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A delicadeza da alta costura

Ao longo da história, a moda sempre teve um papel de destaque na sociedade. Era através de roupas com ricos materiais e tecidos que a nobreza, por exemplo, expressava seu poder. Fora isso, o uso de vestimentas especiais também discerniam sacerdotes dos demais membros da população e, claro, chamavam atenção com a criação de trajes típicos para festas específicas.

Hoje, a moda continua um símbolo de elegância e status, mas ganhou novos ares: contestação das regras, apoio às mais diversas causas, expressão da personalidade e muitas outras. Mas, dentre todos os segmentos, um se destaca por apresentar uma síntese do próprio conceito da moda: a alta costura.

A origem do termo haute couture remonta a 1858, quando a grife do inglês Charles Frederick Worth lançou em Paris o primeiro desfile de moda do mundo, tendo sua esposa trabalhando como modelo. A partir de então, as peças produzidas artesanalmente, sob medida, com costuras e bordados feitos à mão e alto grau de requinte, passaram a ser consideradas exemplares de alta costura. Dez anos depois, Worth criaria a Chambre Syndicale de la Couture Parisienne, união que se dedicaria a preservar os métodos de produção e o valor cultural da moda francesa.

Conforme a indústria ganhava fôlego com o desenvolvimento de novas máquinas e tecnologias, a moda passou a refletir estas mudanças. Enquanto as roupas se popularizavam nos grandes bazares, as classes abastadas voltavam cada vez mais seu interesse para artigos exclusivos.

As mudanças sociais também não passaram em branco. Com o empoderamento feminino no início do século XX, impulsionado pelas campanhas por direito ao voto, surge um novo estilo, e as grifes de alta costura logo se estabelecem na vanguarda dos movimentos, rompendo padrões e criando novas tendências.

O uso de espartilhos apertadíssimos para tornar as mulheres mais curvilíneas decaiu nesta época, e um visual andrógeno passou a ser valorizado: os cabelos são curtos, e as roupas mais leves e práticas para o dia a dia. É nesse cenário que surge um dos maiores ícones do mundo da moda: Coco Chanel.

Inspirada por estas tendências, Chanel revoluciona a moda com a criação do tailleur feminino. Com seu trabalho, a estilista incorpora a inovação como uma das principais características da alta costura, algo que se mantém até hoje.

Chanel também quebrou paradigmas ao se estabelecer em um setor que, embora dedicado às mulheres, era extremamente fechado para a participação feminina. Além disso, ela foi responsável pela quebra do padrão de beleza de toda uma época, passando a valorizar mulheres que praticavam esportes, eram bronzeadas e magras.

Os tempos de guerra na Europa também causaram profundas mudanças na alta costura. Com o racionamento e escassez de tecidos, estilistas precisaram ser criativos para inovar nos anos de conflito, já que não havia espaço para o luxo. A haute couture, assim como todo o estilo de vida francês, se viu ameaçada durante a invasão nazista, quando Hitler criou o plano de transferir para Berlim e Munique as grandes grifes e transformá-las em capitais da moda.

Para protegê-la, após a guerra, o que antes era um código de práticas visando o mais alto nível de qualidade se torna lei pelo governo em francês. A Chambre Syndicale de la Haute Couture, derivada da instituição criada por Worth criou um rígido conjunto de regras em 1945 que deveriam ser seguidas pelas marcas.

De acordo com as normas do governo francês, apenas as grifes que tenham mais de 20 funcionários em sede própria no chamado Triangulo de Ouro – entre as ruas Champs-Elysées, Montagne e George V – em Paris, e que realizem um trabalho completamente artesanal, com todas as costuras feitas à mão, e, por último, apresentem um número mínimo de looks inéditos para o dia e para a noite a cada temporada podem ser consideradas marcas de haute couture.

Marcas estrangeiras que seguem a mesma linha de trabalho, como Armani, Valentino e Atelier Versace entram para as categorias de membros correspondentes. Há também a categoria de membros convidados, que sofrem alterações frequentes.

Mesmo com restrições tão severas, o pós-guerra viu a haute couture florescer, principalmente pelas mãos de um homem: Christian Dior. A criação do chamado New Look, em 1947, deu novo fôlego à moda, marcando o retorno da feminilidade e o do luxo após um período de grandes provações.

Peças de tecidos finos, como a seda, com a cintura bem marcada e modelagens luxuosas, eram extravagantes para a época, quando muitos países ainda se recuperavam do esforço de guerra. Mesmo assim, o estilo de Dior se perpetuou pelo mundo e conquistou cada vez mais adeptas.

Após sua morte precoce, em 1957, aos 52 anos, outro talento o sucedeu à frente da marca. Na época, o jovem Yves Saint Laurent, com apenas 21 anos, consolidou o futuro da grife sem seu criador ao lançar o vestido trapézio.  Saint Laurent , que viria a se tornar um dos designers mais celebrados de todos os tempos, influenciou profundamente a moda nos anos 1960, dando voz à tendências como o look beatnik,  com sua própria marca.

Em 1970, época de grande efervescência cultural, Jean Paul Gaultier surge como figura irreverente e rebelde, contestando limites estabelecidos anteriormente e propondo a cultura pop e a moda de rua como inspiração. Não à toa, seu espírito provocador lhe rendeu o apelido de “enfant terrible” (a criança terrível, em português).

Desde então, a liberdade tornou-se palavra de ordem e podemos ver a influência dos mais diversos estilos na moda de luxo.  Embora o título seja exclusivo, a alma da haute couture se espalhou pelo mundo através de nomes de peso que apostam na moda de luxo, como a estilista Diane von Fürstenberg, que revolucionou a silhueta feminina com o vestido envelope, o norte-americano Michael Kors, o libanês Elie Saab, o britânico Alexander McQueen e tantos outros talentos, consolidando seu papel como palco de rupturas e sinônimo de qualidade.

Palavras lapidadas

“poema na página
mordida de criança
na fruta madura”

                                                                                                                    Paulo Leminski

 

Os versos singelos de Paulo Leminski são uma boa mostra do que era arte para os poetas concretistas brasileiros. Inspirados pelas renovações tecnológicas que o Brasil e o mundo viveram na segunda metade do século XX, artistas como Haroldo de Campos, Guilherme de Almeida, Alice Ruiz e Leminski decidiram explorar as fronteiras entre forma e conteúdo na literatura.

Conhecidos como poetas concretistas, essa geração de escritores subverteu as tradições de poesias com métricas definidas e rimas, incluindo a geometria como um elemento a mais na produção de sentido e significado em seus textos.

