Pétalas de arte - Olhares do Mundo

Pétalas de arte

Delicadas, as orquídeas oferecem beleza inigualável a quem oferece o desafio de criá-las

“As três orquídeas brancas eu sonharia que durassem,
com sua nervura humana,
seu colorido de veludo,
a graça leve do seu desenho,
o tênue caule de tão delicado verde.
Que elas não veem o mundo, que o mundo as visse.
Quem pode deixar de sentir sua beleza?”

Trecho do poema As Três Orquídeas, de Cecília Meirelles

Quando o assunto são obras-primas da natureza, só mesmo a sutileza da arte é capaz de dar conta de tamanha complexidade. Originais dos trópicos, mas presentes em todo o mundo, as orquídeas são sinônimo de beleza e elegância por onde passam.

A família à qual pertencem, a Orchidaceae, contém cerca de 35 mil espécies, sendo considerada uma das maiores famílias de plantas floridas do mundo.  Apesar de sua enorme variedade, as orquídeas não apresentam usos alimentares, medicinais ou industriais significativos: seu verdadeiro valor está presente em sua beleza.

Elas estão entre as espécies mais colecionadas do mundo e o comércio dessas plantas movimentam bilhões de dólares anualmente.  A tradição remonta a eras históricas, em lugares tão distintos quando o Reino Unido e o Japão.

Na terra do Sol Nascente, eram um símbolo da coragem e algumas só podiam ser cultivadas pelos maiores samurais.

Já na Inglaterra da Era Vitoriana, o cuidado com orquídeas era sinônimo de luxo e sofisticação, pois, como são mais frequentes nas zonas tropicais, mantê-las em um país com baixas temperaturas como a Inglaterra exigia mais recursos e esforços.

A paixão pelas orquídeas levava os colecionadores mais ricos a financiar expedições de aventureiros para países da Ásia ou da América para que trouxessem espécimes raros e, fora isso, havia muita competição, com alguns “caçadores” chegando a estragar os espécimes dos concorrentes para lucrar mais com os seus. Muitas vezes, uma única planta chegava a custar fortunas, dependendo de sua raridade. O período marcou a história do cultivo de orquídeas e ficou conhecido como “orquidelirium”.

Hoje, o cenário da orquidofilia é muito diferente. Saiu a competição e entrou o compartilhamento de experiências. Um exemplo dessa nova tendência é o biólogo Sergio Oyama Junior, autor do blog Orquídeas no Apê. Desde 2009 ele coleciona as plantas em uma varanda com menos de 1 metro quadrado em seu apartamento em São Paulo. O espaço, que chegou a ter 70 espécimes, hoje abriga 50 e é cenário de um blog que conta com mais de 28 mil seguidores no Instagram.

Na internet, Sergio troca dicas e conhecimentos com milhares de pessoas, o que tornou o hobby ainda mais especial.

“Graças às orquídeas, passei a interessar-me por fotografia e me tornei blogueiro, meio que por acaso. Comecei o blog para registrar as florações que surgiam no apartamento e acabei transformando este diário em um canal para compartilhar minha experiência no cultivo de orquídeas, principalmente em interiores”, contou ele ao Olhares do Mundo.  “Hoje, apesar de esta não ser minha atividade profissional principal, é a que mais me dá prazer e a que ocupa a maior parte do meu tempo”.

Além da experiência positiva, o desafio representado por cuidar de plantas tão delicadas em um ambiente hostil, com pouco espaço, muito vento e excesso de Sol também o mantém empolgado em continuar se esforçando.

“O convívio com as orquídeas ensinou-me a olhar o mundo com outros olhos. Passei a enxergar beleza em fenômenos simples como o crescimento de uma raiz, o surgimento de um botão floral ou o fenecer de uma flor madura”, comenta. “Ser responsável pelo crescimento e desenvolvimento de outros seres vivos, cuidar, cultivar plantas em geral pode ser, na minha opinião, bastante terapêutico. Tenho tendência a ser depressivo e este contato ajuda-me bastante a superar momentos difíceis”.

De fato, é muito difícil entrar em contato com as orquídeas e não sair transformado. Assim como as obras de arte, as orquídeas falam um idioma universal, que torna sua aura de beleza compreensível em qualquer época ou lugar – do Japão a uma pequena varanda, apreciá-las é apenas uma questão de olhar.

MAIS CONTEÚDOS