A Silenciosa Sinfonia dos Bastidores - Olhares do Mundo

A Silenciosa Sinfonia dos Bastidores

Para atingir a perfeição, o trabalho de uma orquestra começa muito antes dos palcos

Para quem acompanha a sincronia de uma orquestra no palco é difícil pensar que tamanha afinação surge justamente do caos. Antes dos trajes a rigor e passos coordenados é a vez das calças jeans, cadeiras desarrumadas, confraternização e acordes pra lá de desafinados: é no ensaio que a orquestra tece o encanto que transmitirá a seus ouvintes.

Mas a história de um espetáculo tem uma gestação muito maior que o período de entrosamento entre os artistas. Os preparativos para um concerto começam entre um ano e meio e dois anos antes da data da apresentação, bem longe dos palcos. A verdade é que, quando se trata de uma orquestra, não existe detalhe que não tenha sido pensado, organizado e bem executado até o ponto de parecer extremamente natural. O resultado não podia ser outro: magia. Ou, melhor dizendo, arte.

No caso do Mozarteum Brasileiro, a preparação para o concerto com a soprano alemã Diana Damrau aconteceu em meio a uma construção ainda mais antiga: o sonho de montar uma orquestra própria. A instituição, que existe há 36 anos, é uma importante associação cultural na cena paulistana, formando músicos e convidando grupos e artistas famosos para se apresentarem na cidade, mas foi apenas neste ano que o plano se tornou realidade. Depois da estreia em março, a apresentação com Diana marcou a segunda vez que a Orquestra Acadêmica Mozarteum Brasileiro se reuniu para um concerto.

Apesar do clima de novidade, os planos para os dois dias de apresentação da aclamada soprano em São Paulo começaram há dois anos, quando a diretora artística Sabine Lovatelli escolheu o repertório e o programa. A partir de então, um exército de profissionais se reuniu para tornar o espetáculo possível, entre eles a produtora musical Isabel Mantovani Arruga.

É responsabilidade da produção conciliar as agendas dos músicos, conseguir um local adequado para a apresentação, providenciar vistos e traslado de artistas internacionais, organizar a estrutura de camarins, alugar instrumentos quando necessário e uma infinidade de outras atribuições. Isabel, que já trabalhou com produção musical em diversas áreas, conta ao Olhares do Mundo que, embora shows também apresentem seus desafios, nada se compara à energia necessária para realizar um concerto:

“A orquestra é muito mais complexa que o resto. Em um show de rock, você só precisa fazer a parte logística e técnica, porque os músicos já se conhecem, estão entrosados, têm seus próprios instrumentos. A orquestra é outro mundo. Tem que organizar as partituras, a minutagem, a folha de programa, os instrumentos, os ensaios, além de todo o protocolo para lidar com os músicos. Tem que ter jogo de cintura”, explica.

 

Para Isabel, a parte mais difícil de toda a produção é obter as partituras das músicas, pois são elementos tão fundamentais quanto difíceis de serem encontrados:

“Às vezes é fácil, algumas partituras são encontradas na internet, mas em outras precisamos entrar em contato com as editoras para pedir locação ou compra das partituras. No Brasil, os acervos dessa área não costumam ser muito ricos, então temos que entrar em contato com o pessoal dos Estados Unidos e Europa, é mais complicado”, conta Isabel ao Olhares do Mundo.

Vencida esta etapa, os arquivistas entram em cena. Como lembra o maestro Carlos Moreno, regente da Orquestra Acadêmica Mozarteum Brasileiro, “o arquivo é o cérebro da orquestra. É o primeiro a trabalhar. Até você ter o material a ser enviado para estudo, o arquivo já está trabalhando há meses”.

Após receberem as partituras, os arquivistas são os responsáveis por ler uma por uma e montar as pastas com as partituras de cada instrumento de acordo com a ordem de apresentação das músicas. Ao todo, quase cem músicos precisam receber com antecedência seus materiais de estudo para o concerto, além do maestro, é claro.

Para a apresentação com Diana Damrau, o Mozarteum contou com o trabalho de dois arquivistas em período integral durante um mês e foram necessárias duas semanas apenas para a divisão das partituras.

A partir de então, os músicos entram em cena. Convidados pessoalmente pela diretora artística, que leva em consideração suas especialidades e talentos para montar a equipe mais adequada para o espetáculo, eles precisam ensaiar individualmente antes de se reunirem com a orquestra em um ensaio geral. Isso, é claro, sem contar os anos de preparação para se tornarem profissionais.

O primeiro contrabaixista acústico Julio Nogueira, que hoje se prepara para estudar música na Alemanha devido a seu destaque na Orquestra Acadêmica, é um apaixonado pela música, mas descobriu o universo da música erudita quase que por acaso, aos 14 anos.

“Queria ter uma banda de rock e surgiu uma oportunidade de aprender contrabaixo. Eu pensei que fosse o elétrico, mas quando cheguei lá, era o acústico. Aí eu pensei: já que eu estou aqui, vamos lá né. Aí fui estudando e surgiram novos sonhos, de estudar fora, de me profissionalizar”, conta ele.

