Tecendo tradições - Olhares do Mundo

Tecendo tradições

Há centenas de anos, os tapetes persas aliam técnica e habilidade em peças de sofisticação incomparável

Qual a diferença entre um objeto do cotidiano e uma obra de arte? No caso dos tapetes persas, esta linha tênue se perde entre os milhares de fios, e é impossível separar uma ideia da outra.

Usados ainda hoje na decoração, os tapetes persa têm uma tradição que remonta à Idade do Bronze na região da antiga Pérsia, atual Irã. Inicialmente, sua função era aquecer o chão das tendas, protegendo os habitantes do frio do deserto, mas, com o tempo, passaram a ter significados simbólicos, artísticos e até religiosos, muito além de sua função prática.

Os tapetes persas autênticos são produzidos de maneira totalmente artesanal pelas populações nômades do Irã, utilizando como matéria-prima a lã das ovelhas de seus rebanhos.

Depois de retirada da lã, ocorre o processo de tingimento, que utiliza corantes naturais encontrados na região, como flor de índigo, raiz de rubia e sulfato de cobre.

As lãs são tingidas em caldeirões com água fervente e corantes naturais por muitas horas, depois são expostas para secar ao ar livre. Em seguida, os fios são tensionados verticalmente no tear, formando a urdidura que, junto com os fios tecidos horizontalmente, a chamada trama, criam a base do tapete.

Na confecção também podem ser utilizados materiais nobres, como seda e fios de ouro ou prata, para criar o veludo, nome dado aos fios que são amarrados na base para criar os padrões do tapete. É esse trabalho que determina a riqueza da peça, pois quanto mais detalhados forem os padrões e quanto mais rente os fios forem cortados em relação à base, mais caros serão.

O trabalho de tecer os tapetes é tradicionalmente feito por mulheres, que os fabricam baseadas em padrões já estabelecidos ou desenhos originais. O processo pode levar anos, dependendo do tamanho do tapete, característica que também determina seu tipo.

Os motivos bordados também variam de acordo com a criatividade do autor, porém, como o islamismo proíbe a representação de figuras humanas e animais, os temas mais adotados são formatos geométricos e florais. Já os tapetes para uso religioso reproduzem o mihrab, nicho construído dentro das mesquitas que orienta as orações em direção à Meca.

Quanto mais decorados e mais complexos os padrões estabelecidos, mais tempo levará para o tapete ficar pronto, o que, consequentemente, aumenta seu valor. Sendo assim, era comum na antiguidade encontrar tapetes ricamente ornamentados, com fios de ouro e pedras preciosas, nas residências da realeza e de comerciantes ricos, pois eram também um sinal de status.

Cada uma dessas características sofre variações, desde o tipo dos nós do veludo até a intensidade de coloração, passando pelas estampas, o que faz com que seja impossível encontrar dois tapetes iguais.

Por isso, os tapetes são reconhecidos como um patrimônio cultural do Irã, através do qual é possível compreender a história do país e suas dinastias, além de ocuparem posição de destaque na arte islâmica.

Embora seu valor seja único, atualmente os tapetes sofrem com a concorrência de produtos industrializados e imitações, o que tem tornado difícil sua viabilidade econômica e o sustento das populações que ainda hoje encontram neles sua maior fonte de renda.

Isto mostra que, para apreciar a verdadeira beleza de um tapete persa é preciso compreender suas dimensões sociais, artísticas e culturais – elementos que apenas uma verdadeira obra de arte pode conter.

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