O Hospital de Relíquias - Olhares do Mundo

Ouro, prata, bronze, latão, alumínio, chumbo, ferro, cobre. À primeira vista, materiais brutos, conectados instintivamente em nosso imaginário a minas que se estendem em direção ao centro da Terra e fornos escaldantes, quase como em uma cena saída dos livros de J. R. R. Tolkien, premiado escritor nascido na África do Sul.

Nada poderia ser tão distante desta descrição quanto o abstrato conceito das memórias criado por J. K. Rowling: os tênues fios de luz que se transformam em uma piscina de lembranças quando colocados na famosa penseira de Alvo Dumbledore, personagem da saga Harry Potter.

Quem diria que dois elementos tão míticos encontrariam uma forma em comum justo na realidade? Da união entre metais e memórias surgem as pratarias. Belas e carregadas de simbolismo, elas voltam ao seu esplendor pelas mãos de profissionais, como o restaurador André Luís Forte, do ateliê Pramets.

Dentro de uma pequena casa no bairro da Vila Olímpia, em São Paulo, bandejas, jarras, maçanetas, troféus, talheres, molduras e toda a sorte de objetos recuperam-se dos efeitos do tempo em um processo totalmente artesanal.

As peças que, por algum motivo, chegam amassadas, primeiramente retomam sua forma original. Depois, são levadas para o polimento, em que eliminam a oxidação, processo muito comum em metais que ficam expostos ao ar. Caso seja um desejo do proprietário, as peças podem receber um novo banho de metal, ou apenas passar pela lustração, para recuperarem o brilho.

Em situações especiais, como peças que têm relevos esculpidos no metal, os padrões costumam ser ressaltados aplicando técnicas de polimento que incorporam o envelhecimento da peça como um fator artístico, clareando certas áreas e mantendo o tom mais escuro em outras.

Diante das peças em estado original, é difícil acreditar na beleza que exibem após o processo, quase como se os anos não tivessem passado. Mas, para que se chegue a esse resultado, um longo caminho é percorrido, como contou André Luiz Forte ao Olhares do Mundo.

“Esses dias eu recebi uma jarra e uma bacia de 1820 que eram feitas de chumbo. A parte de baixo da bacia estava solta, assim como a asa da jarra. Na hora da solda, o material estava totalmente condenado e não aderia. Eu consegui fazer um revestimento de cobre nas peças para soldar, e tive que mandar fundir outra alça, em cobre, que ficou igualzinha à original porque tirei um molde em resina. Depois demos um banho de prata, a pedido da cliente. Foi uma das peças mais complicadas ultimamente”, disse ele, que realiza uma longa negociação com cada proprietário antes de intervir em uma peça, tudo para ser o mais fiel possível à originalidade do artefato.

Afinal, embora o valor sentimental dessas peças – muitas das quais heranças de família – seja inestimável, é preciso lembrar que cada uma tem seu valor artístico e também comercial, devido à qualidade dos materiais. Manter o máximo possível das características originais é uma prioridade para preservar a autenticidade de cada artigo.

A própria arte do restauro carrega sua tradição, como lembra André: “É um trabalho bem manual, bem artístico. Meu pai aprendeu com meu avô, que aprendeu com o meu bisavô, na Itália. Eu nasci no meio disso, comecei a aprender com 13 anos de idade”, disse ele que, atualmente, está com 36.

No entanto, toda essa experiência é apenas uma das aliadas no processo de restauração, em que a surpresa é presença constante. Cada caso é único e apresenta desafios particulares, que exigem soluções sob medida. Por isso, ao lado do conhecimento, a dedicação aparece como item indispensável para qualquer restaurador.

“O que a gente mais preza é fazer a peça ficar perfeita, então eu diria que o mais difícil é fazer bem feito. Não adianta querer fazer a peça correndo, também tem que ter os macetes, as ferramentas certas. Nada é fácil nas restaurações”, explicou.

O resultado é a perfeita combinação entre delicadeza e tradição, que encontram nos metais um refúgio para sobreviver e se reinventar ao longo do tempo.

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