As palavras, no entanto, continuavam a ser as matérias-primas mais importantes. Através do olhar questionador desta geração, elas foram fragmentadas, reorganizadas e compostas novamente, criando neologismos com o auxílio de outras línguas, explorando sua composição visual, geométrica, fonética e dando origem a novas percepções.

Em meio a essa efervescência criativa, chegou do oriente uma fonte de inspiração que se tornou um símbolo do trabalho destes grandes artistas. Os chamados haicais são poemas de origem japonesa, que tem 17 sílabas divididas entre 3 versos de 5, 7 e 5 sílabas. A temática geralmente gira em torno da natureza e fala sempre sobre o tempo presente, um conceito ideal para quem desejava revolucionar a arte de seu tempo.

O primeiro a se aventurar pelos caminhos da literatura oriental foi Guilherme de Almeida. O poeta paulistano teve grande destaque na semana de arte moderna de 1922, e foi o primeiro modernista a entrar para a Academia Brasileira de Letras.

Embora a temática saudosista adotada por Guilherme não se encaixe no estilo dos haicais, de valorização do tempo presente, seu trabalho se inspirou no formato ao escolher as palavras cuidadosamente para que se encaixassem nas métricas e ainda assim expressassem toda a amplitude de significados do poema.

“INFÂNCIA

Um gosto de amora
Comida com sol. A vida
Chamava-se: “Agora”.”

                                                                                                        Guilherme de Almeida

Já nos anos 1950, sob a influência do poeta norte-americano Ezra Pound, os irmãos Haroldo e Augusto de Campos, em parceria com Décio Pignatari – os principais expoentes do movimento – exploraram os conceitos da arte japonesa, mas com foco no conceito do ideograma, mais do que no próprio haicai. Os irmãos, principalmente, se concentraram na tradução de haicais japoneses clássicos, como os de Matsuo Bashô, o grande mestre do haicai japonês.

Mas foi a poesia de Paulo Leminski, amigo do trio, que de fato consolidou a produção de haicais no Brasil. O poeta curitibano, que tinha os largos bigodes como sua marca registrada, é considerado o maior expoente do gênero no Brasil.

Ao longo de vinte anos, Leminski produziu uma vasta obra, passando por traduções do japonês para o português, biografias, letras de música, redação publicitária e, claro, poesias. O trabalho de Leminski se tornou popular nos anos 80, tendo como carro chefe os haicais.

Leminski era um aficionado pela cultura japonesa, o que também explica seu enorme interesse por este tipo de poema. Seu estilo tornou-se característico pelo bom humor, mas também pela concisão, influência dos haicais. Por meio de poucas palavras, seu poemas conseguiam transmitir observações sobre a vida cotidiana, mas também críticas sociais e questionamentos existenciais.

Sobre seu trabalho, Caetano Veloso, seu parceiro de letras, escreveu: “os poemas do Leminski são muito sintéticos, muito concisos, muito rápidos, muito inspirados. Ele é um sujeito gozado. É um personagem muito único no panorama da curtição de literatura no Brasil”.

 

“   acordei e me olhei no espelho
ainda a tempo de ver
meu sonho virar pesadelo”

                                                                      Paulo Leminski

 

                                                                                                        “entendo
mas não entendo
o que estou entendendo

Paulo Leminski

 

       “inverno
é tudo o que sinto
viver
é sucinto”

                              Paulo Leminski

 

    “essa estrada vai longe
mas se for
vai fazer muita falta”

                                              Paulo Leminski

Infelizmente, Leminski faleceu precocemente, aos 45 anos, vítima de cirrose. Mas a história do haicai no Brasil continua para além de seu legado. A poetisa Alice Ruiz, com quem foi casado, é hoje um dos maiores expoentes do gênero no país. Iniciada na tradição do haicai ainda nos anos 1970, Alice publicou seu primeiro livro aos 34 anos, e tem como maiores características a concisão e o tom pessoal, íntimo. O lirismo, outra característica muito presente na obra de Alice, se faz presente no lado musical de seu trabalho: ela compõe, além de poesias, letras de música.

“voltando com amigos
o mesmo caminho
é mais curto”

                               Alice Ruiz

Juntos, Alice e Paulo assinam “Hai Tropikai”, que ressalta a paixão de ambos pela cultura oriental e a poesia. Alice também foi a grande responsável pela edição da obra póstuma de Paulo, nos anos 1990 e 2000. Hoje, sua filha caçula, Estrela Ruiz Leminski segue os passos dos pais e leva adiante a precisão dos haicais em seu trabalho como poetisa.

“com ninguém
ser zen
ou ser sem?”

                                                 Estrela Ruiz Leminski

A Arte da Precisão

Seja pelas confusões de Cupido ou pela pontaria certeira de Robin Hood, arco e flecha são uma dupla inseparável presente em nosso imaginário há milênios. Nascidos como armas vitais para a sobrevivência, estão presentes no desenvolvimento de civilizações desde a China até as Américas, e são considerados uma das ferramentas mais antigas criadas pelo homem, com registros de materiais usados para confecção de arcos e flechas com mais de 60 mil anos de idade.

Hoje, com o fim do uso para ações militares, essa antiga tradição sobrevive através do tiro com arco – nome do esporte praticado com arco e flecha – e na caça esportiva. O torneio mais antigo de tiro com arco que se tem notícia aconteceu na Inglaterra, em 1583, mas foi a partir da participação da modalidade nas Olimpíadas de 1900 que se popularizou e, desde então, a modalidade está conquistando cada vez mais adeptos no mundo.

A participação do tiro com arco nos Jogos sofreu um hiato entre 1920 e 1968, devido à falta de uma regulamentação unificada. Neste período, o esporte chegou ao Brasil por meio do aficionado Adolpho Porta. O comissário de vôo da companhia PanAir conheceu o esporte quando morava em Portugal, e o trouxe para o Brasil em 1955. Em 1958 foi criada no Rio de Janeiro a Federação Metropolitana de Arco e Flecha, e em 1980 o Brasil participou de sua primeira olimpíada na modalidade.

Talvez a imagem mais marcante envolvendo o esporte em Olimpíadas seja de 1992, quando o paratleta espanhol Antonio Rebollo atirou uma flecha acesa com o fogo olímpico que acendeu a Pira em frente a milhares de pessoas.

A cena emocionante ressalta alguns dos aspectos mais bonitos do tiro com arco. Além do exercício de força, concentração e precisão, poucos esportes são também tão democráticos.  Desde as primeiras participações, o tiro com arco tem categorias femininas, e também foi uma das modalidades de estreia da paralimpíada, em 1960. E, uma vez que se aprende, não existe uma idade limite para continuar praticando.

