para quem gosta de ainda mais aventura, é possível fazer a viagem de bicicleta e ter o bônus de passar por uma das mais importantes estradas do Império Romano: a Via Cláudia Augusta. Localizada na parte sul do roteiro, era muito utilizada pelos romanos como rota comercial que ligava a Alemanha à Itália.

Não existe uma determinação de ponto final ou inicial da rota, os turistas escolhem quantas e quais cidades querem visitar. No entanto, alguns pontos se destacam como os mais frequentados devido às suas imperdíveis atrações, especialmente os castelos de tirar o fôlego e as coloridas cidadelas medievais.  Embora o nome rota romântica venha da preferência de muitos artistas e poetas por essas cidades durante o século XIX, período do romantismo, a paisagem inspira a contemplação e o carinho, um cenário perfeito para casais.

A primeira cidade desta lista é Wuzburg, lar do maior monumento barroco alemão, o Residence Palace. Considerado patrimônio cultural pela UNESCO, o castelo é sede da State Gallery e do Hofgarten, um delicado jardim com heranças barrocas e influências do período rococó. É possível fazer visitar guiadas pelo palácio em inglês ou alemão e a visitação ao jardim é gratuita.

Outra marca registrada da cidade é a Festung Marienberg, uma fortaleza medieval que data do século XIII e até hoje domina a paisagem da cidade. Em uma só visita é possível conhecer a fortaleza, o jardim Fürstengarten, o portão Scherenberg e a igreja Marienkirche.

Os visitantes costumam pernoitar em Wurzburg para aproveitar a deliciosa comida da Baviera e a calorosa hospedagem local.  Depois, é hora de seguir viagem para Rothenburg ob der Tauber, uma pequena cidade que é considerada por muitos a mais bonita do trajeto.

Tudo em Rothenburg lembra a Idade Média: suas vielas de paralelepípedo, a muralha decorada com flores, as casas coloridas em estilo enxaimel, os portões e torres. Rotenburg abriga um dos conjuntos arquitetônicos medievais mais bonitos de toda a Alemanha, além de vários museus dedicados ao tema e é também famosa por realizar uma das decorações de natal mais bonitas de todo o país.

A próxima parada, Augsburg, não fica devendo nada às vizinhas quando o assunto é importância histórica. A cidade é lar da família Fugger, que estava entre as mais ricas do mundo na Idade Média e promoveu grandes melhorias no local desde então, como os Fuggerei, o primeiro conjunto habitacional do mundo, criado em 1521 por Jakob Fugger. A prefeitura de Augsburg também é uma grande atração local, impressionando por seu exterior e principalmente pelas atrações interiores, como o Goldener Saal, ou Salão Dourado, cujas paredes e teto são folheados em ouro 24k.

A abadia de St. Ulrich e Afra é outro destaque da cidade, assim como os festivais criados em homenagem a seus ilustres moradores, a família Mozart e o dramaturgo Bertold Brecht. Em todo o ano são abundantes as opções gastronômicas, especialmente nos bares e restaurantes do centro da cidade, que é também a terceira maior da Baviera.

A última parada é Füssen, cidade que ganhou fama mundial pelos castelos ao seu redor.  O mais famoso deles, o Neuschwanstein, serviu de inspiração para o castelo da Cinderela, criado por Walt Disney em Orlando.  Na verdade, seu grandioso projeto nunca foi concluído devido à morte de seu idealizador, o rei Ludwig II da Baviera, que desejava torná-lo o castelo mais bonito do mundo. Seu nome, que significa “novo cisne de pedra” é inspirado nas óperas do compositor Richard Wagner, amigo de Ludwig II.

Hohenschwangau  pertenceu ao pai de Ludwig II e foi onde o rei passou sua infância. O castelo tem vista para o Neuschwanstein e é completamente aberto à visitação, pois todos os seus cômodos estão completos. Mas Füssen oferece ainda mais atrações a seus visitantes.

A cidade também é famosa pela tradição do artesanato e no Altstadt, o centro histórico, os viajantes encontram diversas opções de entretenimento e gastronomia. Lá também está localizada a entrada para a Via Cláudia Augusta, um encanto a mais para os amantes de bicicletas.

Com tantos pontos turísticos para admirar, impossível não se apaixonar pelas belezas da Rota Romântica, um destino de férias que inspira o olhar para a tradição e o esplendor das épocas passadas, mas também convida à fruição do tempo presente. Uma viagem para aproveitar cada momento sem pressa e não esquecer jamais.

Cidades Conectadas

Com o nível de desenvolvimento científico atingido pela humanidade tornou-se impossível imaginar o futuro sem tecnologia, mas a verdade é que o presente já está conectado além do que a ciência proporciona. Teóricos como Manuel Castells e Zygmunt Bauman afirmam que já vivemos em uma sociedade em rede onde tudo muda muito rápido, o que acaba se manifestando por meio de cidades modernas.

Desta forma, é possível refletir o que torna uma cidade realmente moderna? O nível de tecnologia usado em suas instalações públicas? A possibilidade de desenvolvimento de startups, presença de universidades e empresas voltadas à inovação? Disponibilidade de internet para todos? O equilíbrio com o meio ambiente? Para as cidades conectadas, a resposta passa por esses temas e vai além.

