Por bairros e histórias imigrantes - Olhares do Mundo

Por bairros e histórias imigrantes

Culturas diferentes separadas por quarteirões

Da Austrália aos Estados Unidos, do Canadá a China. Entre os trópicos que atravessam o globo diversas comunidades permanecem a abrigar costumes e histórias em suas divisas. No mapa, demarcações geográficas regem o que anos transformaram em realidade, e entre bairros e vilas pessoas mantém as tradições que naturalmente foram lhe passadas há anos.

Mesmo com as singularidades, grande parte das civilizações sofreram e sofrem influências de diferentes países. Domínios territoriais e migrações em massa fizeram que grupos afetassem a construção de hábitos, e, inclusive, a formação de bairros. “É uma conotação errada falar que uma sociedade evoluiu por conta de uma integração cultural. A realidade é que as sociedades simplesmente se adaptam a culturas diferentes, ao formar novos costumes perante as suas culturas”, explica a historiadora Aylla Cristini, pós graduada em educação cultural e sociedade. De acordo com ela, a imigração em respectivas regiões foi um fenômeno além. “Os imigrantes prezaram por conservar os seus costumes e cultura do país de origem. O objetivo sempre foi não perder as raízes. Por isso, em diversas regiões, a cultura de ‘fora’ somou-se a cultura local”.

Little Havana

Um único fecho no Oceano Atlântico os separa. Localizada em meio a agitada Miami, este bairro guarda dentro de si todo o calor e energia de uma das cidades mais populares de Cuba, Havana.

Declarada um “tesouro nacional” dos Estados Unidos, a Little Havana é responsável por abrigar aproximadamente 76 mil habitantes, entre eles americanos, turistas e imigrantes que saíram de Cuba em busca de uma realidade melhor.

Motorista de Uber, Reinaldo Massa há sete anos deixou sua mulher e filhos em Havana. Com o fluxo de turistas, o cubano de 50 anos foi capaz de ajudar a família a abrir o próprio negócio. “Já consegui que a minha família abrisse uma lavandaria em Havana e agora estão a preparar-se para abrir a segunda.”

Repleto de cores, a região possui alguns pontos marcantes que fazem com que exilados e turistas sintam na pele o calor da ilha.

Conhecido como um café histórico, Versailles reúne o melhor da música e gastronomia cubana. Doces típicos frequentemente são oferecidos aqueles que visitam o local, e o torna um ponto de encontro para comemorações e protestos aos eventos de Cuba.

No Domino Park, dezenas de moradores antigos reúnem-se para participar de partidas do jogo junto a discussões políticas, já do outro lado da rua encontra-se um dos mais populares clubes de salsa da região, parada obrigatória para quem almeja viver uma experiência dançante.

Apesar dos atrativos da região, Little Havana pouco a pouco vem sendo desabitada por cubanos. O motivo? Os altos impostos da região.

 

Chinatown

Com certeza você já viu esse bairro em algum filme passado em Nova Iorque. As ruas lotadas e os letreiros luminosos são duas características que camuflam esse bairro na agitação de Manhattan. Mas se abrir os olhos e observar a arquitetura e dialetos típicos vai perceber que está na Chinatown nova-iorquina, uma das maiores comunidades chinesas do mundo.

São aproximadamente 700 mil chineses presentes nesta região, que desde de 1850 migram do seu país para a cidade a fim de estabelecer uma estabilidade financeira. Apesar do primórdio, a grande onda de imigrantes apenas se deu em 1965, quando as leis de imigrantes ficaram mais tolerantes.

A partir desse momento restaurantes e diferentes comércios foram criados entre as ruas de Manhattan, e logo o típico bairro chinês tornou-se referência ao possibilitar que um pedaço do país oriental se fizesse presente no Ocidente. “O que mais me atraia ali era a variedade de comércios e restaurantes”, conta o jovem brasileiro Madson Roland que se mudou para Manhattan em 2014 a fim de estudar. “Eu lembro que tinham muitos imigrantes lá, muito mesmo. As lojas são pequenininhas, com muitas bugigangas e coisas interessantes que marcam a cultura chinesa. Parece que você entra em uma cidade diferente”.

Grande parte dos prédios e letreiros presentes nas ruas são antigos, assim como os pontos mais marcantes da região. Construído em 1911, o Columbus Park é um dos lugares mais presentes na rotina dos idosos chineses. Todas as manhãs eles aproveitam o silêncio do bairro para praticar “Tai Chin Chuan” enquanto meditam ao som de músicas calmas.

As influências religiosas são um grande marco da região. Templos e estátuas camuflam-se nas ruas e praças do bairro. Um deste é o “Mahayana Buddhist Temple”, considerado um dos maiores templos da cidade com uma imagem de Buda com mais de 5 metros de altura toda em ouro.

Assim como Little Havana, Chinatown sofre com o abandono de chineses da região. Com a expansão da cidade, a especulação imobiliária chega cada vez mais forte na região, destruindo prédios históricos para o levantamento de novos centros comerciais.

