Palácios Subterrâneos - Olhares do Mundo

Palácios Subterrâneos

Do refinamento czarista à praticidade soviética, conheça a história do metrô de Moscou

Poucos países no mundo podem se orgulhar em unir tantos contrastes quanto a Rússia. A maior nação do planeta em termos territoriais se estende da Ásia à Europa, enfrenta temperaturas congelantes no inverno e escaldantes no verão e consegue abrigar mais de cem etnias diferentes, desde a maioria russa até povos que correspondem a menos de 0,1 por cento da população.

A história, a paisagem e a cultura russas são marcadas pelos extremos e não seria diferente com a capital. Moscou, a cidade que abrigou czares e dirigentes soviéticos, aprendeu de um jeito único a conviver e exaltar seus opostos.

Um dos grandes exemplos disso é o metrô local, conhecido como palácio subterrâneo. Criado em 1935, em plena era soviética, o metrô deveria servir como um exemplo de modernidade para a nova era industrial que o país atravessava, mas também impressionar a população, como os monumentos da era czarista. O resultado foi uma linha de transporte eficaz e resistente para o transporte de milhões, mas que também tem uma estética capaz de rivalizar com os famosos marcos arquitetônicos da cidade, como a Praça Vermelha e o Kremlin. Em outras palavras, palácios para o povo.

Com materiais nobres, como mármore, granito, bronze e até ouro, peças de arte dão vida a momentos, personagens e símbolos da história russa e soviética, incluindo o próprio Stalin, que foi homenageado com diversas esculturas e murais com sua imagem. Após sua morte, em 1953, o Stalinismo entrou em declínio, e em 1955 o partido soviético decidiu investir mais na modernização e ampliação da rede, em detrimento da arquitetura.

Como resultado, as estações passaram a ter decorações mais simples e muitas das obras de arte criadas para homenagear Stalin foram removidas. No entanto, a maioria das estações foi preservada em sua beleza original.

Hoje, as 196 estações são parada obrigatória para turistas que estão explorando a Rússia. Embora unidas por um belo conjunto de 12 linhas, que se estendem por 346 km e transportam mais de 9 milhões de pessoas diariamente, cada estação tem uma decoração particular.

Entre as mais bonitas está a de Elektrozavodskaya, inspirada em uma fábrica de lâmpadas que ficava próxima. O projeto foi atrasado devido à Segunda Guerra Mundial, porém, ainda assim, a construção não foi interrompida e a estação foi inaugurada em 1944. O clima de conflito que marcou a época está estampado em baixos-relevo de mármore contando a história da guerra nas plataformas, obra do artista Georgiy Motovilov.

Mas o grande destaque está nas 318 lâmpadas dispostas em seis fileiras no teto, que rementem à fábrica vizinha, ideia dos arquitetos Vladimir Shchuko, Vladimir Gelfreich e Igor Rozhin.

Já a estação de Komsomolskaya é extremamente interessante, tanto do ponto de vista da engenharia, quanto da arquitetura. A primeira parte da estação, construída em 1935, pertence à linha Sokolnicheskaya e apresentou diversos desafios devido às fortes chuvas que inundaram o solo no verão de 1934, além de estar localizada em um dos pontos com tráfego mais movimentado de Moscou, o que exigiu vários reforços estruturais.

Por dentro, as plataformas são cobertas por calcário rosa e as colunas têm topos de bronze com o símbolo da liga de trabalhadores juvenis do partido comunista, chamada Komsomol.

Já a segunda estação, que pertence à linha Koltsevaya, é de 1952 e também está ligada à Segunda Guerra.  A ideia para a decoração, que evoca grandes chefes militares russos,  foi inspirada em um discurso de Stalin realizado em 1941, no auge do esforço de guerra.  Seus oito mosaicos principais, instalados no teto, são inspirados nos da Catedral de Santa Sophia, em Kiev, e retratam nomes como Alexander Nevsky, Dmitry Donskoy e Mikhail Kutuzov.

No entanto, os painéis que registram as vitórias na Segunda Guerra e, especialmente Stalin, sofreram modificações até 1961, com alguns sendo totalmente reformulados, como o que atualmente mostra uma mulher comemorando a vitória contra os nazistas em frente ao mausoléu de Lenin, mas que, antes, apresentava uma parada militar.

Ainda hoje, como toda obra de infraestrutura, o metrô de Moscou passa por reformulações para ampliar seu alcance e eficiência. Apesar disso, sua arquitetura e tradição são mantidas como um patrimônio da população russa, servindo como um lembrete de sua história em meio ao mais cotidiano dos transportes.

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