Em 2016, o relatório Networked Society City Index, produzido pela sueca Ericsson em parceria com a consultoria especializada em desenvolvimento sustentável Sweco, analisou o que cidades do mundo inteiro estão realizando para se adaptar a essa nova realidade. As cinco primeiras do ranking – Estocolmo, Londres, Cingapura, Paris e Copenhague – estão adotando diferentes estratégias de acordo com o que necessitam para se adaptar a essa nova realidade.

A capital sueca, reconhecida por ser uma das cidades com maior qualidade de vida no mundo, compreende a tecnologia como um bem público, ao qual todos devem ter acesso. Um dos destaques que a trouxe à liderança no índice é o acesso praticamente universal à rede de fibra ótica, controlada por uma empresa estatal como se fosse qualquer outro tipo de infraestrutura, o que também explica o grande número de startups sediadas na cidade – algumas de renome internacional, como o serviço de streaming de músicas Spotify.

A preocupação dos suecos com o meio ambiente também se traduz em inovação. Além das tradicionais bicicletas, utilizadas por metade da população, Estocolmo está testando o uso de ônibus elétricos que conseguem recarregar as baterias enquanto esperam no ponto. O projeto faz parte de uma meta maior: o objetivo é eliminar o uso de combustíveis fósseis até 2030, em um esforço para desenvolver a cidade em equilíbrio com a natureza. Mas essa não é a única estratégia para garantir um futuro melhor. As escolas da cidade, conhecidas por sua excelente qualidade começaram a ensinar programação de computadores como disciplina, o que faz com que as crianças tenham contato com a tecnologia desde muito cedo.

A segunda colocada, Londres, é uma cidade cuja tradição fala por si. Mas apesar de seus séculos de história, a capital britânica está longe de ter ficado presa ao passado. Atualmente, entre as 30 startups “unicórnios” da Europa, 11 estão localizadas à beira do Tâmisa.

Na região leste da cidade está localizado o Roundabout, terceiro maior centro de empresas de tecnologia do mundo, que vem revitalizando a região e atraindo cada vez mais investimentos. Um dos destaques é o segmento de fintech, que tem a vantagem de contar com a tradição local em finanças.

Já no distrito de Greenwich está o projeto GATEway, em que veículos autônomos são testados em ambientes controlados, na busca de mais uma solução de transporte para uma capital conhecida por seu eficiente sistema de metrôs, mas que ainda sofre com a qualidade do ar causada pela emissão de poluentes.

As autoridades estudam incentivar ainda mais a proliferação de empresas do setor criando uma agência governamental específica para tecnologia. A prefeitura inclusive já iniciou as buscas para a contratação de um responsável pelo setor de tecnologia do município.

Em terceiro lugar, está Cingapura, que vem passando por um intenso programa de desenvolvimento desde os anos 80. O programa Smart Nation, lançado em 2014 pelo governo da ilha, foca em cinco setores de essenciais para o desenvolvimento: transporte, habitação e meio ambiente, saúde, produtividade e serviços públicos.

Além de investimentos em áreas tradicionais, como desenvolvimento e pesquisa, o governo planeja abrir os dados públicos, fomentando a transparência da gestão. Entre outras iniciativas inovadoras está o conjunto habitacional Yuhua, que inclui ferramentas tecnológicas dentro das residências e também no bairro para monitorar serviços como coleta de lixo, eletricidade e água. Dentro de casa, os habitantes contam com dispositivos que auxiliam no cuidado com idosos e também podem testar ferramentas em primeira mão, colaborando com os desenvolvedores no aperfeiçoamento dos dispositivos.

Paris, a quarta colocada, também aposta no incentivo governamental e na participação de empresas, indústrias e moradores. A capital francesa aderiu ao programa “Market Place of the European Innovation Partnership on Smart Cities and Communities”, que visa conciliar o desenvolvimento tecnológico e humano, valorizando a importância das cidades para o continente europeu.

Entre as áreas priorizadas pelos parisienses, transporte e energia lideram. A cidade planeja criar um circuito energético renovável, em que as fontes de energia se complementam e são medidas junto com outros equipamentos públicos para tornarem-se as mais eficientes possíveis.

Esse conceito de integração pode ser visto no Station F, maior espaço de trabalho coletivo para startups do mundo, que inclui apartamentos residenciais, restaurantes, centro de esportes, correios, espaços para eventos e centros de entretenimento.  O local, apoiado pela iniciativa privada, deve ser inaugurado ainda em 2017 e acredita na cooperação internacional como princípio, atraindo desde o início empresas estrangeiras como o Facebook.

Voltando para o extremo norte, Copenhague, a quinta colocada, aposta no planejamento urbano para definir o estilo de vida dinamarquês nas próximas décadas.  A ideia é construir um novo eixo de desenvolvimento apoiado na construção de uma linha de metrô, com o objetivo de conectar cidades vizinhas da região metropolitana, interligando bairros em vez de gerar conexões somente entre subúrbios e centro.

