Mestres do Mármore - Olhares do Mundo

Mestres do Mármore

Michelangelo e Bernini: conheça a vida e obra de dois dos maiores escultores da humanidade

As diferenças estão entre as mais belas características humanas. Ainda assim, com tantas peculiaridades, existem traços em comum encontrados nas mais diversas épocas e locais. Um deles é o hábito de preservar aquilo que é importante em pedra. Da união entre o desejo de registrar a cultura e prestar homenagens ao sagrado surge a escultura, uma das sete artes.

Os gregos foram os primeiros a testar os limites da pedra, buscando torná-la o mais semelhante possível ao corpo humano. Seu desejo de dar vida ao mármore se perpetuou por séculos, tornando-se a meta dos maiores escultores de todos os tempos.

Entre eles, o italiano Michelangelo Buonarroti entrou para a história como um dos maiores artistas de seu tempo, e certamente o mais completo. Nascido em 1475 na cidade de Caprese,  Michelangelo demonstrou inclinação para as artes desde a infância. Aos 13 anos tornou-se aprendiz de pintor, mas pouco tempo depois mudou-se para a escola de escultores de Lorenzo de Médici, onde encontrou sua verdadeira vocação.

Ainda muito jovem e desconhecido, Michelangelo produziu sua primeira obra-prima, que permanece como uma de suas mais famosas: a “Pietá”. Com uma técnica impressionante, ele representou a morte de Jesus Cristo sob uma perspectiva inovadora, ressaltando a juventude de Maria, e alterando as proporções, fazendo com que Jesus ficasse bem menor que sua mãe, mantendo o equilíbrio das formas, algo essencial no Renascimento.

Após o sucesso da “Pietá”, Michelangelo consolidou sua fama ao cair nas graças do Papa Júlio II, que lhe encomendou algumas de suas obras mais importantes, como os afrescos do teto da Capela Sistina.  No que diz respeito à escultura, o Papa também contribui muito para o trabalho do artista, comissionando o que teria sido um dos maiores trabalhos de todos os tempos: o túmulo do pontífice.

No projeto original, o mausoléu de Júlio II seria uma estrutura gigantesca, de três andares e com 40 estátuas. A obra foi sendo gradualmente reduzida ao longo do tempo, devido a brigas entre o artista e o pontífice, famoso por seu gênio difícil, e a falta de recursos. No entanto, esta obra se destaca como uma das principais realizadas por Michelangelo, com destaque para a estátua de Moisés. Reza a lenda que após terminar a figura do personagem bíblico, Michelangelo teria se espantado com tamanha perfeição e batido na estátua com um martelo, gritando “Fale”!

Escolher alguma favorita entre tantas peças icônicas produzidas por Michelangelo é um desafio e tanto, mas o fato é que nenhuma seleção de sua obra está completa sem a menção ao “Davi”. Criada em um período de transformações na cidade de Florença, a obra tornou-se símbolo da cidade e dos ideais do Renascimento, representando fidedignamente o corpo humano, em seu conceito máximo de beleza.

Mais uma vez, Michelangelo ousou ao retratar o personagem de modo diferente, antes da batalha contra o gigante Golias. A expressão tensa, decidida, em que cada detalhe do semblante aparece destacado se complementa com a definição dos músculos – fruto dos estudos de Michelangelo sobre a anatomia humana – mas se contrapõe à postura relaxada: ao mesmo tempo que está preparado para a batalha, Davi tem segurança de que irá vencê-la.

Além da beleza, as obras de Michelangelo precisaram apresentar resistência através dos séculos. Até 1873, o “Davi” ficava exposto ao ar livre, onde foi atacado por motivações políticas e atingido por um raio. Já a “Pietá” sofreu um atentado em 1972, quando um homem atacou a escultura usando um martelo. Após cuidadosas restaurações, ambas as peças voltaram a ser expostas ao público, atraindo a admiração de turistas e fãs do mundo todo.

Aliás, para os apaixonados pela arte, uma visita à Itália não pode acabar sem a apreciação das obras de outro gênio: Gian Lorenzo Bernini.

Suas obras estão presentes por toda a Roma e inspiram roteiros turísticos pela capital italiana, estando entre os pontos turísticos mais visitados. São dele a colunata da Praça São Pedro, os anjos da ponte de San’Angelo, a Fontana dei Quattro Fiumi, além de projetos arquitetônicos como a igreja de Sant’Andrea al Quirinale.

