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Descubra a tradicional cerimônia japonesa do chá

Para alguns, Camellia sinensis. Para outros, apenas chá verde. Para a comunidade japonesa Urasenke, o matchá é uma porta para o caminho da espiritualidade.

A tradição remonta ao século XII, quando monges budistas levaram as folhas de chá da China para o Japão. A partir dos mosteiros, onde era utilizado como um estimulante para a meditação, o ato de tomar chá se tornou parte do cotidiano das pessoas – especialmente da nobreza, que acrescentou a admiração de objetos de porcelana a seu processo -, até que no século XVI, a tradição cultural ganhou também uma dimensão espiritual devido aos ensinamentos do mestre Sen Rikyu.

Para ele, a cerimônia do chá baseava-se em quatro princípios inspirados no Zen budismo: wa, kei, sei e jaku. Wa é harmonia, Kei, respeito, Sei significa pureza e Jaku, tranquilidade. Esses princípios norteadores da cerimônia do chá não apenas sobreviveram durante quatro séculos, como também são mantidos até hoje, prosperando pelo mundo inteiro. Hoje, o chadô, ou o caminho do chá, como fora idealizado por Sen Rikyu, tornou-se também sinônimo da cultura japonesa para aqueles que entram em contato com a filosofia por trás do chá.

Em São Paulo, a experiência do chadô pode ser vivenciada no Centro de Chado Urasenke do Brasil, instituição criada pela família Sen que se dedica a propagar os ensinamentos de Sen Rikyu.

Por fora, o antigo prédio localizado na Liberdade, o bairro com mais influência oriental na cidade, não foge do cinza árido da capital paulista, o que apenas ressalta o encanto da salinha escondida no fundo de um corredor no quarto andar. Saindo do elevador, o ambiente se destaca por sua acolhedora decoração de madeira. O que parece pequeno, a princípio, se revela uma entrada muito mais espaçosa que o previsto.

As pedras molhadas que formam um caminho por entre a forragem de pedrinhas brancas são convites que indicam que os visitantes são bem-vindos. Andar pelas pedras úmidas é o primeiro ato de purificação pelo qual passarão os convidados, a essa altura já transportados para um universo de tranquilidade. Não fosse a silhueta da cidade a lembrar que a capital paulista segue seu ritmo lá fora, é fácil se esquecer do turbilhão da terra da garoa.

O jardim cuidadosamente plantado, a cerca de bambu e a fonte: tudo está em seu lugar, conduzindo naturalmente ao Wa. Ali os convidados devem lavar as mãos e a boca, purificando-se novamente. Agora, mais tranquilos e purificados, é hora do chá.

Os movimentos são precisos, para tudo existe um significado que deve ser respeitado. É preciso dedicar-se de ao momento pois, afinal, não se sabe quando, ou se, haverá a oportunidade de participar de uma nova cerimônia. De qualquer forma, uma cerimônia não é igual a outra, assim como nós não somos os mesmos em diferentes ocasiões.

“O chadô surgiu em uma época de muitas guerras no Japão, podia-se morrer a qualquer momento. A cerimônia era o que trazia tranquilidade aos guerreiros samurais”, explica o Mestre Sôichi Hayashi, o responsável pela sede brasileira da Urasenke.

Desta forma, entende-se que o chadô é, em sua essência, uma celebração à vida onde tudo é feito para estimular a fruição e o equilíbrio com a natureza. Para o mestre, a principal característica da cerimônia, chamada chanoyu, é a purificação: “depois de purificados, os corações são unificados”, completa.

O objeto mais sagrado no espaço, que deve ser reverenciado e observado, é o painel com a caligrafia do Grão-mestre, que veio diretamente do Japão. Nessa sala, em particular, o ideograma fala sobre a dança dos grous, pássaro símbolo da sorte no Japão. A ideia é que essa caligrafia dê o tom à cerimônia, que nesse caso é voltada à prosperidade. A flor, mais um elemento a ser observado, simboliza a presença da natureza e não deve ser perfumada demais, venenosa, ou conter espinhos.

O silêncio da cerimônia é absoluto, interrompido apenas por barulhos externos, inevitáveis em uma metrópole. A concentração em cada movimento é total, mas não requer esforço. É como se a mente soubesse que precisa se acalmar.

Para quem nunca participou de um chanoyu, a simplicidade chega a ser desconcertante. Nenhum movimento é desnecessário, mas para atingir esse nível de precisão, as regras são muito rígidas. A professora Bertha Hoshi ressalta que o aprendizado do chadô não envolve apenas o estudo, mas também a prática: “o corpo precisa lembrar”.

 

Existem diversos tipos de cerimônia e, uma completa, com refeição, dura quatro horas. Para compreender o básico é necessário praticar pelo menos uma vez por semana, durante seis meses, o que explica a sensação de inadequação dos convidados de primeira viagem. Afinal, em uma cerimônia tão delicada, que tem como princípio o respeito a tudo e todos, o medo de cometer uma gafe e ofender anfitriões tão gentis é palpável.

O lado bom em ser um marinheiro de primeira viagem é a curiosidade e a disposição em aproveitar o momento. Conforme a cerimônia avança, todos os sentidos são estimulados. É servido um doce de sabor leve e inusitado, cujo ingrediente principal, o feijão branco, não é identificado facilmente na primeira mordida.

Após a apreciação do doce, que é responsabilidade da auxiliar da anfitriã, o destaque é todo dado à preparação do matchá, quando a contemplação se torna cada vez mais natural. Muito antes de servir a bebida, a anfitriã realiza mais um ritual de purificação com um tecido de seda vermelho – que seria roxo caso se tratasse de um anfitrião. Ela dita o ritmo da cerimônia, observando cada objeto cuidadosamente enquanto se dedica ao chá.

Os objetos são apoiados em uma pequena estante, enquanto a água é aquecida no próprio tatame. Dentro dele, há um braseiro de carvão embutido, o que também torna o ambiente mais acolhedor.

Mais do que apenas colocar as folhas pulverizadas em infusão na água morna, a anfitriã usa um batedor de bambu chamado chasen, que faz com que o chá seja servido com uma espécie de espuma.

Nesta cerimônia, especificamente, foi servido o usucha (chá fraco), variedade mais leve. Já o koicha (chá forte) é mais espesso, de sabor pungente e requer preparação especial, “uma refeição leve, para não passar mal”, como explica o mestre Sôichi.

O matcha é preparado com um pó fino, feito com os primeiros brotos da planta, o que torna o sabor indescritível. O usucha é marcante, mas sem ser amargo. Quente, mas não a ponto de queimar. É fresco e leve, mas encorpado ao mesmo tempo. A degustação é o ponto alto de todo o chanoyu, mas não acaba aí. O chadô prega o respeito entre tudo e todos, por isso, cada objeto é limpo e recolocado em seu lugar e cada convidado é responsável pelo lixo que produz.

Em um último gesto de hospitalidade, a anfitriã repõe a água utilizada, para que, desta forma, sempre esteja preparada para oferecer chá a novos convidados. O mestre Sôichi tem razão: os visitantes do Centro de Chado Urasenke do Brasil fazem o caminho de volta para a cidade purificados, tranquilos e em sintonia com a natureza. Mas acima de tudo, gratos, pela experiência de entrar em contato com a própria essência.

Texto por Natália Scalzaretto
Fotos por Vinícius Bopprê

 

 

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