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Novos Padrões

Conheça a história de três mulheres que transformaram sua criatividade em inovações adotadas pelo mundo inteiro

Às vezes tudo se resume a um momento de inspiração, outras, a anos de pesquisas e tentativas; algumas surgem como simples ideias para resolver problemas do cotidiano, outras ganham status de descoberta. A verdade é que não existe uma receita única para uma grande ideia e é impossível prever quando elas irão surgir mas todas, dentro de suas capacidades, levaram nossas vidas a novos patamares.

No entanto, os responsáveis por tais avanços nem sempre ganham fama pelo que desempenharam. A história também mostra que, quando uma grande ideia é criada por uma mulher esse crédito é ainda menos valorizado ou, nas piores situações, suprimido e usurpado.

Mesmo com as piores condições, a criatividade das mulheres nunca se deteve. Ao longo dos anos, elas produziram inovações que impactaram milhões diariamente no mundo inteiro, estabelecendo novos padrões em diversas áreas. Um exemplo de como o talento pode superar até as piores barreiras. Conheça aqui algumas dessas inventoras:

 

 

Em 1908, a alemã Amalie Auguste Melitta Bentz estava cansada de limpar os filtros de linho que usava para coar café, que eram difíceis de lavar. A outra opção em voga, usar filtros de metal ou cerâmica, não era muito melhor: precários, eles deixavam resíduos de pó na bebida, estragando o sabor.

Mas a então dona de casa e mãe de dois meninos não desistiu de buscar uma solução mais confortável para seu dia a dia. A jovem decidiu inovar: usando papel absorvente que encontrou nos materiais escolares de um dos filhos, Melitta fabricou um filtro com pequenos furos e colocou-o no fundo de um recipiente de latão específico desenvolvido por ela. O resultado foi um café mais leve, aromático e sem resíduos de pó.

Melitta logo percebeu que a ideia era boa demais para não aproveitá-la. Neta de cervejeiros e filha de um editor de livros, Melitta cresceu em meio a um ambiente empreendedor e levou essa herança para a vida adulta. No final daquele ano, ela obteve a patente do coador de papel e do suporte, utilizando-a para começar a própria empresa.

No início, a produção dos filtros era terceirizada e a própria família era quem tocava o negócio, com os filhos de Melitta trabalhando como entregadores e o marido deixando seu trabalho no comércio para dedicar-se exclusivamente ao desenvolvimento da companhia. Para tornar a ideia conhecida, eles iam de porta em porta oferecendo o produto, um esforço que logo seria recompensado.

Em 1909 a empresa realizou sua primeira grande venda, com 1200 filtros comercializados na feira de Leipzieg. Com a fama do produto, Melitta recebeu prêmios e a empresa cresceu. Hoje milhões de pessoas em todo o mundo usam os coadores de papel diariamente e a Melitta® é considerada uma das maiores companhias alemãs, presente em cerca de 100 países, e continua sendo administrada pela família fundadora.

 

 

Stephanie Kwolek tinha um sonho: queria ser médica. Incentivada a gostar de ciência pelo pai, que morreu quando ela tinha apenas 10 anos, Stephanie decidiu lutar para salvar vidas. Mas, aos 23 anos, quando ela obteve seu diploma em química pela Universidade Carnegie Mellon, esse sonho parecia distante.

Em 1946, a recém-formada Stephanie pensou que o emprego que conseguira na empresa de produtos químicos DuPont® seria um bom começo rumo à medicina. Com ele, poderia economizar algum dinheiro para se manter durante a nova graduação.

Anos depois, Stephanie havia se apaixonado pela pesquisa química e construído uma carreira sólida na área. No início da década de 1960, ela e sua equipe pesquisavam materiais que pudessem tornar pneus mais resistentes. Stephanie trabalhava com polímeros, que são materiais feitos com carbono, mas não estava obtendo o resultado que precisava: uma mistura que formasse fibras resistentes.

Em vez de uma solução clara e viscosa, sua mistura de ácido tereftálico e p-benzenodiamina formava um líquido opaco e pouco viscoso. Seus colegas acreditaram que, ao ser resfriado, provavelmente formaria fibras quebradiças mas, mesmo assim, ela decidiu tentar transformá-lo em fios para descobrir o que aconteceria.

O resultado surpreendeu a todos. A descoberta de Stephanie formava fios até 5 vezes mais resistentes que o aço. Testes posteriores revelaram uma ampla gama de aplicações, desde a fuselagem de aviões até construções, luvas de cozinha, revestimento de pneus e, principalmente, roupas de proteção.