Novamente, a integração entre moradores, iniciativa privada e governo está na base do projeto e é a base para ideias como linhas de produção sustentáveis, modernização de estruturas para torná-las ecologicamente corretas e mobilidade urbana baseada em princípios ambientais.

Mesmo para as líderes na área, o caminho para cidades completamente sustentáveis, que privilegiem a qualidade de vida de seus moradores e gerem desenvolvimento econômico ainda é árduo. Não existe uma receita única ou fórmula mágica que dê conta de realidades tão distintas, mas a solução parece estar justamente na conexão entre ideias, pessoas e projetos: exatamente como uma sociedade de redes deve ser.

Química da maternidade

O nascimento de um novo ser é sempre um momento de iluminação. E quando esse novo ser é um bebê gerado com todo o amor maternal, nasce também uma família e novas relações. O amor que une o neném recém-chegado à sua mãe é a primeira sensação de afeto que ele sentirá durante toda a sua vida, mas a verdade é que esse laço, que parece instantâneo, é elaborado muito tempo antes do parto.

Desde o momento da concepção, o corpo da mulher se prepara para a gestação e, posteriormente, parto e lactação. São produzidos hormônios como estrógeno e progesterona, que auxiliam na manutenção da gravidez, bem como ocitocina, que ajudará no trabalho de parto e prolactina, que estimulará a amamentação.

Além disso, existem as mudanças visíveis no organismo e na rotina, como o crescimento da barriga, alargamento da pélvis, alteração no ritmo de sono, enjoos, fome excessiva e uma série de outros fatores que são naturais para que o corpo da mãe acomode o desenvolvimento do bebê.

As mudanças hormonais também despertam importantes alterações neurais que dão origem ao que a biologia chama de apego materno, como explica a professora Maria Lucila Ribeiro Martins, que leciona Anatomia, Fisiologia  e Embriologia na Universidade Presbiteriana Mackenzie:

“A ocitocina pode ser produzida no cérebro das pessoas atuando em alguns circuitos que têm a ver com administração de emoções de um modo mais amplo e, no período pós-parto, apego maternal. São os mesmos tipos de circuito que aparecem em animais sociais”, disse ela ao Olhares do Mundo.

Para a professora, esse apego maternal, ou amor maternal, como muitos preferem chamar, tem muito mais a ver com questão de funcionamento neurológico e neurotransmissores do cérebro que apenas as questões hormonais e químicas propriamente ditas, o que também explica como mães que adotaram seus filhos conseguem sentir o mesmo amor sem terem passado pela gestação.

Analisando a questão como espécie, esse é um sistema elaborado durante milênios, com o objetivo de fortalecer os humanos e aprimorar sua reprodução: ou seja, quando o assunto é amor de mãe, nada é por acaso.

Mas, apesar de os aspectos biológicos serem muito importantes, a preparação para a chegada de um bebê envolve não apenas hormônios ou processos neurais, como explica a professora:

“A gente não pode atribuir o instinto materno a apenas uma questão hormonal. Na nossa espécie, toda a preparação para a chegada do bebê, montagem do quarto, enxoval, fazer os exames, tudo isso gera alterações na nossa maneira de funcionar também. Não acredito que a gente seja mero produto de alteração hormonal”, disse.

Em todo o processo de gestação, se há um momento em que emoção e biologia trabalham juntas é a hora do parto. Em primeiro lugar, as mães precisam ter toda assistência médica possível, com uma equipe de saúde qualificada para atender a qualquer emergência, medicamentos, se necessário, e um ambiente higienizado.

Mas, nos últimos anos, as mulheres passaram a enxergar também a hora do parto como um momento de autoconhecimento, respeito ao próprio corpo e ao bebê e formação de laços para a própria família, mais do que um simples processo cirúrgico. A união desses elementos deu origem ao parto humanizado, tendência que vêm ganhando cada vez mais adeptas no Brasil e no mundo.

A fotógrafa Luciana Zenti é uma ativista da causa e hoje trabalha exclusivamente com fotos de parto. Seu primeiro contato com essa realidade aconteceu há 14 anos, no nascimento da filha mais velha, que foi por vias normais. A experiência foi tão gratificante que sete anos depois, quando deu a luz ao segundo filho, ela optou pelo parto humanizado. Hoje, devido à sua vivência e também por toda a experiência profissional e conhecimento que adquiriu sobre o tema, Luciana vê o nascimento sob uma perspectiva diferente: a do empoderamento da mulher.

“(O parto humanizado) é um ato de transgressão, de coragem, de empoderamento feminino. Não basta você querer, tem que se informar, tem que buscar profissionais que estejam em sintonia. A ideia é que a mulher seja protagonista do parto dela, ainda que a equipe possa ajudar, facilitar, especialmente se tiver uma complicação, mas ela é capaz de parir”, disse ela ao Olhares do Mundo.

É importante lembrar que não são apenas os partos normais que podem ser considerados humanizados. Na verdade, a humanização está mais relacionada à abordagem que ao método e pode acontecer em casa – apenas quando mamãe e bebê apresentam excelente situação de saúde durante toda a gravidez-, no hospital e até em uma cesárea, embora a cirurgia só seja indicada para situações em que é necessária por motivo de saúde.

