A nova corrida espacial - Olhares do Mundo

A nova corrida espacial

Chegar até Marte se tornou uma questão de sobrevivência

Já se passaram 45 anos desde que o homem pisou pela última vez na Lua. Depois que a Apollo 17, sexta e última missão lunar, foi realizada, nós não voltamos ao satélite natural. Ainda que a corrida para o corpo celeste represente um capítulo importante do século passado, tanto para a ciência como para a política, hoje, uma nova viagem tripulada à Lua parece estar distante. Mas, por quê? Entre as diversas teorias, a resposta mais razoável pode ser a falta de dinheiro. Uma nova missão representaria um gasto de bilhões de dólares e, atualmente, se as agências espaciais de todo o mundo dispusessem desse montante, ele provavelmente seria investido em um novo desafio: a conquista de Marte, o planeta vermelho.

Muito antes do homem pensar em ir pela primeira vez ao espaço – fato que aconteceu em 1961, com o cosmonauta Yuri Gagarin – nós, os seres humanos, já éramos naturalmente curiosos. Seja com as próprias pernas, a bordo de barcos ou aviões, o homem sempre procurou desbravar novos horizontes. Hoje não é diferente. Apenas trocamos os barcos por foguetes espaciais, e a Terra – com seus quase treze mil quilômetros de diâmetro – por um Universo de tamanho inimaginável. “O ser humano é explorador por natureza. Temos uma curiosidade imensa sobre outros planetas e estamos sempre procurando por vida além da Terra. É muito importante para nós sabermos se existe ou existiu vida em outros lugares.  A ida a Marte vai nos ajudar a entender as nossas origens”, afirma Duília de Mello, premiada astrônoma e astrofísica brasileira, em entrevista ao Olhares do Mundo.

No entanto, a nova corrida espacial parece estar distante de um fim. São muitos os problemas a serem resolvidos, principalmente quando o assunto é visto pelo aspecto financeiro. Em uma entrevista ao site SYFY, em agosto de 2016, Neil deGrasse Tyson, renomado astrofísico norte-americano, afirmou que acha muito difícil nós chegarmos até Marte, justamente por não ser economicamente viável, já que não existe retorno financeiro para este tipo de investimento. Segundo Neil, todas as motivações que nos levam até Marte não existem no ambiente corporativo, ou seja, ir até lá pelo estudo e conhecimento não seria o suficiente para convencer os investidores. Assim como deGrasse, Duília também afirma que a falta de investimento é o maior empecilho para uma viagem tripulada até o planeta vermelho. “Como ainda não temos a tecnologia para ir até lá, teremos que investir muito dinheiro. Apenas o dinheiro do governo não será suficiente”. No entanto, a professora da Universidade Católica da América, que fica em Washington, nos Estados Unidos, explica que isso não significa que não iremos alcançar esse feito. “Sabemos das nossas limitações, mas sabemos também que podemos desenvolver a tecnologia se tivermos investimentos suficientes. Pode ser que demore bastante, mas não é impossível”, diz.

Foi em meio às dificuldades encontradas pelas agências governamentais que surgiram novos interessados em explorar o quarto planeta do sistema solar. Ao contrário da primeira corrida espacial, “disputada” na metade do século XX, que envolveu duas nações, Estados Unidos e União Soviética, a atual concorrência por Marte também compreende instituições privadas. A SpaceX, por exemplo, do bilionário sul-africano Elon Musk, tem planos ambiciosos – e caros – para vencer a nova corrida. Criada em 2002, a empresa foi desenvolvida com o objetivo de baratear os custos do transporte espacial para, um dia, colonizar Marte. Em 2012, a companhia entrou para história ao realizar o primeiro voo privado de reabastecimento da Estação Espacial Internacional. Já em março de 2017, o Falcon 9, fabricado pela SpaceX, se tornou o primeiro foguete reutilizável, ao ser relançado no espaço e recuperado. Segundo Elon Musk, em comunicado ao vivo feito pela internet logo após o sucesso da missão, esse passo foi de extrema importância para a indústria espacial. Mas foi justamente quando a companhia e os próprios fãs da SpaceX estavam animados com a possibilidade de uma colônia humana em Marte até 2020 que Musk desistiu de levar a Dragon, espaçonave desenvolvida pela empresa, para o planeta vermelho. De acordo com o CEO, seria melhor esperar pela próxima geração de foguetes e espaçonaves da companhia, que serão maiores e mais potentes.

Existem diversos fatores que precisam ser levados em conta quando se fala em colonização de Marte. O planeta compartilha diversas semelhanças com a Terra, como o dia solar apenas 40 minutos mais longo que o nosso, e estações semelhantes como as que conhecemos, porém, existem também muitas diferenças. A gravidade superficial de Marte representa apenas um terço da gravidade presente na Terra. Ainda não se sabe, por exemplo, qual o efeito dessa condição no corpo em um longo período. A pressão atmosférica também é menor, ou seja, seria necessário usar trajes especiais, e as habitações deveriam ser equipadas com câmaras de descompressão similares às das espaçonaves. Fora isso, Marte é mais frio que a Terra, com temperaturas que variam entre 18ºC e -140. Além desses motivos, existem outros que fazem com que Duília de Mello acredite que, para termos científicos, uma viagem de ida e volta para Marte seria o suficiente. Vale lembrar, no entanto, que, mesmo colaborando com o Goddard Space Flight Center, da NASA, Duília deixa claro que não fala em nome – e não é funcionária – da agência espacial norte-americana.

Possível ou não, a possibilidade de chegarmos em Marte mexe com o imaginário das pessoas. Até por isso se tornou cada vez mais comum na internet a divulgação de notícias fantasiosas quanto ao planeta vermelho. Muitas dessas matérias trazem informações falsas e citam a NASA como fonte. A recente onda dos Terraplanistas, por exemplo, aproveitou a atenção dada por veículos que disseminam a falsa ciência e aos poucos vai ganhando adeptos. “O que vem acontecendo é que hoje em dia é bem fácil espalhar notícias falsas e ideias equivocadas por meio da internet e redes sociais. O que precisamos é ensinar o povo a não acreditar em tudo que está divulgado. É necessário olhar a fonte da notícia ou da teoria para ver se realmente é algo sério. Apesar de todos estes problemas, as crenças não irão interromper os investimentos na ciência, pois o ser humano vai continuar a ser curioso e apenas a ciência pode ajudar a responder as perguntas que temos”, diz Duília.

Uma coisa é certa: a colonização de Marte seria uma saída para a sobrevivência da espécie humana em caso de um desastre com nosso planeta. O físico e cosmólogo Stephen Hawking afirmou, durante participação em um documentário promovido pelo canal britânico BBC, que temos apenas 100 anos para deixar a Terra, caso contrário, podemos ser extintos por colisões de asteróides, mudanças climáticas, epidemias, e até mesmo crescimento populacional descontrolado. Sobre isso, Duília de Mello, responsável pelo descobrimento da supernova SN 1997D, faz um alerta. “As espécies não vivem infinitamente, mas passam por evolução. Dependendo de quando o fim do planeta ocorrerá, estaremos em um outro estágio evolutivo. Mas, se o fim do planeta estiver bem próximo, pode ser que não dê tempo da evolução achar uma solução, e isto significaria o fim da espécie humana”, conclui.

Texto por Guilherme Torres Vieira

 

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