A partir dos anos 1970, o Kevlar, como foi nomeado, passou a ser utilizado em coletes a prova de balas usados por policiais nos Estados Unidos e também em vestimentas de bombeiros. Projeções estimam que, desde essa época, mais de 3 mil policiais norte-americanos tiveram suas vidas salvas pelos coletes feitos com o material. Após muitas reviravoltas, o sonho de Stephanie se transformou em legado e esperança para todos aqueles que tiveram e terão uma segunda chance graças à proteção do Kevlar.

 

 

Para a nova-iorquina Grace Murray Hopper, pioneirismo nunca foi questão de escolha: inovar e quebrar as regras eram conceitos que simplesmente faziam parte de sua personalidade desde cedo. No início do século XX, chegar à universidade era um privilégio para poucos – algo ainda mais raro para as mulheres – mas, mesmo assim, na década de 20, Grace se graduou em Matemática e Física e seguiu para o PhD em Matemática na Universidade de Yale, tornando-se a primeira mulher a conseguir tal diploma.

Só isso já seria o bastante para colocá-la em um patamar alto da História. No entanto, um acontecimento que mudou o curso da humanidade também deixou sua marca na vida de Grace. Pouco depois, seria a vez dela de fazer o mesmo.

Em 1941 os Estados Unidos entraram na Segunda Guerra Mundial. Impressionada com a barbárie, Grace decidiu que faria sua parte no esforço de guerra. Aos 37 anos ela foi aceita na Marinha norte-americana e formou-se como primeira da turma. A Tenente Hopper foi designada para trabalhar no Serviço de Computação de Navios em Harvard, onde permaneceu até 1949, recusando promoções em sua carreira acadêmica para seguir com os projetos militares. Nessa época, ela trabalhava com o Mark I, um dos primeiros projetos de computadores criados. A enorme máquina era, na verdade, uma calculadora superpotente, que pesava 5 toneladas. Grace precisava transformar fórmulas matemáticas em um sistema que o Mark I compreendesse para que pudesse executar os comandos. Em outras palavras, programação.

Grace, que não conhecia programação antes de entrar para o novo trabalho, aprendeu o conceito rapidamente, e junto com o matemático Howard Aiken foi responsável por programar a máquina. A parceria se estendeu também pelos modelos Mark II e Mark III, gerando uma série de pesquisas. Foi Grace quem descobriu o primeiro “erro de computador”, utilizando o Mark II.

A máquina teve um problema e os pesquisadores descobriram que uma mariposa havia entrado no mecanismo, atraída pela luz. Foi Grace quem, a partir do episódio, apelidou os erros de computação de bugs (insetos, em inglês).

Já nos anos 1950, Grace saiu da Marinha dos EUA e começou a trabalhar na Eckert-Maunchly, onde contribuiu para a criação do UNIVAC, o primeiro computador para uso comercial dos EUA. Lá, ela também desenvolveu o primeiro compilador da história. O aparelho era responsável por “traduzir” a linguagem em que os comandos eram dados (no caso, fórmulas matemáticas complexas) para a linguagem em que a máquina funcionava (sistemas matemáticos mais simples).

Quando todos diziam que não era possível, Grace desenvolveu outro protótipo de compilador, que compreendia a escrita dos comandos em inglês através da linguagem que criou, a FLOW-MATIC, o que basicamente fez com que os computadores pudessem ser usados por pessoas que não tinham treinamento em matemática avançada.

Acostumada a vencer desafios, Grace não parou por aí. Em 1959 o governo norte-americano reuniu as principais empresas de tecnologia do país para criar uma linguagem que fosse fácil para o uso comercial e também compatível de um computador para outro. Com base na FLOW-MATIC surgiu a Common Business-Oriented Language (COBOL). Ainda hoje o COBOL é base para vários sistemas de grandes instituições, como bancos e até entidades governamentais.

“A Incrível Grace”, ou “Vovó Cobol”, como ficou conhecida, voltou a trabalhar para a Marinha dos EUA e se dedicou até o fim da vida ao ensinamento e mentoria de jovens, um de seus maiores orgulhos. Grace permanece incentivando novos talentos através de sua memória e também das ações criadas para homenageá-la, como o Prêmio Grace Murray Hopper, realizado pela Association for Computing Machinery (ACM) e o congresso Grace Hopper Celebration of Women in Computing, desenvolvido pelo Anita Borg Institute, e que visa destacar a carreira de mulheres na tecnologia.

 

 

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