A ideia é respeitar o tempo que a mulher necessita para dar a luz, que varia de acordo com a evolução do trabalho de parto, sem utilizar técnicas e medicamentos para apressar o nascimento, evitar a aplicação de procedimentos desnecessários, proporcionar o máximo de contato possível entre mãe e bebê, incentivar a participação do pai e familiares e criar um ambiente confortável para a ocasião, sem que o ar condicionado esteja muito frio ou haja luzes intensas. Ou seja, um equilíbrio entre o que é necessário para saúde e o aspecto emocional.

Nesse contexto, muitas mães optam por serem acompanhadas por doulas, profissionais especializadas em atender as necessidades emocionais das gestantes, e também fotógrafos, para registrar os detalhes que, muitas vezes, passam despercebidos em meio a emoção do momento.

E é aí que entra Luciana, que vê na fotografia uma oportunidade de ampliar o acesso à informação e promover cada vez mais o empoderamento feminino, especialmente no sistema público de saúde. Atualmente ela, que também é jornalista, conduz o projeto Parto Delas (@projetopartodelas no Facebook), documentando os nascimentos humanizados na maternidade Bairro Novo, em Curitiba, um exemplo de trabalho pioneiro em relação ao parto humanizado no SUS.

“A principal diferença dos partos que fotografo comercialmente e do meu trabalho autoral é que, no SUS, essas mulheres não têm acesso a informação, não sabem o que é um parto humanizado”, comenta. “No caso do projeto Parto Delas, eu escolhi uma maternidade que está realmente comprometida com o parto humanizado. Quando as mulheres são atendidas ali, elas podem não saber o que é um parto humanizado, não ter conhecimento técnico, mas depois de passar pela experiência, elas têm certeza absoluta de que foram tratadas com respeito”.

De uma forma geral, quando feito de maneira respeitosa, de acordo com procedimentos de saúde, reações biológicas naturais e necessidades emocionais, o processo todo se reflete em benefícios para a relação entre o bebê, a mãe e toda a família, gerando um ambiente de amor para que a criança tenha a melhor chegada possível, conta Luciana:

“A família passa por um fortalecimento de laços. Quando é um parto domiciliar a família participa muito, principalmente se o bebê tem irmãos mais velhos. Acaba impactando de uma forma muito positiva na forma como esses irmãos vão se relacionar e como a família vai lidar com a chegada de um novo ser. É um momento de intimidade, de conexão”, completa.

Para Luciana, as fotografias que estão expostas nestas galerias captam vislumbres de alegria e cumplicidade, algo que transforma não só as mulheres, mas todos que passaram pela experiência. Uma nova perspectiva sobre a própria vida.

A Silenciosa Sinfonia dos Bastidores

Para quem acompanha a sincronia de uma orquestra musical no palco é difícil pensar que tamanha afinação surge justamente do caos. Antes dos trajes a rigor e passos coordenados é a vez das calças jeans, cadeiras desarrumadas, confraternização e acordes pra lá de desafinados: é no ensaio que a orquestra tece o encanto que transmitirá a seus ouvintes.

Mas a história de um espetáculo tem uma gestação muito maior que o período de entrosamento entre os artistas. Os preparativos para um concerto começam entre um ano e meio e dois anos antes da data da apresentação, bem longe dos palcos. A verdade é que, quando se trata de uma orquestra musical, não existe detalhe que não tenha sido pensado, organizado e bem executado até o ponto de parecer extremamente natural. O resultado não podia ser outro: magia. Ou, melhor dizendo, arte.

No caso do Mozarteum Brasileiro, a preparação para o concerto com a soprano alemã Diana Damrau aconteceu em meio a uma construção ainda mais antiga: o sonho de montar uma orquestra própria. A instituição, que existe há 36 anos, é uma importante associação cultural na cena paulistana, formando músicos e convidando grupos e artistas famosos para se apresentarem na cidade, mas foi apenas neste ano que o plano se tornou realidade. Depois da estreia em março, a apresentação com Diana marcou a segunda vez que a Orquestra Acadêmica Mozarteum Brasileiro se reuniu para um concerto.

Apesar do clima de novidade, os planos para os dois dias de apresentação da aclamada soprano em São Paulo começaram há dois anos, quando a diretora artística Sabine Lovatelli escolheu o repertório e o programa. A partir de então, um exército de profissionais se reuniu para tornar o espetáculo possível, entre eles a produtora musical Isabel Mantovani Arruga.

É responsabilidade da produção conciliar as agendas dos músicos, conseguir um local adequado para a apresentação, providenciar vistos e traslado de artistas internacionais, organizar a estrutura de camarins, alugar instrumentos quando necessário e uma infinidade de outras atribuições. Isabel, que já trabalhou com produção musical em diversas áreas, conta ao Olhares do Mundo que, embora shows também apresentem seus desafios, nada se compara à energia necessária para realizar um concerto:

“A orquestra musical é muito mais complexa que o resto. Em um show de rock, você só precisa fazer a parte logística e técnica, porque os músicos já se conhecem, estão entrosados, têm seus próprios instrumentos. A orquestra é outro mundo. Tem que organizar as partituras, a minutagem, a folha de programa, os instrumentos, os ensaios, além de todo o protocolo para lidar com os músicos. Tem que ter jogo de cintura”, explica.

