Química da maternidade - Olhares do Mundo

Química da maternidade

Entenda quais os fatores biológicos e sociais que formam a relação afetiva mais importante da humanidade

O nascimento de um novo ser é sempre um momento de iluminação. E quando esse novo ser é um bebê gerado com todo o amor, nasce também uma família e novas relações. O amor que une o neném recém-chegado à sua mãe é a primeira sensação de afeto que ele sentirá durante toda a sua vida, mas a verdade é que esse laço, que parece instantâneo, é elaborado muito tempo antes do parto.

Desde o momento da concepção, o corpo da mulher se prepara para a gestação e, posteriormente, parto e lactação. São produzidos hormônios como estrógeno e progesterona, que auxiliam na manutenção da gravidez, bem como ocitocina, que ajudará no trabalho de parto e prolactina, que estimulará a amamentação.

Além disso, existem as mudanças visíveis no organismo e na rotina, como o crescimento da barriga, alargamento da pélvis, alteração no ritmo de sono, enjoos, fome excessiva e uma série de outros fatores que são naturais para que o corpo da mãe acomode o desenvolvimento do bebê.

As mudanças hormonais também despertam importantes alterações neurais que dão origem ao que a biologia chama de apego materno, como explica a professora Maria Lucila Ribeiro Martins, que leciona Anatomia, Fisiologia  e Embriologia na Universidade Presbiteriana Mackenzie:

“A ocitocina pode ser produzida no cérebro das pessoas atuando em alguns circuitos que têm a ver com administração de emoções de um modo mais amplo e, no período pós-parto, apego maternal. São os mesmos tipos de circuito que aparecem em animais sociais”, disse ela ao Olhares do Mundo.

Para a professora, esse apego maternal tem muito mais a ver com questão de funcionamento neurológico e neurotransmissores do cérebro que apenas as questões hormonais e químicas propriamente ditas, o que também explica como mães que adotaram seus filhos conseguem sentir o mesmo amor sem terem passado pela gestação.

Analisando a questão como espécie, esse é um sistema elaborado durante milênios, com o objetivo de fortalecer os humanos e aprimorar sua reprodução: ou seja, quando o assunto é amor de mãe, nada é por acaso.

Mas, apesar de os aspectos biológicos serem muito importantes, a preparação para a chegada de um bebê envolve não apenas hormônios ou processos neurais, como explica a professora:

“A gente não pode atribuir o instinto materno a apenas uma questão hormonal. Na nossa espécie, toda a preparação para a chegada do bebê, montagem do quarto, enxoval, fazer os exames, tudo isso gera alterações na nossa maneira de funcionar também. Não acredito que a gente seja mero produto de alteração hormonal”, disse.

Em todo o processo de gestação, se há um momento em que emoção e biologia trabalham juntas é a hora do parto. Em primeiro lugar, as mães precisam ter toda assistência médica possível, com uma equipe de saúde qualificada para atender a qualquer emergência, medicamentos, se necessário, e um ambiente higienizado.

Mas, nos últimos anos, as mulheres passaram a enxergar também a hora do parto como um momento de autoconhecimento, respeito ao próprio corpo e ao bebê e formação de laços para a própria família, mais do que um simples processo cirúrgico. A união desses elementos deu origem ao parto humanizado, tendência que vêm ganhando cada vez mais adeptas no Brasil e no mundo.

A fotógrafa Luciana Zenti é uma ativista da causa e hoje trabalha exclusivamente com fotos de parto. Seu primeiro contato com essa realidade aconteceu há 14 anos, no nascimento da filha mais velha, que foi por vias normais. A experiência foi tão gratificante que sete anos depois, quando deu a luz ao segundo filho, ela optou pelo parto humanizado. Hoje, devido à sua vivência e também por toda a experiência profissional e conhecimento que adquiriu sobre o tema, Luciana vê o nascimento sob uma perspectiva diferente: a do empoderamento da mulher.

“(O parto humanizado) é um ato de transgressão, de coragem, de empoderamento feminino. Não basta você querer, tem que se informar, tem que buscar profissionais que estejam em sintonia. A ideia é que a mulher seja protagonista do parto dela, ainda que a equipe possa ajudar, facilitar, especialmente se tiver uma complicação, mas ela é capaz de parir”, disse ela ao Olhares do Mundo.

É importante lembrar que não são apenas os partos normais que podem ser considerados humanizados. Na verdade, a humanização está mais relacionada à abordagem que ao método e pode acontecer em casa – apenas quando mamãe e bebê apresentam excelente situação de saúde durante toda a gravidez-, no hospital e até em uma cesárea, embora a cirurgia só seja indicada para situações em que é necessária por motivo de saúde.

A ideia é respeitar o tempo que a mulher necessita para dar a luz, que varia de acordo com a evolução do trabalho de parto, sem utilizar técnicas e medicamentos para apressar o nascimento, evitar a aplicação de procedimentos desnecessários, proporcionar o máximo de contato possível entre mãe e bebê, incentivar a participação do pai e familiares e criar um ambiente confortável para a ocasião, sem que o ar condicionado esteja muito frio ou haja luzes intensas. Ou seja, um equilíbrio entre o que é necessário para saúde e o aspecto emocional.

Nesse contexto, muitas mães optam por serem acompanhadas por doulas, profissionais especializadas em atender as necessidades emocionais das gestantes, e também fotógrafos, para registrar os detalhes que, muitas vezes, passam despercebidos em meio a emoção do momento.

E é aí que entra Luciana, que vê na fotografia uma oportunidade de ampliar o acesso à informação e promover cada vez mais o empoderamento feminino, especialmente no sistema público de saúde. Atualmente ela, que também é jornalista, conduz o projeto Parto Delas (@projetopartodelas no Facebook), documentando os nascimentos humanizados na maternidade Bairro Novo, em Curitiba, um exemplo de trabalho pioneiro em relação ao parto humanizado no SUS.

“A principal diferença dos partos que fotografo comercialmente e do meu trabalho autoral é que, no SUS, essas mulheres não têm acesso a informação, não sabem o que é um parto humanizado”, comenta. “No caso do projeto Parto Delas, eu escolhi uma maternidade que está realmente comprometida com o parto humanizado. Quando as mulheres são atendidas ali, elas podem não saber o que é um parto humanizado, não ter conhecimento técnico, mas depois de passar pela experiência, elas têm certeza absoluta de que foram tratadas com respeito”.

De uma forma geral, quando feito de maneira respeitosa, de acordo com procedimentos de saúde, reações biológicas naturais e necessidades emocionais, o processo todo se reflete em benefícios para a relação entre o bebê, a mãe e toda a família, gerando um ambiente de amor para que a criança tenha a melhor chegada possível, conta Luciana:

“A família passa por um fortalecimento de laços. Quando é um parto domiciliar a família participa muito, principalmente se o bebê tem irmãos mais velhos. Acaba impactando de uma forma muito positiva na forma como esses irmãos vão se relacionar e como a família vai lidar com a chegada de um novo ser. É um momento de intimidade, de conexão”, completa.

Para Luciana, as fotografias que estão expostas nestas galerias captam vislumbres de alegria e cumplicidade, algo que transforma não só as mulheres, mas todos que passaram pela experiência. Uma nova perspectiva sobre a própria vida.

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