 

Caballito

Sejam as ruas pequenas ou até mesmo os edifícios que respeitam a linha arquitetônica do país, o pequeno bairro de Caballito é o lar de muitos ingleses na capital da Argentina. Declarada como “Área de Proteção Histórica”, está região de Buenos Aires é quase um refúgio para quem procura fugir do estresse do centro urbano.

Toda a história de Caballito começa quando os diretores da primeira linha ferroviária do país decidem fundar um empreendimento imobiliário na região. A imigração de ingleses na época foi responsável pela instalação de grandes indústrias no século XVIII, e com isso a instalação de diferentes culturas no pequeno espaço de 7,1 km².

Casas no estilo Tudor e Georgian podem ser vistas pelas ruas, sendo a maior parte delas projetadas pelo engenheiro Pedro Vinent, e pelos arquitetos Eduardo Lanus, Coni Molina e Bilbao la Vieja.

Mesmo depois de 200 anos, as linhas ferroviárias ainda movimentam-se pela esquerda. Nas rádios e placas de publicidade, anúncios são feitos em inglês. E nas quadras esportivas o rúgbi e o futebol são praticados com vigor.

 

Koreatown

Comparado às outras regiões, esse bairro é um dos mais jovens. Localizado no centro de Los Angeles, este lugar serviu como lar para diversos coreanos que buscavam moradias na região de Mid-Wilshire. Ao encontrarem residências com aluguéis acessíveis e tolerância em relação a seus costumes eles começaram a instalar empresas e comércios tornando o local um refúgio para quem chegasse na cidade.

O maior número de imigrantes deu-se no decorrer da década de 1960, e com os anos tornou-se o distrito mais densamente povoado no condado de Los Angeles. Atualmente são mais de 120 mil habitantes em 2,7 milhas quadradas. Restaurantes, galerias, lojas e museus ambientam turistas aos ares coreanos, e moradores ao país natal.

Com um novo projeto arquitetônico planejado para 2019, o Korean American Museum é responsável por preservar toda a história, cultura e conquista coreana-americana. Com peças que frisam hábitos sociais e religiosos, o espaço é uma ótima proposta para quem deseja aprofundar-se na história da região.

Festivais anuais também cercam as ruas em determinadas épocas, as paradas do Korean Festival atraem diversas pessoas às ruas, a fim de mostrar de forma lúdica o comportamento e costumes do país.

 

Liberdade

Quem atualmente observa a amplitude do bairro jamais imaginaria que anos atrás esse bairro era predominantemente negro. Os primeiros japoneses chegaram na região somente em 1912, quando encontraram na Rua Conde de Sarzedas imóveis que disponibilizavam porões que permitiam abrigar grupos grandes de pessoas. Era ali naqueles galpões que instalava-se o sonho de um futuro melhor.

Com o fluxo estável de imigrantes algumas mudanças comerciais surgiram. Lojas de comidas típicas e hospedarias ergueram-se em meio às ruas, e em 1932 dois mil japoneses já habitavam a cidade de São Paulo. A esperança de uma oportunidade na cidade era o que movia os corações dos imigrantes, que pouco a pouco englobavam não só japoneses, mas também chineses, coreanos e taiwaneses.

Na década de 1950 o bairro da Liberdade já ganhava as suas nuances orientais. O Cine Niterói, fundado em 1953 junto a um restaurante e um hotel, era principal ponto de entretenimento para os imigrantes orientais da cidade. Com exibições semanais, o cinema para mais de 1.500 espectadores mostrava em suas telas grandes produções japonesas, enquanto em seu arredor formava-se o centro comercial da região oriental.

“Quando chegamos aqui não sabíamos nem falar português”, conta Shih Yi, moradora do bairro há 51 anos. Junto aos pais, a taiwanesa veio para São Paulo com 16 anos. De acordo com ela, o objetivo principal da migração era um futuro melhor para a família. “Não tínhamos nenhuma ideia de como as coisas seriam por aqui, apenas ouvíamos que aqui tinham oportunidade e ao acreditar nisso viemos”. Hoje Shih está aposentada, e diz que lhe agrada muito o rumo que o bairro tomou. “O que eu mais acho interessante aqui e parecido com a parte Oriental são as lojas e os restaurantes, principalmente aquele ali do outro lado da rua”, ela se referia ao Chih Fu, um típico restaurante japonês da região.

Devido a um pedido da Associação da Liberdade, na década uma reforma transformou por completo no que vemos hoje. Postes de luz forma substituídos por lanternas suzurantõ, e fachadas de comércios tradicionais como bancos e fast-foods foram ambientadas para a arquitetura oriental.

Em datas específicas ainda é possível acompanhar festivais animados e repletos de cores, como em janeiro, durante a comemoração do Ano Novo Chinês, e em abril, nos desfiles do Festival das Flores.

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