 

Para Isabel, a parte mais difícil de toda a produção é obter as partituras das músicas, pois são elementos tão fundamentais quanto difíceis de serem encontrados:

“Às vezes é fácil, algumas partituras são encontradas na internet, mas em outras precisamos entrar em contato com as editoras para pedir locação ou compra das partituras. No Brasil, os acervos dessa área não costumam ser muito ricos, então temos que entrar em contato com o pessoal dos Estados Unidos e Europa, é mais complicado”, conta Isabel ao Olhares do Mundo.

Vencida esta etapa, os arquivistas entram em cena. Como lembra o maestro Carlos Moreno, regente da Orquestra Acadêmica Mozarteum Brasileiro, “o arquivo é o cérebro da orquestra. É o primeiro a trabalhar. Até você ter o material a ser enviado para estudo, o arquivo já está trabalhando há meses”.

Após receberem as partituras, os arquivistas são os responsáveis por ler uma por uma e montar as pastas com as partituras de cada instrumento de acordo com a ordem de apresentação das músicas. Ao todo, quase cem músicos precisam receber com antecedência seus materiais de estudo para o concerto, além do maestro, é claro.

Para a apresentação com Diana Damrau, o Mozarteum contou com o trabalho de dois arquivistas em período integral durante um mês e foram necessárias duas semanas apenas para a divisão das partituras.

A partir de então, os músicos entram em cena. Convidados pessoalmente pela diretora artística, que leva em consideração suas especialidades e talentos para montar a equipe mais adequada para o espetáculo, eles precisam ensaiar individualmente antes de se reunirem com a orquestra em um ensaio geral. Isso, é claro, sem contar os anos de preparação para se tornarem profissionais.

O primeiro contrabaixista acústico Julio Nogueira, que hoje se prepara para estudar música na Alemanha devido a seu destaque na Orquestra Acadêmica, é um apaixonado pela música, mas descobriu o universo da música erudita quase que por acaso, aos 14 anos.

“Queria ter uma banda de rock e surgiu uma oportunidade de aprender contrabaixo. Eu pensei que fosse o elétrico, mas quando cheguei lá, era o acústico. Aí eu pensei: já que eu estou aqui, vamos lá né. Aí fui estudando e surgiram novos sonhos, de estudar fora, de me profissionalizar”, conta ele.

Desde então, lá se vão 16 anos de muito estudo e trabalho, já que o músico concilia a orquestra com sua banda de rock. A rotina se torna ainda mais intensa durante a preparação para o concerto, lembra Julio:

“A gente recebe as partituras, anota todas as arcadas, vê muitos vídeos e ouve muitos artistas para ter como referência e aí é muito estudo diário, tanto de técnica sobre o repertório e o repertório em si. Está tudo interligado, não tem como estudar uma coisa ou outra. É um trabalho de três a quatro horas por dia, pelo menos, estudando com o contrabaixo e mais cinco a seis horas de ensaio com a orquestra”.

Além disso, Julio revela que cada artista tem suas próprias técnicas de estudo, o que pode aumentar ainda mais a carga de trabalho do músico:

“É uma preparação muito intensa e, no meu caso, eu ouço muito tudo que a gente vai tocar para conhecer a parte de todo mundo, para entender as diferenças de andamento e nuances das músicas. Gosto de ter isso tudo o mais decorado possível para não ficar preso à partitura na hora da execução”, disse.

Mas não basta apenas a técnica: o elemento humano é fundamental. No fim das contas, embora a ciência seja muito próxima à música, uma orquestra musical é feita de pessoas. O convívio influencia diretamente na sintonia entre os artistas e, consequentemente, na afinação. É na hora de construir o entrosamento que entram os ensaios gerais.

Mas, para que aconteçam dentro do previsto, toda a equipe precisa participar. Além dos músicos, a orquestra conta com o trabalho de profissionais como o gerente de palcos e o inspetor. O gerente é o responsável por supervisionar aspectos como, montagem e desmontagem de instrumento e condições do palco. Já o inspetor é quem cuida da disciplina, observando a pontualidade e comportamento dos músicos, por exemplo.

Para o concerto com Diana, que aconteceu entre os dias 1º e 2 de maio, foram necessários 10 ensaios gerais de 3 horas cada, além de toda a preparação individual de músicos e maestro, ou seja, um enorme esforço físico e psicológico.

Não à toa, o maestro Carlos Moreno se preocupa constantemente que cada reunião seja a melhor possível, para que consiga obter o melhor entrosamento possível, o que é ainda mais importante em uma orquestra tão nova.

“O que nós fazemos aqui é a dinâmica de grupo, ou seja, é o trabalho em que a gente busca, por exemplo, em uma sessão de 20 violinos, que todos toquem igual”, comenta.“ A dinâmica de ensaio é repetitiva, mas tem que ser bem feita, senão, enjoa. E aí, o que acontece? O músico se desliga. Então precisa repetir o que precisa repetir, mas você também toca o que já pode ser tocado para você manter um ensaio produtivo”.