Nos Jogos Olímpicos, apesar da grande variedade de tipos de arcos, materiais de fabricação e modalidades de competição, existe uma padronização. A modalidade praticada é a target, em que os alvos têm círculos, cuja pontuação vai de 1, no centro, a 10, nas bordas, e ficam alinhados em um campo aberto. O procedimento é o mesmo tanto na competição individual quanto na por equipes, e apenas arcos recurvos são aceitos.

Existem também as modalidades field – em que os alvos ficam em matas onde há trilhas e obstáculos –, e a 3D, que ocorre em meio à natureza, mas com o uso de alvos de figuras de animais esculpidas em madeira ou resina.

As modalidades também são divididas de acordo com o tipo de arco utilizado pelos competidores. Entre os mais comuns estão o recurvo, o composto e o tradicional.

Em todas elas, a habilidade do arqueiro é fundamental. Para atingir a excelência no tiro com arco, os atletas treinam por muitas horas fundamentos como mira, postura – do corpo e dos braços –, força e até a sincronia da respiração com o lançamento da flecha.

O campeão brasileiro e sul americano de tiro com arco composto pela International Field Archery Association, Rodnei Ramos, considera que o caminho para a perfeição no tiro passa pelos detalhes:

“A precisão no arco e flecha é composta por vários fatores. Cada pessoa, dependendo da estatura, vai ter um arco diferente pra ela e ele precisa ter a potência exata para pessoa, a puxada exata, o tipo de flecha adequada. Além da parte corporal, porque o atleta tem que ter uma resistência física muito boa”, disse ele ao Olhares ao Mundo.

A prática constante acaba modificando não apenas o corpo, mas também a mente dos arqueiros. A busca pela mira perfeita acaba se traduzindo em vários aspectos da vida, como conta Rodnei: “eu sempre pratiquei vários esportes, mas nunca fiquei em nenhum. Quando eu entrei no arco, mudei alguns aspectos da minha vida pessoal. Passei a ficar um pouco mais calmo, passei a ter mais foco, direção de vida. O arco e flecha tem várias coisas que podem te ajudar no cotidiano”.

O esporte ainda não é muito conhecido no Brasil mas, com o apoio  do cinema, arco e flecha começam a ser redescobertos. Personagens como Légolas, o elfo criado por J.R.R. Tolkien em “O Senhor dos Anéis” e Katniss Everdeen, a heroína da trilogia “Jogos Vorazes” despertaram o interesse do grande público para a prática desse esporte e, consequentemente, sua tradição.

Mesmo para quem só conhece o arco e flecha pelas telinhas, apreciá-lo é uma maneira de resgatar nossa história ancestral, além de ser um espetáculo para aqueles que gostam de precisão, velocidade e técnica.  Um esporte único, que merece todo o respeito e incentivo.

 

Poesia em Papel

Quantos significados uma simples folha de papel pode ter? Para os artistas praticantes de origami, as respostas para essa pergunta são infinitas.

Embora seja difícil precisar quando surgiu a ideia de dobrar o papel em diversas formas, muitos consideram que a prática seja tão antiga quanto sua matéria-prima. Os primeiros relatos da fabricação do papel surgiram na China, em 105 a.C. e, de lá, o material e a técnica se espalharam para outros países, incluindo o Japão, onde estima-se que tenha chegado perto do ano 610. Inclusive, é do Japão que vem a origem do nome, uma mistura das palavras ori, que significa dobrar e kami, que significa papel.

O que antes era uma arte voltada a cerimônias religiosas, como casamentos, tornou-se cada vez mais popular no país e em 1797 surgiu o “Senbazuru Orikata”, primeiro livro com instruções para as dobraduras. A partir do século XIX o origami passou a ser ensinado nas escolas japonesas, tornando-se uma atividade recreativa e também educativa.

Mesmo com tantos anos de tradição, o origami continua se reinventando. Um dos responsáveis pela diversidade de formas que conhecemos hoje é o artista Akira Yoshizawa, considerado o pai do origami moderno.

Apesar de gostar das dobraduras desde criança, Yoshizawa só pode se dedicar totalmente à sua arte quando era mais velho. Aos 26 anos, ele chegou a desistir de seu trabalho em uma fábrica para viver como origamista, porém, não obteve reconhecimento e ficou na pobreza, vendendo temperos para sobreviver por 20 anos.

Sua carreira só decolou em 1952, quando a revista Asahi Graph lançou uma reportagem com fotos de seus trabalhos, incluindo um ensaio com dobraduras representando os 12 signos do zodíaco. Foi ele quem criou a técnica chamada “wet folding”, ou dobradura úmida, que consiste em molhar levemente o papel antes de dobrá-lo.

Essa inovação torna o papel mais maleável, o que permite criar figuras mais arredondadas, embora o artista precise tomar ainda mais cuidado, pois o material se torna mais frágil. Yoshizawa criou milhares de formas e livros ensinando o passo a passo de cada dobradura. Através de seu trabalho, Akira conseguiu transformar o origami em uma arte reconhecida não apenas no oriente, mas em todo o mundo.

Anos depois de sua morte, em 2005, novos artistas continuam aprimorando essa tradição. Um deles é o vietnamita Hoang Tien Quyet, adepto do wet folding. Quyet começou a praticar origamis ainda criança, mas só passou a desenvolver um estilo próprio quando conheceu o origamista Giang Dinh, outro adepto do wet folding, através do Vietnam Origami Group.

Em seu site, Quyet disponibiliza dicas de como reproduzir seus trabalhos e também é coautor de dois livros, em parceria com membros do Vietnam Origami Group. Seus origamis chamam a atenção pela precisão de detalhes e criatividade das formas.

“Eu gosto de trabalhar com ideias novas e sempre tento colocar vida e a minha personalidade em meus modelos. Eu espero que as pessoas também consigam sentir isso a partir do meu trabalho”, afirma Quyet em seu site.

Conheça aqui algumas das formas que consagraram Quyet e desafiam ainda mais os limites do origami.

A Alquimia do Grão

Segunda bebida mais consumida em todo o mundo, perdendo apenas para a água, o café é um velho conhecido das mesas brasileiras. Também, pudera, o país é o maior exportador da variante mais nobre dos grãos e, além disso, o consumo interno não fica atrás.

