Entre Céu e Mar: A Travessia - Olhares do Mundo

Entre Céu e Mar: A Travessia

No primeiro episódio da série, Amyr Klink conta a história de sua viagem da África para o Brasil

Sozinho, entre céu e mar, Amyr Klink partiu da Namíbia, na África, no ano de 1984. Seu destino era o Brasil. Mais precisamente Salvador, Bahia. O método escolhido para vencer as 3.700 milhas náuticas do Atlântico Sul que o separavam de sua terra natal era o remo. Amyr Klink decidiu enfrentar o segundo maior oceano do planeta com a força de seus braços e pernas, numa embarcação de pouco mais de seis metros de comprimento.

“A minha rota, longa, fria e tempestuosa, contava, no entanto, com correntes favoráveis na quase totalidade do trajeto e com a preciosa regularidade dos alísios de sudeste que unem o Sul da África ao Nordeste brasileiro. Caminho difícil e longo, mas o único possível para um barquinho a remo”, escreveu Amyr em “Cem dias entre céu e mar”livro que conta toda a história da travessia, desde o projeto do barco que, em junho daquele ano, tocaria o oceano.

Foram anos de pesquisa, dias de angústia e infinitas pilhas de papéis burocráticos até a chegada do dia 18 de junho. O dia da grande libertação, o dia em que Amyr seria dono de seu próprio destino. Se o alívio da partida foi grande, maior foi a alegria de sobreviver à despedida turbulenta em que quase viu seu barco naufragar. Os ventos que expõem os diamantes escondidos sob a terra são também os responsáveis pelas grandes ondas que, somadas às turbulências térmicas, fazem daquela costa africana um lugar extremamente inóspito. “Que diabos vim fazer aqui?”, pergunta a si mesmo. “Sair daqui”, responde, enquanto rema, de costas, “pensando na frente”.

Vencida a costa da Namíbia, e com as correntes trabalhando a seu favor, a viagem começou a render. O comandante impôs à sua tripulação de único homem um regime de trabalho de 10 horas diárias de remo. Fizesse chuva ou fizesse sol. Superou as capotagens, sem lutar contra elas, como era o plano de desenvolvimento do barco, e se encantou com o que o Atlântico escondia além das ondas e tempestades.

“Noite escura, sem céu nem estrelas. Uma noite ardentia. Estava tremendo. O que seria desta vez? A resposta veio do fundo. Uma enorme baleia, com o corpo todo iluminado, passava exatamente sob o barco, quase tocando-lhe o fundo”, descreveu Amyr. Guiado pela posição das estrelas e com a companhia de baleias festivas, tubarões famintos e gaivotas tão solitárias como o comandante, Amyr chegou à costa brasileira, cem dias depois de ter partido.

Encontrou abrigo na Praia da Espera e às 13h30 ligou o rádio para dizer aos seus amigos que estava, finalmente, cercado de coqueiros. Conversou com um pescador, que perguntou como é que tinha sido sua pescaria e por ali ficou, “balançando os pés na água”. “Na quietude daquela noite, a última, ancorado no infinito sossego da Praia da Espera, sonhando com os olhos abertos e ouvindo outros barcos que também dormiam”, Amyr decidiu não desembarcar. Ao contrário, dormiu. Achou que ainda precisava de alguns momentos a sós com o Atlântico.

Texto por Vinícius Bopprê

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