Na prática, isso se manifesta na troca de ideias durante o ensaio. Para quem está acostumado com a postura rígida das apresentações, acompanhar estes momentos é como olhar pelo buraco da fechadura.

 

Os músicos interagem ativamente entre si, compartilhando anotações, às vezes se comunicando apenas com o olhar, outras, conversando enquanto esperam suas execuções, apreciando a música tocada pelos colegas. É quando acontecem as pausas, em que o maestro interage, realizando interrupções pontuais que seriam inimagináveis na apresentação oficial. Esse é o momento em que regente e corpo de músicos se unem para dar o tom do concerto: não se trata necessariamente de corrigir erros, mas imprimir a personalidade da orquestra em composições consagradas, tornando a execução mais pessoal.

O resultado da apresentação é, em grande parte, fruto de como o artista se sente em relação à música. Para o maestro, a questão da arte é, em essência, uma análise da condição humana e, nesse sentido, o concerto é uma grande oportunidade de metamorfose pessoal e social.

“Quando estou realizando um concerto, eu estou oferecendo algo que é muito mais do que aquela orquestra. É um sentimento de transformação. A arte que não transforma sentimentos, não é arte. Essa é a minha crença, de que como artista sou um transformador de sentimentos. E a minha missão como líder é justamente levar para eles (os músicos) uma proposta, fazer com que eles comprem uma ideia e fazer com que essa ideia se reproduza durante o concerto, artisticamente, sentimentalmente e humanamente”, diz Carlos Moreno.

Depois de tanto esforço, o único pesadelo possível para uma equipe tão dedicada seria a frustração de tudo o que sonharam e planejaram durante meses.

Tanto para Isabel, quanto para o maestro e o contrabaixista Julio, o pior cenário é aquele em que, justamente, não há cenário: problemas com vistos que impeçam a entrada de convidados estrangeiros no país, impedimentos estruturais no local da apresentação, cancelamentos.

Para a sorte dos admiradores da música erudita, a competência e dedicação da equipe consegue superar todos os obstáculos, o que resulta em apresentações memoráveis.

Por fim, a melhor homenagem a quem se comprometeu a afinar cada detalhe durante tanto tempo, em meio ao anonimato dos bastidores, não poderia ser outra se não o estrondo dos aplausos.

Texto e fotos por Natália Scalzaretto

 

 

Mil e Uma Folhas do Matcha

Para alguns, Camellia sinensis. Para outros, apenas chá verde. Para a comunidade japonesa Urasenke, o chá de matcha é uma porta para o caminho da espiritualidade.

A tradição remonta ao século XII, quando monges budistas levaram as folhas de chá da China para o Japão. A partir dos mosteiros, onde era utilizado como um estimulante para a meditação, o ato de tomar chá se tornou parte do cotidiano das pessoas – especialmente da nobreza, que acrescentou a admiração de objetos de porcelana a seu processo -, até que no século XVI, a tradição cultural ganhou também uma dimensão espiritual devido aos ensinamentos do mestre Sen Rikyu.

Para ele, a cerimônia do chá baseava-se em quatro princípios inspirados no Zen budismo: wa, kei, sei e jaku. Wa é harmonia, Kei, respeito, Sei significa pureza e Jaku, tranquilidade. Esses princípios norteadores da cerimônia do chá não apenas sobreviveram durante quatro séculos, como também são mantidos até hoje, prosperando pelo mundo inteiro. Hoje, o chadô, ou o caminho do chá, como fora idealizado por Sen Rikyu, tornou-se também sinônimo da cultura japonesa para aqueles que entram em contato com a filosofia por trás do chá.

Em São Paulo, a experiência do chadô pode ser vivenciada no Centro de Chado Urasenke do Brasil, instituição criada pela família Sen que se dedica a propagar os ensinamentos de Sen Rikyu.

Por fora, o antigo prédio localizado na Liberdade, o bairro com mais influência oriental na cidade, não foge do cinza árido da capital paulista, o que apenas ressalta o encanto da salinha escondida no fundo de um corredor no quarto andar. Saindo do elevador, o ambiente se destaca por sua acolhedora decoração de madeira. O que parece pequeno, a princípio, se revela uma entrada muito mais espaçosa que o previsto.

As pedras molhadas que formam um caminho por entre a forragem de pedrinhas brancas são convites que indicam que os visitantes são bem-vindos. Andar pelas pedras úmidas é o primeiro ato de purificação pelo qual passarão os convidados, a essa altura já transportados para um universo de tranquilidade. Não fosse a silhueta da cidade a lembrar que a capital paulista segue seu ritmo lá fora, é fácil se esquecer do turbilhão da terra da garoa.

O jardim cuidadosamente plantado, a cerca de bambu e a fonte: tudo está em seu lugar, conduzindo naturalmente ao Wa. Ali os convidados devem lavar as mãos e a boca, purificando-se novamente. Agora, mais tranquilos e purificados, é hora do chá.