Originário da Etiópia, o café tem duas variantes, o arábica, muito cultivado em regiões como o sul de Minas Gerais, e o robusta, comum no Espírito Santo. Conhecer a diferença entre os dois tipos é o primeiro passo para saber extrair o melhor da bebida, que pode ir muito além do simples cafezinho, se for tratada da maneira correta.

O robusta, que em algumas regiões do Brasil também é conhecido como conilon, é um café mais forte e amargo, que tem maior teor de cafeína. Por isso, costuma ser usado na produção de cafés solúveis. Já a espécie arábica é a mais doce, com aroma mais refinado. Devido a essas características especiais, todos os cafés considerados gourmet são da espécie arábica.

Mas, dentro destas duas espécies existem diversas variantes de grãos, que podem apresentar diferentes características, dependendo de fatores como altitude, regime de chuvas, acidez do solo, época de colheita, entre outros.

Estes grãos são divididos em diferentes classificações a partir do seu nível de imperfeições: tradicional, que tem mais defeitos e costuma ser comercializado para uso doméstico, o superior, que tem menos defeitos que o tradicional, e o gourmet, o de mais alta qualidade entre os três.

 

Há, porém, uma classificação de café superior a todas as outras. Os chamados cafés especiais são cuidadosamente selecionados e correspondem a somente 20 a 30 por cento de cada safra, pois não aceitam grãos defeituosos. Além do rigoroso controle de qualidade, os cafés especiais são certificados e acompanhados durante todo o processo de plantio, colheita, secagem e torrefação, para garantir que o melhor produto chegue ao consumidor final, como detalhou o barista Davi Dias dos Reis, proprietário da cafeteria paulistana focada em cafés especiais Soul Café:

“A gente conhece todo o processo de produção dos cafés especiais: a fazenda de onde eles vêm, o nome do produtor, como foi a secagem, o processo de adubação e o processo da torra, que é muito importante. Temos todo esse rastreamento do café para poder saber o que a gente está vendendo”, disse Davi ao Olhares do Mundo.

Esse tipo de verificação é importante pois, de acordo com Davi, obter um grão de qualidade é o passo primordial para uma bebida de paladar extraordinário. Dessa forma, ao realizar o rastreamento completo, é possível evitar misturas indesejadas com outros tipos de café, por exemplo.

No entanto, quando feito do modo correto, o blend é uma das melhores maneiras de explorar novos sabores. Ele pode conter vários tipos de grãos, dependendo do que se pretende criar: uma bebida mais encorpada, com aroma forte, ou talvez sabor doce e frutado.

“(O blend) é a mistura de variedades ou de regiões diferentes. A ideia é pegar cafés diferentes e um complementará o outro.”, disse Davi. “Às vezes você tem um café que é bem bacana, que não tem tanta doçura, mas ele tem uma acidez legal, tem algumas outras coisas. Então você pega um grão que tem bastante doçura para complementar. É uma maneira de brincar com os sabores”.

Outro fator muito importante para o resultado é a torra: quanto mais escura, mais amargo será o café.  “É como se você tivesse fazendo um caramelo. Se passar muito do ponto ele vai amargar”, adicionou Davi. Cada café tem um ponto específico de torra, em que é possível extrair seu máximo potencial de sabor e aroma. Por isso, os grãos são torrados separadamente, reunidos para a criação do blend e só então moídos para se transformarem em pó.

Para o preparo de um café especial de excelente qualidade, cada detalhe conta. A moagem também é um passo que merece atenção, pois a espessura do pó interfere no tipo de processo de extração que será utilizado. Os mais comuns são a extração em coador de pano, coador de papel, o expresso, a cafeteira italiana e a prensa francesa: como cada um tem um tempo de preparo diferente, é preciso calcular o tipo da moagem e a quantidade de pó necessária para cada xícara.

Os métodos de filtração em coador de pano ou papel são os que exigem a moagem mais fina e, para garantir o frescor da bebida é preciso ter certeza de que foram removidos restos de pó usado anteriormente. No caso dos filtros de pano, é importante frisar que eles jamais podem ser lavados com produtos químicos, como detergentes. Para a limpeza, o ideal é deixá-lo de molho na água por algumas horas.

A cafeteira italiana, também conhecida como moka, exige uma moagem mais grossa. Parecida com um bule, ela armazena a água em um recipiente na parte de baixo, onde é colocado por cima um coador com o pó. Conforme a água é aquecida, passa pelo coador e produz a bebida.

A prensa francesa é a que exige a moagem mais grossa de todas. Neste método, o café é misturado junto à água quente e deixado em repouso por alguns minutos. Depois, basta abaixar a prensa que fica dentro da cafeteira e servir o café.

Davi lembra que não existe um tipo de extração melhor que o outro mas, para obter o melhor resultado, os baristas precisam testar as combinações entre grãos e métodos. “Vai depender do grão e do gosto pessoal. Tem grãos que se adequam melhor a alguns métodos que outros”, completou.

Mais um aspecto que precisa ser levado em conta na preparação dos cafés especiais é a água. É ela a responsável por dar vida aos sabores do grãos, por isso, é preciso que seja de boa qualidade. O ideal é utilizar água mineral e também verificar temperatura, que preferencialmente deve estar na casa dos 90°C. Mais quente que isso, a bebida pode ficar muito amarga. A proporção também é muito importante para que o café não fique diluído ou forte demais.

Como em um grande quebra-cabeças, técnicas, ferramentas, qualidade dos grãos, expertise dos baristas e paladar se unem para a produção do café especial, produzindo uma bebida encorpada e elegante, que mexe com os sentidos dos apreciadores.

Como resultado, é possível sentir o nível de dedicação e a atenção aos detalhes em cada xícara. Isso prova que, com uma mudança de olhar, até mesmo a atividade mais trivial pode se tornar um momento único: basta estar aberto a novas oportunidades.

 

A mecânica das possibilidades

Há 50 anos, imaginar o futuro parecia a preparação para uma aventura distante, que nunca chegaria. Hoje, chega a ser assustador ver como alguns dos filmes e desenhos mais queridos de antigamente acertaram em cheio em algumas premonições – e, claro, abrem espaço para mais indagações. Afinal, se chegamos até aqui, até onde podemos ir?

No que depender da ciência, o caminho para a inovação passa cada vez mais por nossas vidas cotidianas. Ainda longe das missões de “2001: Uma Odisseia no Espaço”, estamos cada vez mais perto de viver em lares como o da família Jetson. E não se trata da ajuda de androides como a adorável Rosie, mas da possibilidade de criar rapidamente os mais diversos objetos de modo personalizado por meio da impressão em 3D.