Desde então, lá se vão 16 anos de muito estudo e trabalho, já que o músico concilia a orquestra com sua banda de rock. A rotina se torna ainda mais intensa durante a preparação para o concerto, lembra Julio:

“A gente recebe as partituras, anota todas as arcadas, vê muitos vídeos e ouve muitos artistas para ter como referência e aí é muito estudo diário, tanto de técnica sobre o repertório e o repertório em si. Está tudo interligado, não tem como estudar uma coisa ou outra. É um trabalho de três a quatro horas por dia, pelo menos, estudando com o contrabaixo e mais cinco a seis horas de ensaio com a orquestra”.

Além disso, Julio revela que cada artista tem suas próprias técnicas de estudo, o que pode aumentar ainda mais a carga de trabalho do músico:

“É uma preparação muito intensa e, no meu caso, eu ouço muito tudo que a gente vai tocar para conhecer a parte de todo mundo, para entender as diferenças de andamento e nuances das músicas. Gosto de ter isso tudo o mais decorado possível para não ficar preso à partitura na hora da execução”, disse.

Mas não basta apenas a técnica: o elemento humano é fundamental. No fim das contas, embora a ciência seja muito próxima à música, uma orquestra é feita de pessoas. O convívio influencia diretamente na sintonia entre os artistas e, consequentemente, na afinação. É na hora de construir o entrosamento que entram os ensaios gerais.

Mas, para que aconteçam dentro do previsto, toda a equipe precisa participar. Além dos músicos, a orquestra conta com o trabalho de profissionais como o gerente de palcos e o inspetor. O gerente é o responsável por supervisionar aspectos como, montagem e desmontagem de instrumento e condições do palco. Já o inspetor é quem cuida da disciplina, observando a pontualidade e comportamento dos músicos, por exemplo.

Para o concerto com Diana, que aconteceu entre os dias 1º e 2 de maio, foram necessários 10 ensaios gerais de 3 horas cada, além de toda a preparação individual de músicos e maestro, ou seja, um enorme esforço físico e psicológico.

Não à toa, o maestro Carlos Moreno se preocupa constantemente que cada reunião seja a melhor possível, para que consiga obter o melhor entrosamento possível, o que é ainda mais importante em uma orquestra tão nova.

“O que nós fazemos aqui é a dinâmica de grupo, ou seja, é o trabalho em que a gente busca, por exemplo, em uma sessão de 20 violinos, que todos toquem igual”, comenta.“ A dinâmica de ensaio é repetitiva, mas tem que ser bem feita, senão, enjoa. E aí, o que acontece? O músico se desliga. Então precisa repetir o que precisa repetir, mas você também toca o que já pode ser tocado para você manter um ensaio produtivo”.

Na prática, isso se manifesta na troca de ideias durante o ensaio. Para quem está acostumado com a postura rígida das apresentações, acompanhar estes momentos é como olhar pelo buraco da fechadura.

 

Os músicos interagem ativamente entre si, compartilhando anotações, às vezes se comunicando apenas com o olhar, outras, conversando enquanto esperam suas execuções, apreciando a música tocada pelos colegas. É quando acontecem as pausas, em que o maestro interage, realizando interrupções pontuais que seriam inimagináveis na apresentação oficial. Esse é o momento em que regente e corpo de músicos se unem para dar o tom do concerto: não se trata necessariamente de corrigir erros, mas imprimir a personalidade da orquestra em composições consagradas, tornando a execução mais pessoal.

O resultado da apresentação é, em grande parte, fruto de como o artista se sente em relação à música. Para o maestro, a questão da arte é, em essência, uma análise da condição humana e, nesse sentido, o concerto é uma grande oportunidade de metamorfose pessoal e social.

“Quando estou realizando um concerto, eu estou oferecendo algo que é muito mais do que aquela orquestra. É um sentimento de transformação. A arte que não transforma sentimentos, não é arte. Essa é a minha crença, de que como artista sou um transformador de sentimentos. E a minha missão como líder é justamente levar para eles (os músicos) uma proposta, fazer com que eles comprem uma ideia e fazer com que essa ideia se reproduza durante o concerto, artisticamente, sentimentalmente e humanamente”, diz Carlos Moreno.

Depois de tanto esforço, o único pesadelo possível para uma equipe tão dedicada seria a frustração de tudo o que sonharam e planejaram durante meses.

Tanto para Isabel, quanto para o maestro e o contrabaixista Julio, o pior cenário é aquele em que, justamente, não há cenário: problemas com vistos que impeçam a entrada de convidados estrangeiros no país, impedimentos estruturais no local da apresentação, cancelamentos.

Para a sorte dos admiradores da música erudita, a competência e dedicação da equipe consegue superar todos os obstáculos, o que resulta em apresentações memoráveis.

Por fim, a melhor homenagem a quem se comprometeu a afinar cada detalhe durante tanto tempo, em meio ao anonimato dos bastidores, não poderia ser outra se não o estrondo dos aplausos.

Texto e fotos por Natália Scalzaretto

 

 

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