Os movimentos são precisos, para tudo existe um significado que deve ser respeitado. É preciso dedicar-se de ao momento pois, afinal, não se sabe quando, ou se, haverá a oportunidade de participar de uma nova cerimônia. De qualquer forma, uma cerimônia não é igual a outra, assim como nós não somos os mesmos em diferentes ocasiões.

“O chadô surgiu em uma época de muitas guerras no Japão, podia-se morrer a qualquer momento. A cerimônia era o que trazia tranquilidade aos guerreiros samurais”, explica o Mestre Sôichi Hayashi, o responsável pela sede brasileira da Urasenke.

Desta forma, entende-se que o chadô é, em sua essência, uma celebração à vida onde tudo é feito para estimular a fruição e o equilíbrio com a natureza. Para o mestre, a principal característica da cerimônia, chamada chanoyu, é a purificação: “depois de purificados, os corações são unificados”, completa.

O objeto mais sagrado no espaço, que deve ser reverenciado e observado, é o painel com a caligrafia do Grão-mestre, que veio diretamente do Japão. Nessa sala, em particular, o ideograma fala sobre a dança dos grous, pássaro símbolo da sorte no Japão. A ideia é que essa caligrafia dê o tom à cerimônia, que nesse caso é voltada à prosperidade. A flor, mais um elemento a ser observado, simboliza a presença da natureza e não deve ser perfumada demais, venenosa, ou conter espinhos.

O silêncio da cerimônia é absoluto, interrompido apenas por barulhos externos, inevitáveis em uma metrópole. A concentração em cada movimento é total, mas não requer esforço. É como se a mente soubesse que precisa se acalmar.

Para quem nunca participou de um chanoyu, a simplicidade chega a ser desconcertante. Nenhum movimento é desnecessário, mas para atingir esse nível de precisão, as regras são muito rígidas. A professora Bertha Hoshi ressalta que o aprendizado do chadô não envolve apenas o estudo, mas também a prática: “o corpo precisa lembrar”.

 

Existem diversos tipos de cerimônia e, uma completa, com refeição, dura quatro horas. Para compreender o básico é necessário praticar pelo menos uma vez por semana, durante seis meses, o que explica a sensação de inadequação dos convidados de primeira viagem. Afinal, em uma cerimônia tão delicada, que tem como princípio o respeito a tudo e todos, o medo de cometer uma gafe e ofender anfitriões tão gentis é palpável.

O lado bom em ser um marinheiro de primeira viagem é a curiosidade e a disposição em aproveitar o momento. Conforme a cerimônia avança, todos os sentidos são estimulados. É servido um doce de sabor leve e inusitado, cujo ingrediente principal, o feijão branco, não é identificado facilmente na primeira mordida.

Após a apreciação do doce, que é responsabilidade da auxiliar da anfitriã, o destaque é todo dado à preparação do chá de matcha, quando a contemplação se torna cada vez mais natural. Muito antes de servir a bebida, a anfitriã realiza mais um ritual de purificação com um tecido de seda vermelho – que seria roxo caso se tratasse de um anfitrião. Ela dita o ritmo da cerimônia, observando cada objeto cuidadosamente enquanto se dedica ao chá.

Os objetos são apoiados em uma pequena estante, enquanto a água é aquecida no próprio tatame. Dentro dele, há um braseiro de carvão embutido, o que também torna o ambiente mais acolhedor.

Mais do que apenas colocar as folhas pulverizadas em infusão na água morna, a anfitriã usa um batedor de bambu chamado chasen, que faz com que o chá seja servido com uma espécie de espuma.

Nesta cerimônia, especificamente, foi servido o usucha (chá fraco), variedade mais leve. Já o koicha (chá forte) é mais espesso, de sabor pungente e requer preparação especial, “uma refeição leve, para não passar mal”, como explica o mestre Sôichi.

O chá de matcha é preparado com um pó fino, feito com os primeiros brotos da planta, o que torna o sabor indescritível. O usucha é marcante, mas sem ser amargo. Quente, mas não a ponto de queimar. É fresco e leve, mas encorpado ao mesmo tempo. A degustação é o ponto alto de todo o chanoyu, mas não acaba aí. O chadô prega o respeito entre tudo e todos, por isso, cada objeto é limpo e recolocado em seu lugar e cada convidado é responsável pelo lixo que produz.

Em um último gesto de hospitalidade, a anfitriã repõe a água utilizada, para que, desta forma, sempre esteja preparada para oferecer chá a novos convidados. O mestre Sôichi tem razão: os visitantes do Centro de Chado Urasenke do Brasil fazem o caminho de volta para a cidade purificados, tranquilos e em sintonia com a natureza. Mas acima de tudo, gratos, pela experiência de entrar em contato com a própria essência.

Texto por Natália Scalzaretto
Fotos por Vinícius Bopprê

 

 

Dinâmicas do Corpo

Poucas coisas são capazes de nos emocionar tanto quanto o esporte. Todo o potencial físico do atleta trabalha em busca de apenas um objetivo, a vibração da torcida, a beleza da vitória, a dor da derrota. Drama, suspense e ação em um mesmo ato: poderia ser um filme, se não se tratassem de histórias reais – e que histórias. Dentre todas as modalidades, se existe uma categoria que transita entre o esporte e a arte é a ginástica. Dividida entre ginástica artística masculina e feminina– também conhecida como olímpica – e ginástica rítmica masculina e feminina, a modalidade é famosa por propiciar espetáculos.