Na verdade, a técnica não é exatamente tão nova, mas só ganhou escala recentemente. Em 1984, a invenção era uma exclusividade patenteada por seu criador, o norte-americano Chuck Hull. Nos anos 90, uma única impressora chegava a custar 1 milhão de dólares. Atualmente a invenção chegou ao grande público através de modelos para uso doméstico que custam menos de mil dólares e utilizam os mais diversos materiais.

Seja para imprimir as peças de um carro ou uma prótese para uma cirurgia, o processo é bem similar. Tudo começa com a criação de um modelo em 3D da peça que será impressa em um software específico. Então, a impressora criará o objeto a partir da sobreposição de camadas extremamente finas.

A diferença entre os processos está na forma como as camadas são criadas. A técnica criada por Hull é a chamada estereolitografia (STA, na sigla em inglês), em que um raio laser atinge um recipiente preenchido com resina líquida, o que causa uma reação química no material. Assim, conforme o laser vai tocando a resina, são formadas as camadas da peça. Mas esta não é a única técnica possível.

Outro método, a chamada da Modelagem por Fusão e Depósito (FDM na sigla em inglês), usa geralmente um fio de polímero (um tipo de plástico), que é derretido pela máquina e depositado em camadas pelo bico injetor, enquanto a plataforma móvel vai abaixando para comportar a peça conforme ela vai se formando.

Já na Sintetização Seletiva a Laser (SLS), a matéria-prima é um pó feito de plástico ou metal. O pó é depositado na plataforma móvel e bombardeado por um laser muito forte, que aquece a substância até seu ponto de fusão. Logo depois um rolo deposita mais uma camada fina de pó e o processo continua, até a peça ficar pronta.

As possibilidades para o uso da impressão em 3D são infinitas. Atualmente ela pode ser aproveitada para a criação de objetos de decoração, peças de automóveis, brinquedos, ferramentas e até mesmo prédios, como o Escritório do Futuro, sede da Dubai Future Foundation. O prédio de escritórios, que tem 250 metros quadrados, foi totalmente impresso com uma mistura de cimento especial em 2016. Hoje é considerado o primeiro prédio impresso em 3D no mundo utilizado cotidianamente, mas esse número deve aumentar, já que Dubai planeja construir 25 por cento de seus prédios com impressão em 3D até 2030.

A ambição da meta se explica pelas vantagens do método. Além de ter abreviado o tempo de construção do prédio em Dubai para apenas 17 dias de impressão e 2 dias de montagem, a impressão em 3D também beneficia o meio ambiente, pois pode reduzir em até 60 por cento a quantidade entulho.

Plástico, metal, resina e cimento abrem diversas portas para a inovação do meio em que vivemos, mas quem disse que a técnica se limita aos objetos inorgânicos? O designer brasileiro Marcelo Coelho uniu a culinária à tecnologia com o auxílio da impressão 3D, desenvolvendo uma técnica em que é possível imprimir doces usando chocolate, além de testar uma variedade de combinações de sabores, em um processo que ele chama de “gastronomia digital”.

Se é possível lidar com materiais tão perecíveis e delicados quanto alimentos, por que não ir mais além? A ciência respondeu essa pergunta com uma inovação sem precedentes: a medicina personalizada.

Atualmente, pesquisadores do mundo todo trabalham no desenvolvimento de células e tecidos humanos em 3D. Embora os testes ainda estejam nas fases iniciais, o objetivo no futuro é “imprimir” órgãos usando células tronco da pessoa como matéria-prima, o que poderia zerar a fila para transplantes no mundo e diminuir muito o risco de rejeição.

Alguns centros, como o Instituto de Medicina Regenerativa Wake Forest, nos Estados Unidos, já estão trabalhando na impressão de tecidos e estruturas humanos. Em 2016, o Instituto Wake Forest revelou que seus pesquisadores conseguiram implantar em animais tecidos desenvolvidos a partir do Sistema Integrado de Impressão de Tecido e Órgão (Itop, na sigla em inglês). Meses depois, os implantes conseguiram se desenvolver, criar novas células e até estruturas, como vasos sanguíneos, apresentando um resultado positivo.

Já a Universidade Carlos III de Madrid tem trabalhado em um método de bioimpressão de pele, que servirá para o tratamento de pacientes que sofreram graves queimaduras, além de testes com medicamentos e cosméticos, hoje realizados em animais.

Embora a tecnologia de bioimpressão seja recente, seus benefícios já podem ser sentidos, inclusive no Brasil. A empresa brasileira BioArchitects  está desenvolvendo, em parceria com hospitais paulistanos, o método dos biomodelos, que são réplicas tridimensionais de órgãos impressos em 3D.

Os biomodelos são feitos a partir de medidas reais dos pacientes, obtidas por exames como tomografias. Essas imagens são colocadas em um software específico para serem transformadas em desenhos 3D por profissionais, como explica o CEO da BioArchitects Brasil, Felipe Marques:

“É um trabalho muito pouco automatizado. Nossa equipe de biomédicos e bioengenheiros faz o trabalho manual de ver camada a camada do corte, para ver se está certo ou não. Depois elimina a área que não é de interesse, deixa, por exemplo, só a área que tem um tumor. Para se ter uma ideia, o projeto de um coração pode demorar até 8 horas para ser feito no software.”

Com a ajuda dos biomodelos, os médicos podem estudar o tipo de intervenção que será realizada no paciente antes da cirurgia, o que reduz o tempo da operação – e, consequentemente, a chance de infecções -, economiza recursos e permite abordagens muito mais precisas e eficientes.

Um dos grandes benefícios desta técnica também é a impressão de implantes.  Atualmente, essas próteses são fabricadas em tamanhos padronizados, o que dificulta tanto o processo cirúrgico quanto a recuperação do paciente.  Com a impressão em 3D é possível fabricar próteses customizadas para que se adaptem perfeitamente à anatomia do paciente

“A impressão 3D é fantástica para fazer personalização em massa. Ela é muito boa para a área médica, quando você tem um paciente único e uma peça única, que você não vai ter que produzir várias vezes. Isso também é legal na indústria aeroespacial, porque se você for construir 10 foguetes, você vai precisar de 10 peças, o que é diferente de ter que produzir 500 mil peças para um modelo de carro”, comentou Felipe.

Por enquanto essa possibilidade ainda esbarra em alguns obstáculos de regulamentação, mas esta é uma barreira que deve ser superada em breve, com o avanço da tecnologia e maior aceitação por parte de médicos, governos e planos de saúde. “Espero por implantes no mercado esse ano ainda, com aprovação da Anvisa”, diz o CEO.

