A delicadeza da alta costura - Olhares do Mundo

A delicadeza da alta costura

Beleza, qualidade e inovação: conheça os ingredientes de sucesso das grandes grifes

Ao longo da história, a moda sempre teve um papel de destaque na sociedade. Era através de roupas com ricos materiais e tecidos que a nobreza, por exemplo, expressava seu poder. Fora isso, o uso de vestimentas especiais também discerniam sacerdotes dos demais membros da população e, claro, chamavam atenção com a criação de trajes típicos para festas específicas.

Hoje, a moda continua um símbolo de elegância e status, mas ganhou novos ares: contestação das regras, apoio às mais diversas causas, expressão da personalidade e muitas outras. Mas, dentre todos os segmentos, um se destaca por apresentar uma síntese do próprio conceito da moda: a alta costura.

A origem do termo haute couture remonta a 1858, quando a grife do inglês Charles Frederick Worth lançou em Paris o primeiro desfile de moda do mundo, tendo sua esposa trabalhando como modelo. A partir de então, as peças produzidas artesanalmente, sob medida, com costuras e bordados feitos à mão e alto grau de requinte, passaram a ser consideradas exemplares de alta costura. Dez anos depois, Worth criaria a Chambre Syndicale de la Couture Parisienne, união que se dedicaria a preservar os métodos de produção e o valor cultural da moda francesa.

Conforme a indústria ganhava fôlego com o desenvolvimento de novas máquinas e tecnologias, a moda passou a refletir estas mudanças. Enquanto as roupas se popularizavam nos grandes bazares, as classes abastadas voltavam cada vez mais seu interesse para artigos exclusivos.

As mudanças sociais também não passaram em branco. Com o empoderamento feminino no início do século XX, impulsionado pelas campanhas por direito ao voto, surge um novo estilo, e as grifes de alta costura logo se estabelecem na vanguarda dos movimentos, rompendo padrões e criando novas tendências.

O uso de espartilhos apertadíssimos para tornar as mulheres mais curvilíneas decaiu nesta época, e um visual andrógeno passou a ser valorizado: os cabelos são curtos, e as roupas mais leves e práticas para o dia a dia. É nesse cenário que surge um dos maiores ícones do mundo da moda: Coco Chanel.

Inspirada por estas tendências, Chanel revoluciona a moda com a criação do tailleur feminino. Com seu trabalho, a estilista incorpora a inovação como uma das principais características da alta costura, algo que se mantém até hoje.

Chanel também quebrou paradigmas ao se estabelecer em um setor que, embora dedicado às mulheres, era extremamente fechado para a participação feminina. Além disso, ela foi responsável pela quebra do padrão de beleza de toda uma época, passando a valorizar mulheres que praticavam esportes, eram bronzeadas e magras.

Os tempos de guerra na Europa também causaram profundas mudanças na alta costura. Com o racionamento e escassez de tecidos, estilistas precisaram ser criativos para inovar nos anos de conflito, já que não havia espaço para o luxo. A haute couture, assim como todo o estilo de vida francês, se viu ameaçada durante a invasão nazista, quando Hitler criou o plano de transferir para Berlim e Munique as grandes grifes e transformá-las em capitais da moda.

Para protegê-la, após a guerra, o que antes era um código de práticas visando o mais alto nível de qualidade se torna lei pelo governo em francês. A Chambre Syndicale de la Haute Couture, derivada da instituição criada por Worth criou um rígido conjunto de regras em 1945 que deveriam ser seguidas pelas marcas.

De acordo com as normas do governo francês, apenas as grifes que tenham mais de 20 funcionários em sede própria no chamado Triangulo de Ouro – entre as ruas Champs-Elysées, Montagne e George V – em Paris, e que realizem um trabalho completamente artesanal, com todas as costuras feitas à mão, e, por último, apresentem um número mínimo de looks inéditos para o dia e para a noite a cada temporada podem ser consideradas marcas de haute couture.

Marcas estrangeiras que seguem a mesma linha de trabalho, como Armani, Valentino e Atelier Versace entram para as categorias de membros correspondentes. Há também a categoria de membros convidados, que sofrem alterações frequentes.

Mesmo com restrições tão severas, o pós-guerra viu a haute couture florescer, principalmente pelas mãos de um homem: Christian Dior. A criação do chamado New Look, em 1947, deu novo fôlego à moda, marcando o retorno da feminilidade e o do luxo após um período de grandes provações.

Peças de tecidos finos, como a seda, com a cintura bem marcada e modelagens luxuosas, eram extravagantes para a época, quando muitos países ainda se recuperavam do esforço de guerra. Mesmo assim, o estilo de Dior se perpetuou pelo mundo e conquistou cada vez mais adeptas.

Após sua morte precoce, em 1957, aos 52 anos, outro talento o sucedeu à frente da marca. Na época, o jovem Yves Saint Laurent, com apenas 21 anos, consolidou o futuro da grife sem seu criador ao lançar o vestido trapézio.  Saint Laurent , que viria a se tornar um dos designers mais celebrados de todos os tempos, influenciou profundamente a moda nos anos 1960, dando voz à tendências como o look beatnik,  com sua própria marca.

Em 1970, época de grande efervescência cultural, Jean Paul Gaultier surge como figura irreverente e rebelde, contestando limites estabelecidos anteriormente e propondo a cultura pop e a moda de rua como inspiração. Não à toa, seu espírito provocador lhe rendeu o apelido de “enfant terrible” (a criança terrível, em português).

Desde então, a liberdade tornou-se palavra de ordem e podemos ver a influência dos mais diversos estilos na moda de luxo.  Embora o título seja exclusivo, a alma da haute couture se espalhou pelo mundo através de nomes de peso que apostam na moda de luxo, como a estilista Diane von Fürstenberg, que revolucionou a silhueta feminina com o vestido envelope, o norte-americano Michael Kors, o libanês Elie Saab, o britânico Alexander McQueen e tantos outros talentos, consolidando seu papel como palco de rupturas e sinônimo de qualidade.

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