Entre Rosés e Lavandas - Olhares do Mundo

Entre Rosés e Lavandas

A memória funciona de maneira peculiar. Com o passar do tempo, é interessante observar o que lembramos sobre os lugares: um aroma, um rosto, uma sensação. Quando o local em questão é a Provença, na França, difícil é escolher a lembrança preferida.

Em meio ao perfume dos campos de lavanda, ruínas romanas e paisagens do Mediterrâneo, a região é uma das mais famosas e belas da França. Sua história remete ao século VII a.C., quando estima-se que foi colonizada por gregos. Posteriormente integrou o Império Romano, de onde herdou o nome – uma derivação da palavra província.

 

Na Idade Média foi controlada por diversas dinastias, como as casa de Barcelona e Anjou e tornou-se até mesmo sede do papado no século XIV, no que ficou conhecido para os historiadores da religião católica como Cisma do Ocidente. Atualmente oferece a seus moradores e visitantes belas paisagens pontuadas por monumentos históricos, riquezas naturais e patrimônios culturais.

O complemento perfeito para desfrutar de um tour na região é justamente uma das marcas registradas do local: o vinho rosé. Essa versão da bebida, que é de difícil produção, encontrou na Provença o lugar ideal para se estabelecer.

Um dos segredos desse vinho tão especial está na escolha do processo de fabricação. Para criar a mistura perfeita, o método clássico – mais utilizado na Provença – consiste em interromper antecipadamente a maceração, que é o tempo em que o suco passa em contato com as cascas das uvas para obter aromas, sabores e coloração mais fortes. Nesta fase, a bebida também é conhecida como mosto.

No vinho rosé, esse estágio dura até 24 horas e o resultado é um vinho de sabor frutado e cor clara. Na Provença, especificamente, o cuidado para que a bebida tenha a tonalidade exata começa nos vinhedos, bem antes da maceração, como conta ao Olhares do Mundo o sommelier Manuel Luz, da importadora Cantu: “As uvas são colhidas alguns dias antes da maturação que seria ideal para elaborar vinhos tintos, para não atingirem seu grau máximo de tinta nas cascas, o que facilita o processo”.

No entanto, este não é o único método. Para a produção de vinhos tintos mais encorpados, é permitido que os enólogos drenem até 10 por cento do mosto durante a maceração.  A partir do líquido retirado também é possível fabricar rosés, no que é conhecido como método de sangria. Segundo Luz, esta tecnologia, comumente utilizada no Chile, na Argentina e na Califórnia, é “mais fácil de elaborar e gera vinhos ligeiramente mais doces”. Há também quem opte por misturar uvas brancas e tintas durante a maceração, porém, esse processo é pouco indicado, pois pode gerar uma bebida de pior qualidade.

Além da excelência, para fabricar um rosé a autenticidade também é um critério fundamental. Por isso, na União Europeia, é proibido misturar vinhos tintos e brancos prontos e comercializar o resultado como se fosse um rosé, o que valoriza o método tradicional e representa uma vitória para os tradicionais produtores da Provença.

A tradição do rosé na região francesa vem de longa data e, atualmente, a variedade corresponde a 90 por cento da produção local, dominância que pode ser explicada também pelo conjunto de fatores denominado terroir. Esse conceito, muito estudado pelos amantes dos vinhos, indica a relação de elementos da natureza, como clima, relevo e solo de determinada região, além da ação do homem, que confere características específicas às bebidas.

Na Provença, o clima tende a ser mais seco, com verões quentes e outonos e primaveras mais chuvosos. O vento mistral, também mais seco, evita que as uvas sofram com excesso de umidade e mofo. Os solos, em sua maioria, pobres, “dão elegância a cepas de personalidade como, Syrah e Grenache”, explica ao Olhares do Mundo o sommelier Georgio Robert Silva Pereira, da Ville du Vin. A presença de montanhas expõe as frutas a diferentes intensidades de luminosidade. Os recursos naturais tornam a região muito propícia ao cultivo de uvas como as famosas Cabernet Sauvignon e Grenache, já citada anteriormente.

Para o sommelier, o que também torna o terroir da Provença especial é a ação antrópica, movida pela expertise de séculos de produção: “O grande diferencial é que, em média, os rosés da Provença passam 6 meses em bâttonage (método em que o vinho fica em contato com as leveduras), fazendo com que as leveduras se desintegrem e se unam ao vinho, conferido-lhe uma textura de boca elegante, densa”, comenta Pereira.

A influência do terroir vai além da produção e afeta o próprio consumo da bebida, uma vez que a França é o maior produtor e também consumidor da variedade. O rosé combina perfeitamente com a culinária da Provença, leve e refrescante. O vinho, que deve ser servido entre 8 e 10 graus Celsius, é uma boa pedida para acompanhar frutos do mar, entradas, canapés, queijos frescos e um lindo cenário, seja à beira do Mediterrâneo ou em qualquer outro lugar.

 

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