Os desafios destas tecnologias são muitos e ainda há um longo caminho a percorrer neste ramo da medicina, mas os resultados esboçam um futuro mais próspero do que qualquer um já imaginado por Hollywood. Resta aguardar os próximos capítulos dessa história.

O Hospital de Relíquias

Ouro, prata, bronze, latão, alumínio, chumbo, ferro, cobre. À primeira vista, materiais brutos, conectados instintivamente em nosso imaginário a minas que se estendem em direção ao centro da Terra e fornos escaldantes, quase como em uma cena saída dos livros de J. R. R. Tolkien, premiado escritor nascido na África do Sul.

Nada poderia ser tão distante desta descrição quanto o abstrato conceito das memórias criado por J. K. Rowling: os tênues fios de luz que se transformam em uma piscina de lembranças quando colocados na famosa penseira de Alvo Dumbledore, personagem da saga Harry Potter.

Quem diria que dois elementos tão míticos encontrariam uma forma em comum justo na realidade? Da união entre metais e memórias surgem as pratarias. Belas e carregadas de simbolismo, elas voltam ao seu esplendor pelas mãos de profissionais, como o restaurador André Luís Forte, do ateliê Pramets.

Dentro de uma pequena casa no bairro da Vila Olímpia, em São Paulo, bandejas, jarras, maçanetas, troféus, talheres, molduras e toda a sorte de objetos recuperam-se dos efeitos do tempo em um processo totalmente artesanal.

As peças que, por algum motivo, chegam amassadas, primeiramente retomam sua forma original. Depois, são levadas para o polimento, em que eliminam a oxidação, processo muito comum em metais que ficam expostos ao ar. Caso seja um desejo do proprietário, as peças podem receber um novo banho de metal, ou apenas passar pela lustração, para recuperarem o brilho.

Em situações especiais, como peças que têm relevos esculpidos no metal, os padrões costumam ser ressaltados aplicando técnicas de polimento que incorporam o envelhecimento da peça como um fator artístico, clareando certas áreas e mantendo o tom mais escuro em outras.

Diante das peças em estado original, é difícil acreditar na beleza que exibem após o processo, quase como se os anos não tivessem passado. Mas, para que se chegue a esse resultado, um longo caminho é percorrido, como contou André Luiz Forte ao Olhares do Mundo.

“Esses dias eu recebi uma jarra e uma bacia de 1820 que eram feitas de chumbo. A parte de baixo da bacia estava solta, assim como a asa da jarra. Na hora da solda, o material estava totalmente condenado e não aderia. Eu consegui fazer um revestimento de cobre nas peças para soldar, e tive que mandar fundir outra alça, em cobre, que ficou igualzinha à original porque tirei um molde em resina. Depois demos um banho de prata, a pedido da cliente. Foi uma das peças mais complicadas ultimamente”, disse ele, que realiza uma longa negociação com cada proprietário antes de intervir em uma peça, tudo para ser o mais fiel possível à originalidade do artefato.

Afinal, embora o valor sentimental dessas peças – muitas das quais heranças de família – seja inestimável, é preciso lembrar que cada uma tem seu valor artístico e também comercial, devido à qualidade dos materiais. Manter o máximo possível das características originais é uma prioridade para preservar a autenticidade de cada artigo.

A própria arte do restauro carrega sua tradição, como lembra André: “É um trabalho bem manual, bem artístico. Meu pai aprendeu com meu avô, que aprendeu com o meu bisavô, na Itália. Eu nasci no meio disso, comecei a aprender com 13 anos de idade”, disse ele que, atualmente, está com 36.

No entanto, toda essa experiência é apenas uma das aliadas no processo de restauração, em que a surpresa é presença constante. Cada caso é único e apresenta desafios particulares, que exigem soluções sob medida. Por isso, ao lado do conhecimento, a dedicação aparece como item indispensável para qualquer restaurador.

“O que a gente mais preza é fazer a peça ficar perfeita, então eu diria que o mais difícil é fazer bem feito. Não adianta querer fazer a peça correndo, também tem que ter os macetes, as ferramentas certas. Nada é fácil nas restaurações”, explicou.

O resultado é a perfeita combinação entre delicadeza e tradição, que encontram nos metais um refúgio para sobreviver e se reinventar ao longo do tempo.

O Maestro da Sala de Estar

A audição é um dos primeiros sentidos a se desenvolver no ser humano.  A descoberta do mundo através dos sons é um processo que começa durante a gravidez e, na verdade, nunca termina.

Conhecer novas vozes, ritmos, barulhos e melodias é um exercício tão intenso quanto prazeroso. Mas, tão bonito quanto ouvir algo pela primeira vez, é redescobrir tendências e criar novas ideias a partir delas.

Parece curioso mas, em plena época do surgimento dos streamings, dos smartphones e da música mp3, há quem esteja retornando aos encantos do bom e velho disco de vinil. Apelidados carinhosamente de bolachões, os discos foram o primeiro formato de música portátil e facilmente reproduzível utilizado em larga escala – mesmo que hoje pareça estranho considerar uma placa de 30 cm de diâmetro como algo fácil de transportar e armazenar.

Foi o alemão Emil Berliner quem, em 1888, teve a ideia de utilizar um disco para gravar e reproduzir sons. Antes dele, o norte-americano Thomas Edison havia criado o fonógrafo, que utilizava o mesmo princípio do disco, porém em um cilindro de cera. Devido a certas complicações, como o fato de um único cilindro não conseguir dar origem a muitas cópias, obrigando a realização de gravações diferentes, o fonógrafo entrou em desuso.

O próprio desenvolvimento do disco durou anos até que se chegasse ao disco de vinil. Primeiramente, os discos utilizados nos gramofones eram de goma laca, um material mais frágil que o vinil, e também havia muita diferença nos tamanhos e rotações por minuto, sendo a medida mais usada a de 78 rotações por minuto. Em 1948, quando surgiu o disco de vinil, mais leve e resistente, convencionou-se usar o padrão de 33 e 1/3 rotações por minuto e 30 centímetros de diâmetro.

Outra mudança do vinil, também conhecido como Long-Play ou LP, é justamente o tempo de reprodução. Os discos de 78 rotações por minuto reproduziam cerca de 5 minutos de áudio ao todo, enquanto os LP’s reproduzem cerca de 20 minutos em cada lado. Já os de 45 rotações por minuto chegavam a 5 minutos em cada lado e eram usados para lançamento de singles.

