A Regra de Ouro - Olhares do Mundo

A Regra de Ouro

Conceito matemática ligado à perfeição, o phi está mais presente em nossas vidas do que parece

“Então explica-me, forasteiro, que é esse belo?” A pergunta feita por Sócrates ao sofista Hípias é tão direta quanto complexa mas, embora tenha ficado registrada no célebre diálogo escrito por Platão, está longe de ser a primeira ou a única interrogação do ser humano acerca do que seja a beleza.

Para os artistas gregos contemporâneos de Sócrates, só uma resposta era possível para essa questão: beleza é equilíbrio. Portanto, para homens como o escultor e arquiteto Phídias, o caminho para a perfeição passava necessariamente pela proporção. Não à toa, o instrumento preferido do autor do Parthenon nesta jornada acabou sendo batizado em sua homenagem.

O número phi, no entanto, tem tantos nomes quanto dígitos. Em grego, idioma de onde surgiu, representa-se como Φ.  Para cálculos, ele é abreviado em 1,618, mas, como é um número irracional, ele não tem um resultado exato, estendendo-se infinitamente. No entanto, este está longe de ser o único fato curioso sobre o número.

A “proporção divina” é um fruto da chamada sequência Fibonacci. Descoberta no século XIII pelo matemático italiano Leonardo Fibonacci, a sequência determina que a soma dos dois números anteriores será igual ao próximo número. No entanto, quando se divide um número pelo anterior, o resultado gira em torno de phi e se aproxima cada vez mais de 1,618 conforme o valor aumenta. Os dez primeiros números da sequência costumam ser os mais estudados como exemplo. São eles: 1, 1, 2, 3, 5, 8, 13, 21, 34, 55.

O phi é encontrado nos mais diversos elementos da natureza sendo, por isso, considerado por muitos o símbolo da perfeição do universo. O “número dourado”, como também é conhecido, determina o crescimento de uma população de coelhos, a razão entre as espirais de sementes no miolo dos girassóis, o tamanho das espirais das conchas, a proporção entre machos e fêmeas em uma colmeia e diversas medidas do corpo humano.

Este último exemplo tem sua imagem máxima registrada no famoso “Homem Vitruviano”, desenhado por Leonardo da Vinci. O autor da Monalisa foi o primeiro a conseguir demonstrar a existência do phi nas proporções no corpo humano.

Mas é na arquitetura que o phi atinge seu potencial máximo, evidenciando o equilíbrio, simetria e proporcionalidade das construções. Alguns dos monumentos mais famosos do mundo carregam em seu projeto a chamada divina proporção, como as pirâmides do Egito, e se tornaram sinônimo de beleza e do potencial humano.

Para Rafael Manzo, prof. de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Presbiteriana Mackenzie, o phi representa o conjunto dos propósitos da arquitetura –  a união entre funcionalidade e representação de nossas visões de mundo de modo a tornar a vida das pessoas melhor – e por isso,  pode ser considerado um símbolo da beleza:

“Os parâmetros de análise se transformam com o tempo, mas não o conceito básico, e é uma consequência de relações de proporcionalidades matemáticas entre as partes com o todo. E é justamente aí que reside como um dos mediadores a Secção Áurea, ou Proporção Divina, ou phi”, explicou ele.

Hoje a ideia de belo é mais abrangente que os conceitos adotados na Grécia Antiga e alcança uma ampla diversidade de estilos, como barroco, neoclássico, contemporâneo e outros. O phi permanece como um fundamento clássico da perfeição, no entanto, é possível usá-lo de diversas maneiras, ou até mesmo não aplicá-lo e ainda assim ter um resultado interessante, baseado no contraste entre as formas e desequilíbrio.

“Não há apenas um conjunto de parâmetros para a análise da arquitetura da nossa época”, conta o professor. “Podemos encontrar tanto o phi na base dos fractais (formas geométricas cujas partes são frações idênticas do todo, como um floco de neve) utilizados para a formulação de algumas obras de arquitetura como a sua negação constituindo-se em um de seus aspectos básicos”.

Para os amantes das Belas Artes, entender o phi e suas aplicações permanece como uma maneira de entender os esforços de arquitetos, artistas e da própria natureza ao longo do tempo em busca da perfeição. O resultado desta jornada se encontra nos locais mais inusitados, pronto para inspirar aqueles que se dispõem a surpreender o olhar.

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