Os movimentos da ginástica são conhecidos e praticados desde a pré-história. O esporte era reconhecido em civilizações como o Egito Antigo, onde era praticado pelos soldados para fortalecimento, e nas olímpiadas da Grécia Antiga, de onde também veio a palavra gymnastiké,  origem de seu nome. No entanto, a institucionalização como esporte ocorreu apenas em 1811, quando o professor alemão Friedrich Ludwig Jahn, inspirado pelas ideias de Jean-Jacques Rousseau e Johann Christoph Friedrich Guts Muths, criou um clube voltado exclusivamente para a prática de ginástica.

Nesse mesmo período, surgia uma preocupação sobre como era possível expressar os sentimentos através do corpo. Os coreógrafos Émile Jacques Dalcroze e Rudolf Bode foram alguns dos principais responsáveis por unir a dança à ginástica artística, tornando os movimentos mais leves. Mas foi a norte-americana Isadora Duncan quem realmente popularizou o esporte, já no século XX, levando-o à antiga União Soviética, onde se tornou uma modalidade oficial.

Hoje ambas as modalidades são reconhecidas e disputadas por homens e mulheres em campeonatos por todo o mundo. Nos Jogos Olímpicos, as apresentações de ginástica são famosas por serem alguns dos momentos mais esperados de toda a competição, rendendo momentos icônicos como o “dez perfeito” da atleta romena Nadia Comaneci, nos Jogos de 1976. A menina, que tinha apenas 14 anos nas Olimpíadas de Montreal foi a primeira ginasta da história a atingir todas as notas máximas nas barras assimétricas – algo que, até então, era considerado impossível.

O Brasil também tem excelentes lembranças da ginástica, com nomes como Daiane dos Santos, a primeira brasileira campeã mundial na ginástica artística, os irmãos Daniele e Diogo Hypólito e, recentemente, o campeão Arthur Zanetti, o primeiro ginasta brasileiro a conquistar o ouro olímpico.

Mas entre o sonho do pódio e a glória da medalha existe muito mais do que o que aparece na hora da competição. Quem vê os movimentos leves, sincronizados e executados tão perfeitamente se encanta com a habilidade que os atletas demonstram nos aparelhos, mas não sabe que, por trás de cada pirueta, existem anos e anos de sacrifício de atletas e equipe técnica.

Para a treinadora da seleção brasileira individual de ginástica rítmica, Monika Queiroz, um campeão não surge apenas com fatores isolados, mas de uma união entre esforço, condições materiais e formação pessoal.

“Tem os ganhos pessoais, o fator motivacional, a preparação que você vai fazer com o seu técnico, com sua equipe técnica. Isso eu digo que está na parte de 20 a 30%. 70% são os ganhos materiais. Que são o que? Condições de treino, uma equipe multidisciplinar, um pró-labore em que o atleta possa viver – e não sobreviver. Porque se ele está sobrevivendo ele não está sendo mais atleta, ele está fazendo esporte por opção”, disse Monika ao Olhares do Mundo.

Para o desenvolvimento de uma carreira longa e produtiva, também é preciso muito tempo de treinamento contínuo. Segundo Monika, a idade ideal para que uma criança seja introduzida na ginástica é durante a fase de alfabetização, entre 5 e 7 anos.

No entanto, é preciso enxergar o esporte como um complemento lúdico das demais atividades da criança e não forçar a participação em competições desde cedo, já visando a formação de um atleta olímpico. É claro que um campeão precisa treinar desde pequeno, o que não significa que todos os pequenos atletas seguirão no caminho do esporte. A diferença surgirá com o tempo mas, para isso, é preciso ter paciência e perseverança.

“(A infância) deve ser o primeiro momento da criança no esporte, em que ela aprende a ganhar e a perder. As pessoas acham que só porque a criança é talentosa – o que também pode ser um erro, por que às vezes a criança nem se descobriu ainda – acabam adiantando as fases”, diz Monika.

Aliás, o aprendizado da superação é fundamental. Tanto em relação a lesões, que podem acontecer a todos, mas também a dinâmica da ginástica. Um esporte tão difícil, em que as notas são decididas nos detalhes, é um caminho tortuoso. “Muitas pessoas entram no esporte pelas vitórias. O esporte é feito com muito menos vitórias e muito mais derrotas”, comenta Monika.

Talvez sejam as dificuldades – ou a maneira como elas são superadas – que tornem a ginástica um espetáculo para os olhos. Talvez sejam os belos movimentos, a busca dos atletas pela perfeição. Talvez seja o trabalho atento e silencioso da equipe técnica para que o suor dos bastidores se converta em brilho no pódio. Talvez seja a empolgação da torcida, admirada pelo encanto das apresentações.  Talvez a ginástica seja intensa demais para ser compartimentada – a melhor maneira de apreciá-la é, e sempre será, com a emoção. Nos resta aplaudir.

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