Palavras lapidadas - Olhares do Mundo

Palavras lapidadas

Técnica oriental, o haicai conquistou fãs e fez a fama de grandes poetas no Brasil

“poema na página
mordida de criança
na fruta madura”

                                                                                                                    Paulo Leminski

 

Os versos singelos de Paulo Leminski são uma boa mostra do que era arte para os poetas concretistas brasileiros. Inspirados pelas renovações tecnológicas que o Brasil e o mundo viveram na segunda metade do século XX, artistas como Haroldo de Campos, Guilherme de Almeida, Alice Ruiz e Leminski decidiram explorar as fronteiras entre forma e conteúdo na literatura.

Conhecidos como poetas concretistas, essa geração de escritores subverteu as tradições de poesias com métricas definidas e rimas, incluindo a geometria como um elemento a mais na produção de sentido e significado em seus textos.

As palavras, no entanto, continuavam a ser as matérias-primas mais importantes. Através do olhar questionador desta geração, elas foram fragmentadas, reorganizadas e compostas novamente, criando neologismos com o auxílio de outras línguas, explorando sua composição visual, geométrica, fonética e dando origem a novas percepções.

Em meio a essa efervescência criativa, chegou do oriente uma fonte de inspiração que se tornou um símbolo do trabalho destes grandes artistas. Os chamados haicais são poemas de origem japonesa, que tem 17 sílabas divididas entre 3 versos de 5, 7 e 5 sílabas. A temática geralmente gira em torno da natureza e fala sempre sobre o tempo presente, um conceito ideal para quem desejava revolucionar a arte de seu tempo.

O primeiro a se aventurar pelos caminhos da literatura oriental foi Guilherme de Almeida. O poeta paulistano teve grande destaque na semana de arte moderna de 1922, e foi o primeiro modernista a entrar para a Academia Brasileira de Letras.

Embora a temática saudosista adotada por Guilherme não se encaixe no estilo dos haicais, de valorização do tempo presente, seu trabalho se inspirou no formato ao escolher as palavras cuidadosamente para que se encaixassem nas métricas e ainda assim expressassem toda a amplitude de significados do poema.

“INFÂNCIA

Um gosto de amora
Comida com sol. A vida
Chamava-se: “Agora”.”

                                                                                                        Guilherme de Almeida

Já nos anos 1950, sob a influência do poeta norte-americano Ezra Pound, os irmãos Haroldo e Augusto de Campos, em parceria com Décio Pignatari – os principais expoentes do movimento – exploraram os conceitos da arte japonesa, mas com foco no conceito do ideograma, mais do que no próprio haicai. Os irmãos, principalmente, se concentraram na tradução de haicais japoneses clássicos, como os de Matsuo Bashô, o grande mestre do haicai japonês.

Mas foi a poesia de Paulo Leminski, amigo do trio, que de fato consolidou a produção de haicais no Brasil. O poeta curitibano, que tinha os largos bigodes como sua marca registrada, é considerado o maior expoente do gênero no Brasil.

Ao longo de vinte anos, Leminski produziu uma vasta obra, passando por traduções do japonês para o português, biografias, letras de música, redação publicitária e, claro, poesias. O trabalho de Leminski se tornou popular nos anos 80, tendo como carro chefe os haicais.

Leminski era um aficionado pela cultura japonesa, o que também explica seu enorme interesse por este tipo de poema. Seu estilo tornou-se característico pelo bom humor, mas também pela concisão, influência dos haicais. Por meio de poucas palavras, seu poemas conseguiam transmitir observações sobre a vida cotidiana, mas também críticas sociais e questionamentos existenciais.

Sobre seu trabalho, Caetano Veloso, seu parceiro de letras, escreveu: “os poemas do Leminski são muito sintéticos, muito concisos, muito rápidos, muito inspirados. Ele é um sujeito gozado. É um personagem muito único no panorama da curtição de literatura no Brasil”.

 

“   acordei e me olhei no espelho
ainda a tempo de ver
meu sonho virar pesadelo”

                                                                      Paulo Leminski

 

                                                                                                        “entendo
mas não entendo
o que estou entendendo

Paulo Leminski

 

       “inverno
é tudo o que sinto
viver
é sucinto”

                              Paulo Leminski

 

    “essa estrada vai longe
mas se for
vai fazer muita falta”

                                              Paulo Leminski

Infelizmente, Leminski faleceu precocemente, aos 45 anos, vítima de cirrose. Mas a história do haicai no Brasil continua para além de seu legado. A poetisa Alice Ruiz, com quem foi casado, é hoje um dos maiores expoentes do gênero no país. Iniciada na tradição do haicai ainda nos anos 1970, Alice publicou seu primeiro livro aos 34 anos, e tem como maiores características a concisão e o tom pessoal, íntimo. O lirismo, outra característica muito presente na obra de Alice, se faz presente no lado musical de seu trabalho: ela compõe, além de poesias, letras de música.

“voltando com amigos
o mesmo caminho
é mais curto”

                               Alice Ruiz

Juntos, Alice e Paulo assinam “Hai Tropikai”, que ressalta a paixão de ambos pela cultura oriental e a poesia. Alice também foi a grande responsável pela edição da obra póstuma de Paulo, nos anos 1990 e 2000. Hoje, sua filha caçula, Estrela Ruiz Leminski segue os passos dos pais e leva adiante a precisão dos haicais em seu trabalho como poetisa.

“com ninguém
ser zen
ou ser sem?”

                                                 Estrela Ruiz Leminski

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