O Maestro da Sala de Estar - Olhares do Mundo

O Maestro da Sala de Estar

Um dos primeiros formatos de mídia, o vinil volta à tona na era mp3

A audição é um dos primeiros sentidos a se desenvolver no ser humano.  A descoberta do mundo através dos sons é um processo que começa durante a gravidez e, na verdade, nunca termina.

Conhecer novas vozes, ritmos, barulhos e melodias é um exercício tão intenso quanto prazeroso. Mas, tão bonito quanto ouvir algo pela primeira vez, é redescobrir tendências e criar novas ideias a partir delas.

Parece curioso mas, em plena época do surgimento dos streamings, dos smartphones e da música mp3, há quem esteja retornando aos encantos do bom e velho disco de vinil. Apelidados carinhosamente de bolachões, os discos foram o primeiro formato de música portátil e facilmente reproduzível utilizado em larga escala – mesmo que hoje pareça estranho considerar uma placa de 30 cm de diâmetro como algo fácil de transportar e armazenar.

Foi o alemão Emil Berliner quem, em 1888, teve a ideia de utilizar um disco para gravar e reproduzir sons. Antes dele, o norte-americano Thomas Edison havia criado o fonógrafo, que utilizava o mesmo princípio do disco, porém em um cilindro de cera. Devido a certas complicações, como o fato de um único cilindro não conseguir dar origem a muitas cópias, obrigando a realização de gravações diferentes, o fonógrafo entrou em desuso.

O próprio desenvolvimento do disco durou anos até que se chegasse ao disco de vinil. Primeiramente, os discos utilizados nos gramofones eram de goma laca, um material mais frágil que o vinil, e também havia muita diferença nos tamanhos e rotações por minuto, sendo a medida mais usada a de 78 rotações por minuto. Em 1948, quando surgiu o disco de vinil, mais leve e resistente, convencionou-se usar o padrão de 33 e 1/3 rotações por minuto e 30 centímetros de diâmetro.

Outra mudança do vinil, também conhecido como Long-Play ou LP, é justamente o tempo de reprodução. Os discos de 78 rotações por minuto reproduziam cerca de 5 minutos de áudio ao todo, enquanto os LP’s reproduzem cerca de 20 minutos em cada lado. Já os de 45 rotações por minuto chegavam a 5 minutos em cada lado e eram usados para lançamento de singles.

Isso acontece devido à diferença nas ranhuras dos discos. Quanto maior a frequência, mais ranhuras precisam ser feitas e isso diminui a capacidade de armazenamento.

A frequência é crucial para a reprodução de um disco e é determinada durante a gravação, uma das etapas do processo de produção. Para fabricar um disco de vinil, primeiro é preciso dispor de um disco de alumínio com 35 centímetros de diâmetro e despejar sobre ele uma camada de acetato de celulose.

A marcação das ranhuras no vinil ocorre após a secagem deste material, em uma máquina chamada torno de gravação. Nela, uma agulha finíssima “arranha” o disco seguindo os impulsos elétricos da música. O resultado é o chamado disco máster.

Esse disco de acetato é, na verdade, um molde para a criação de outro disco a partir de um banho de metais: estanho, prata e níquel, nessa mesma ordem. O estanho impede que a prata se una ao acetato, enquanto a prata e o níquel formam uma liga que dá origem ao novo molde.

A partir de então, o molde de prata e níquel é colocado em uma prensa, onde também é despejado o vinil, em alta temperatura e, por cima, o rótulo do disco. Após a secagem, são retiradas as rebarbas e está pronto o disco de vinil.

Mas se engana quem pensa que apenas o processo de produção interfere no resultado final dos discos. Para que o suporte seja aproveitado ao máximo, é preciso levar em conta a qualidade do toca-discos e também o estado de conservação em que eles serão preservados.

O segredo está no equilíbrio entre todos os elementos. Para evitar o desgaste natural do vinil, o toca-discos deve ter uma agulha fina, precisa e também um braço com apoio, diminuindo a força exercida sobre o disco.

Mas a qualidade do som só será apreciada se o toca-discos for equipado com bons amplificadores – os reais responsáveis para que possamos ouvir o som baixíssimo produzido pela agulha em contato com o disco.

E de nada adiantará manter os discos em mau estado de conservação. Até mesmo a poeira mais fina pode arranhá-los, inviabilizando o material. Então, com tantas facilidades digitais, qual o apelo desta mídia tão delicada?

Muitas pessoas se interessam pela diferença nos sons que o formato propicia.  Como a gravação é analógica, da mesma forma que as ondas do áudio original, ocorrem poucas perdas. Os sons graves também são mais acentuados que em um CD, por exemplo, o que também modifica o resultado.

No entanto, a chance de que aconteçam distorções é maior que em um formato digital. Isso ocorre porque a amplitude de frequências que o disco comporta é reduzida, uma vez que a agulha não consegue acompanhar perfeitamente as notas mais altas. Desta forma, a gravação digital parece mais nítida aos nossos ouvidos, mas não tem as nuances apreciadas pelos amantes dos discos.

Para o colecionador Bruno Federowski, que aos 24 anos já tem cerca de 600 discos, o diferencial está na experiência que proporcionam:

“O que me atrai muito é a experiência de comprar discos. Eu gosto de ir a sebos, ver o que eles têm disponível, conversar com essas pessoas, que geralmente conhecem música muito bem. Acho que é uma experiência que a gente perdeu com o streaming e a internet”, contou ele ao Olhares do Mundo.

E ele não está sozinho em seu hobby. No Brasil, a estimativa era que o mercado de discos de vinil crescesse 20 por cento em 2016, com a Polysom, única fábrica ativa atualmente no país ampliando a produção para 150 mil unidades, de acordo com dados obtidos pelo Jornal da Globo.

Artistas da nova geração estão entrando na onda, como o artista paulistano Cícero, que lançou seus três álbuns de estúdio em LP, o que também desperta a curiosidade das novas gerações para uma vivência completa, muito além do som.

“Gosto do fato que é mais ‘difícil’ ouvir vinil. Tem que prestar mais atenção. (…) As capas são grandes, caprichadas. Eles também exigem cuidado, tem que limpar de vez em quando e não pode deixar arranhar. Esse nicho leva a música como algo muito pessoal, muito próprio a sua identidade”, diz Federowski, que descobriu os discos de seu pai aos 16 anos e, desde então, só vê a paixão aumentar mais.

É difícil dizer quais caminhos a tecnologia percorrerá daqui para frente, ou se o retorno do vinil é definitivo, mas é fato que as experiências personalizadas ganham cada vez mais espaço, em um cenário de valorização da originalidade. Enquanto existir o prazer de desfrutar um momento especial de modo autêntico, estes maestros não vão deixar de ser uma ótima opção para toda sala de estar.

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