O Encaixe Perfeito - Olhares do Mundo

O Encaixe Perfeito

Usado em monumentos ancestrais, o método de construção em pedras secas resiste ao tempo

Poucas coisas simbolizam tão bem um povo e uma cultura quanto sua arquitetura. Por meio dela, por exemplo, é possível entender o estilo de vida, as dificuldades, as tecnologias, as crenças e as condições em que viviam os nossos mais remotos ancestrais – e, por meio dessa herança, entender um pouco mais sobre nós mesmos.

Assim como todos os aspectos de uma cultura, a arquitetura é diversa, o que a torna incrivelmente fascinante. Vários fatores colaboram para isso, como o relevo, clima e os materiais disponíveis, mas o que mais impressiona são as soluções encontradas para equilibrar todos eles: as técnicas.

Um dos processos mais antigos e complexos é chamado de construção em pedra seca. Muito usada em muros de fortalezas, essa técnica consiste em encaixar pedras de diferentes formatos e tamanhos sem a necessidade de argamassa ou cimento.

Em uma analogia moderna, seria quase como brincar com peças de Lego, com uma pequena diferença: o tamanho monumental e a resistência, que chega a dezenas de séculos.

Embora pareça improvável que um amontoado de pedras possa permanecer erguido por tanto tempo sem algo que as una, a verdade é que a maneira como são feitas estas construções, em alguns casos, as deixam mais resistentes que aquelas que utilizam argamassa. Isso porque chuva e neve vão enfraquecendo as estruturas de argamassa com o tempo.

Por serem impermeáveis, elas acabam apresentando problemas de drenagem no solo e a rigidez também dificulta a adaptação aos movimentos do solo.

É importante também lembrar que o empilhamento não é aleatório, pelo contrário. Para que a estrutura seja firme é preciso colocar as maiores pedras por baixo – o que às vezes significa usar blocos que pesam toneladas. A junção entre as pedras de duas fileiras não deve coincidir, as pedras precisam ser planas e o maior comprimento é voltado para a parte de dentro do muro, não para a lateral.

“A técnica, por dispensar a utilização desta argamassa, requer um travamento das pedras maiores ente si com a cuidadosa e seletiva inserção de pedras menores, ocasionando o equilíbrio e estabilidade ao conjunto”, disse ao Olhares do Mundo o professor João Carlos Gabriel, coordenador do curso de Engenharia Civil da Universidade Presbiteriana Mackenzie em Campinas.

A partir daí, o método se torna cada vez mais adaptável, dependendo das necessidades para qual a obra se destina. Existem aquelas formadas por duas fileiras de pedras com o interior preenchido cuidadosamente com pedras menores colocadas uma a uma; há ocasiões em que espaços são deixados intencionalmente para permitir a passagem do vento em regiões com muitas tempestades, evitando o colapso das pedras. Um dos métodos mais complicados é o dos Incas, que lapidam as pedras de forma a se encaixarem perfeitamente, sem deixar o menor espaço entre si.

Apesar das diferenças, em geral essas construções são permeáveis, facilitando a drenagem e, como são feitas de pedra, também são à prova de fogo. A técnica bem trabalhada e a matéria-prima durável garantem que essas construções apresentem um nível de resistência muito alto. No Peru, há relatos de construções em pedra secas feitas pelos Incas em Cuzco que permaneceram intocadas após terremotos, enquanto as construções espanholas desabaram.

Embora a base seja parecida, cada civilização usou a técnica com uma finalidade ou de maneira diferente. Os britânicos a utilizaram amplamente em muros, enquanto os Incas construíram prédios inteiros e, no oriente, foi utilizada em fundações como a do Castelo de Kumamoto.

Este último, após 400 anos de resistência aos mais diversos ataques, sofreu avarias devido a terremotos, no entanto, evidencia mais uma característica das pedras secas: a facilidade de reparação. Enquanto as paredes de argamassa costumam desmoronar totalmente, dependendo da intensidade do tremor, o desmoronamento é apenas parcial e as pedras podem ser reaproveitadas.

Todas essas vantagens explicam porque esse método é usado desde a antiguidade e persiste até hoje. No entanto, é um procedimento demorado e que exige muito esforço, o que o torna pouco adequado para as construções em larga escala dentro de centros urbanos, como explica o professor João Carlos:

“As obras levantadas com a técnica de pedras secas demandam seções transversais de paredes maiores que obras construídas com alvenaria de tijolo, bloco cerâmico, bloco de concreto ou também de aço, o que reduziria a área útil interna da residência do morador. Elas também demandam um tempo para levantamento da obra muito maior do que aquele com o levantamento com técnicas e materiais mais modernos, leves e sintetizados pelo homem”.

A beleza e a funcionalidade dos projetos executados com as pedras secas ainda impressionam. Os monumentos são lembretes constantes da capacidade do ser humano de transformar o meio em seu favor, criando novas possibilidades a partir do que a natureza oferece, em qualquer lugar ou época. Quando um potencial como esse é explorado da melhor forma, o resultado é, no mínimo, inspirador.

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