Isso acontece devido à diferença nas ranhuras dos discos. Quanto maior a frequência, mais ranhuras precisam ser feitas e isso diminui a capacidade de armazenamento.

A frequência é crucial para a reprodução de um disco e é determinada durante a gravação, uma das etapas do processo de produção. Para fabricar um disco de vinil, primeiro é preciso dispor de um disco de alumínio com 35 centímetros de diâmetro e despejar sobre ele uma camada de acetato de celulose.

A marcação das ranhuras no vinil ocorre após a secagem deste material, em uma máquina chamada torno de gravação. Nela, uma agulha finíssima “arranha” o disco seguindo os impulsos elétricos da música. O resultado é o chamado disco máster.

Esse disco de acetato é, na verdade, um molde para a criação de outro disco a partir de um banho de metais: estanho, prata e níquel, nessa mesma ordem. O estanho impede que a prata se una ao acetato, enquanto a prata e o níquel formam uma liga que dá origem ao novo molde.

A partir de então, o molde de prata e níquel é colocado em uma prensa, onde também é despejado o vinil, em alta temperatura e, por cima, o rótulo do disco. Após a secagem, são retiradas as rebarbas e está pronto o disco de vinil.

Mas se engana quem pensa que apenas o processo de produção interfere no resultado final dos discos. Para que o suporte seja aproveitado ao máximo, é preciso levar em conta a qualidade do toca-discos e também o estado de conservação em que eles serão preservados.

O segredo está no equilíbrio entre todos os elementos. Para evitar o desgaste natural do vinil, o toca-discos deve ter uma agulha fina, precisa e também um braço com apoio, diminuindo a força exercida sobre o disco.

Mas a qualidade do som só será apreciada se o toca-discos for equipado com bons amplificadores – os reais responsáveis para que possamos ouvir o som baixíssimo produzido pela agulha em contato com o disco.

E de nada adiantará manter os discos em mau estado de conservação. Até mesmo a poeira mais fina pode arranhá-los, inviabilizando o material. Então, com tantas facilidades digitais, qual o apelo desta mídia tão delicada?

Muitas pessoas se interessam pela diferença nos sons que o formato propicia.  Como a gravação é analógica, da mesma forma que as ondas do áudio original, ocorrem poucas perdas. Os sons graves também são mais acentuados que em um CD, por exemplo, o que também modifica o resultado.

No entanto, a chance de que aconteçam distorções é maior que em um formato digital. Isso ocorre porque a amplitude de frequências que o disco comporta é reduzida, uma vez que a agulha não consegue acompanhar perfeitamente as notas mais altas. Desta forma, a gravação digital parece mais nítida aos nossos ouvidos, mas não tem as nuances apreciadas pelos amantes dos discos.

Para o colecionador Bruno Federowski, que aos 24 anos já tem cerca de 600 discos, o diferencial está na experiência que proporcionam:

“O que me atrai muito é a experiência de comprar discos. Eu gosto de ir a sebos, ver o que eles têm disponível, conversar com essas pessoas, que geralmente conhecem música muito bem. Acho que é uma experiência que a gente perdeu com o streaming e a internet”, contou ele ao Olhares do Mundo.

E ele não está sozinho em seu hobby. No Brasil, a estimativa era que o mercado de discos de vinil crescesse 20 por cento em 2016, com a Polysom, única fábrica ativa atualmente no país ampliando a produção para 150 mil unidades, de acordo com dados obtidos pelo Jornal da Globo.

Artistas da nova geração estão entrando na onda, como o artista paulistano Cícero, que lançou seus três álbuns de estúdio em LP, o que também desperta a curiosidade das novas gerações para uma vivência completa, muito além do som.

“Gosto do fato que é mais ‘difícil’ ouvir vinil. Tem que prestar mais atenção. (…) As capas são grandes, caprichadas. Eles também exigem cuidado, tem que limpar de vez em quando e não pode deixar arranhar. Esse nicho leva a música como algo muito pessoal, muito próprio a sua identidade”, diz Federowski, que descobriu os discos de seu pai aos 16 anos e, desde então, só vê a paixão aumentar mais.

É difícil dizer quais caminhos a tecnologia percorrerá daqui para frente, ou se o retorno do vinil é definitivo, mas é fato que as experiências personalizadas ganham cada vez mais espaço, em um cenário de valorização da originalidade. Enquanto existir o prazer de desfrutar um momento especial de modo autêntico, estes maestros não vão deixar de ser uma ótima opção para toda sala de estar.

Estrelas da Festa

Desde antes do surgimento da energia elétrica, iluminação é questão de arte. Hoje nos acostumamos tanto a ver shows de luzes, projeções em edifícios e vários outros espetáculos que passamos a focar apenas no que a luz pode fazer, esquecendo de uma peça fundamental nesse processo: o suporte

Antigamente, quando não havia a oferta de tecnologia atual, iluminação noturna abundante era também um luxo que poucos poderiam bancar. Da união entre a necessidade de luz e o desejo de demonstrar riqueza surgem os lustres de cristal.

Essa história começa na Europa, no século XVII. Antes disso os lustres já eram usados, porém, os tipos mais comuns eram os de bronze, produzidos nos países baixos. Essas peças – que tinham como principal característica uma bola de bronze no centro – costumavam ser usadas em igrejas devido a seu aspecto gótico.

Embora belos e caros, estes lustres não refletiam todo o glamour desejado pela nobreza, em um momento de florescimento do barroco e do rococó, estilos que valorizam os detalhes e a descoberta de novas técnicas.

Em 1676, o britânico George Ravenscroft descobriu que, adicionando óxido de chumbo ao vidro, o resultado era um material muito mais brilhante, fácil de lapidar e que absorvia bem as cores: o cristal. No entanto, existem algumas divergências sobre a autoria da ideia. Muitos acreditam que Ravenscroft aprendeu a técnica em Veneza, onde morou por alguns anos, e apenas a reproduziu.

Mas foi na França que a tradição ganhou forma e fama a partir dos lustres de cristal do Palácio de Versalhes, que no século XVIII era o mais famoso da Europa e ditava tendências. Os lustres do Salão dos Espelhos, uma das galerias mais visitadas, complementam a riqueza do ambiente e chamam a atenção por sua grandiosidade.

Enquanto isso, na Ilha de Murano, na Itália, desenvolviam-se técnicas magníficas de manuseio dos cristais, que renderam uma tradição de luxo e requinte na confecção de cada peça até hoje. Um exemplo é a própria fabricação dos lustres, que ainda obedece aos processos manuais realizados por operários com alto nível de treinamento.