O grande mestre do Barroco italiano também consagrou sua carreira graças ao mecenato dos Papas, o que explica o grande número de obras com temática católica. Sua escultura mais famosa, “O Êxtase de Santa Teresa” é considerada um exemplo do principal objetivo do Barroco: criar peças envolvendo os mais diversos tipos de arte, com o objetivo de encantar o espectador a ponto de lhe despertar profundos sentimentos.

A comoção que a obra provoca também se insere no contexto de crise que vivia a religião católica no século XVII, após a Reforma Protestante. A ideia é que os fieis também sejam capazes de sentir a emoção da santa ao ser visitada pelo anjo, em uma valorização da comunhão entre espírito e corpo que só foi possível devido ao uso de materiais requintados como o mármore, algo considerado um excesso de luxo pelos protestantes.

Do ponto de vista técnico, a obra impressiona pela riqueza de detalhes – fruto da habilidade de Bernini como escultor e influência do Barroco – como a diferença entre os tecidos das roupas do anjo e da santa, a expressão no rosto dela, a precisão dos músculos do anjo. Tudo isso também é valorizado pela arquitetura, uma vez que a escultura está posicionada embaixo de uma claraboia, garantindo as nuances certas de iluminação necessárias para destacar sua beleza e emoldurada por colunas de pedra entalhada.

 

Outro toque especial vem dos raios de cobre dourado que saem da claraboia e brilham com a luz recebida, criando uma diferença de cores influenciada pela pintura. A atmosfera dramática que se forma também é proposital: Bernini era um grande apreciador do teatro, de onde tirou inspiração para seu trabalho.

A ampla obra que  Bernini produziu ao longo de seus 82 anos também foi bastante influenciada pelas temáticas da Renascença, que valorizavam a antiguidade e os clássicos da mitologia greco-romana. São destas histórias que surgem os temas de outros dois relevantes trabalhos do artista: “O Rapto da Prosérpina” e “Apolo e Dafne”.

Em “Apolo e Dafne”, o artista captura o momento em que o deus Apolo, apaixonado pela ninfa Dafne, tenta agarrá-la e, para protegê-la, seu pai, o deus-rio Peneu a transforma em um loureiro, para desespero de Apolo. Entre os pontos de destaque da obra está a sensação de movimento, transmitida principalmente pelos cabelos de Dafne e as roupas de Apolo, que parecem esvoaçar.  Outra característica importante foi a escolha de Bernini em utilizar diferentes tipos de mármore para criar texturas, o que torna ainda mais realista a transformação da ninfa em árvore.

Já em “O Rapto da Prosérpina”, o dom artístico de Bernini é o que se sobrepõe. Com uma capacidade invejável, ele consegue entalhar a cena em que o deus Plutão (ou Hades, para os gregos), raptava Prosérpina (ou Perséfone), filha de Deméter, a deusa das colheitas, e a levava para o mundo inferior.

O detalhe dos dedos de Plutão afundados na pele de Prosérpina fazem esquecer que trata-se de uma escultura em pedra.  A cena é vívida, em contraposição à frieza do mármore e, assim como em “Apolo e Dafne”, a precisão na captura do momento impressiona. É possível sentir a obsessão do Deus e o terror da jovem, que luta para se desvencilhar, como se estivéssemos assistindo a cena em tempo real.

O trabalho de Bernini, em especial junto ao Vaticano, chamou a atenção do rei Luís XIV da França, que o convidou para ir a Paris, produzir sua Estátua Equestre. O plano era que o mestre Barroco participasse da construção do Museu do Louvre, no entanto, a rixa entre arte italiana e francesa acabou causando um mal-estar nas relações de Bernini, que não participou do projeto.

Mesmo separados por mais de trinta anos e influenciados por diferentes visões da arte, Michelangelo e Bernini descobriram na escultura modos muito semelhantes de encantamento e beleza. Seu talento, aliado ao estudo árduo de técnicas e à prática gerou patrimônios incalculáveis não apenas para o povo italiano, mas toda a humanidade. Assim como o mármore, o legado destes mestres permanece intocado pelo tempo e sempre pronto a deslumbrar aqueles que os observam em busca de inspiração.

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