Foi em Murano que Daniel Swarovski, um fabricante de vidros e joias austríaco, aperfeiçoou os talentos que desenvolvera na oficina de seu pai e entrou em contato com as técnicas de produção do cristal. Em 1891, Swarovski cria a primeira máquina elétrica para lapidar cristais, o que fez com que o material se popularizasse para além dos salões dos nobres.

Hoje os lustres dominam os locais históricos e arquitetônicos mais importantes do mundo, emprestando seu charme para todos os tipos de decoração. De mesquitas a residências oficiais, conheça a história de alguns destes belos objetos:

 

A mesquita de Kocatepe, na Turquia, é a maior de toda a cidade de Ancara. Como não poderia deixar de ser, a grande estrela do salão é um lustre de cristais com 5,5m de diâmetro, que combina com as dimensões monumentais do local.

 

O lustre do Salão Azul da Casa Branca é praticamente um viajante nato. Todos os anos, a peça, datada de 1945, é removida para dar lugar à árvore de Natal.

Ancara é, de fato, uma cidade incrível para os amantes de lustres. Além da mesquita de Kocatepe, o Palácio de Dolmabahçe é lar do maior lustre de cristal da Boêmia no mundo. A peça, que foi um presente da rainha Victoria, tem 750 lâmpadas e pesa cerca de 4,5 toneladas.

O lustre do auditório da Ópera Garnier, em Paris, é famoso por ter inspirado a história de O Fantasma da Ópera. Em 1896, o lustre se soltou e matou uma pessoa, tragédia incorporada ao livro de Gaston Leroux. Ao todo, são incríveis 8 toneladas e 340 lâmpadas.

O Encaixe Perfeito

Poucas coisas simbolizam tão bem um povo e uma cultura quanto sua arquitetura. Por meio dela, por exemplo, é possível entender o estilo de vida, as dificuldades, as tecnologias, as crenças e as condições em que viviam os nossos mais remotos ancestrais – e, por meio dessa herança, entender um pouco mais sobre nós mesmos.

Assim como todos os aspectos de uma cultura, a arquitetura é diversa, o que a torna incrivelmente fascinante. Vários fatores colaboram para isso, como o relevo, clima e os materiais disponíveis, mas o que mais impressiona são as soluções encontradas para equilibrar todos eles: as técnicas.

Um dos processos mais antigos e complexos é chamado de construção em pedra seca. Muito usada em muros de fortalezas, essa técnica consiste em encaixar pedras de diferentes formatos e tamanhos sem a necessidade de argamassa ou cimento.

Em uma analogia moderna, seria quase como brincar com peças de Lego, com uma pequena diferença: o tamanho monumental e a resistência, que chega a dezenas de séculos.

Embora pareça improvável que um amontoado de pedras possa permanecer erguido por tanto tempo sem algo que as una, a verdade é que a maneira como são feitas estas construções, em alguns casos, as deixam mais resistentes que aquelas que utilizam argamassa. Isso porque chuva e neve vão enfraquecendo as estruturas de argamassa com o tempo.

Por serem impermeáveis, elas acabam apresentando problemas de drenagem no solo e a rigidez também dificulta a adaptação aos movimentos do solo.

É importante também lembrar que o empilhamento não é aleatório, pelo contrário. Para que a estrutura seja firme é preciso colocar as maiores pedras por baixo – o que às vezes significa usar blocos que pesam toneladas. A junção entre as pedras de duas fileiras não deve coincidir, as pedras precisam ser planas e o maior comprimento é voltado para a parte de dentro do muro, não para a lateral.

“A técnica, por dispensar a utilização desta argamassa, requer um travamento das pedras maiores ente si com a cuidadosa e seletiva inserção de pedras menores, ocasionando o equilíbrio e estabilidade ao conjunto”, disse ao Olhares do Mundo o professor João Carlos Gabriel, coordenador do curso de Engenharia Civil da Universidade Presbiteriana Mackenzie em Campinas.

A partir daí, o método se torna cada vez mais adaptável, dependendo das necessidades para qual a obra se destina. Existem aquelas formadas por duas fileiras de pedras com o interior preenchido cuidadosamente com pedras menores colocadas uma a uma; há ocasiões em que espaços são deixados intencionalmente para permitir a passagem do vento em regiões com muitas tempestades, evitando o colapso das pedras. Um dos métodos mais complicados é o dos Incas, que lapidam as pedras de forma a se encaixarem perfeitamente, sem deixar o menor espaço entre si.

Apesar das diferenças, em geral essas construções são permeáveis, facilitando a drenagem e, como são feitas de pedra, também são à prova de fogo. A técnica bem trabalhada e a matéria-prima durável garantem que essas construções apresentem um nível de resistência muito alto. No Peru, há relatos de construções em pedra secas feitas pelos Incas em Cuzco que permaneceram intocadas após terremotos, enquanto as construções espanholas desabaram.

Embora a base seja parecida, cada civilização usou a técnica com uma finalidade ou de maneira diferente. Os britânicos a utilizaram amplamente em muros, enquanto os Incas construíram prédios inteiros e, no oriente, foi utilizada em fundações como a do Castelo de Kumamoto.

Este último, após 400 anos de resistência aos mais diversos ataques, sofreu avarias devido a terremotos, no entanto, evidencia mais uma característica das pedras secas: a facilidade de reparação. Enquanto as paredes de argamassa costumam desmoronar totalmente, dependendo da intensidade do tremor, o desmoronamento é apenas parcial e as pedras podem ser reaproveitadas.

Todas essas vantagens explicam porque esse método é usado desde a antiguidade e persiste até hoje. No entanto, é um procedimento demorado e que exige muito esforço, o que o torna pouco adequado para as construções em larga escala dentro de centros urbanos, como explica o professor João Carlos:

“As obras levantadas com a técnica de pedras secas demandam seções transversais de paredes maiores que obras construídas com alvenaria de tijolo, bloco cerâmico, bloco de concreto ou também de aço, o que reduziria a área útil interna da residência do morador. Elas também demandam um tempo para levantamento da obra muito maior do que aquele com o levantamento com técnicas e materiais mais modernos, leves e sintetizados pelo homem”.

A beleza e a funcionalidade dos projetos executados com as pedras secas ainda impressionam. Os monumentos são lembretes constantes da capacidade do ser humano de transformar o meio em seu favor, criando novas possibilidades a partir do que a natureza oferece, em qualquer lugar ou época. Quando um potencial como esse é explorado da melhor forma, o resultado é, no mínimo, inspirador.

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