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Vidas Coordenadas

Representar o espaço é uma necessidade humana. Seja por funções técnicas, como compreender a extensão de domínios e os recursos naturais de uma área, ou até mesmo simbolizar a maneira como esses povos enxergavam a realidade. Desde as civilizações mais antigas, os mapas têm acompanhado grandes transformações da humanidade, tornando-se registros importantes de nossa evolução.

Um dos períodos mais importantes da história da cartografia são os séculos XV e XVI, época das grandes navegações. Os mapas do chamado Novo Mundo reproduziam não só o relevo da região e rotas para chegar a ela, mas funcionavam como verdadeiros roteiros das impressões dos exploradores que se aventuravam desafiando concepções e rompendo tabus, como a ideia de que a Terra era plana.

Não por acaso, o nome do novo continente tornou-se uma homenagem a um destes homens, o italiano Américo Vespúcio. Ao todo, Vespúcio realizou três viagens da Espanha até a América. Na última, percorreu a costa do Brasil desde a Bahia até Cananéia, em São Paulo, e, devido à distância, se convenceu de que aquelas eram novas terras, em vez de um prolongamento da Ásia.

Seus relatos levaram o cartógrafo alemão Martin Waldseemüller a elaborar um novo mapa, o primeiro a incluir o novo continente e a chamá-lo de América. A partir de então, a América passou a ser mapeada por seus colonizadores, que ampliavam os registros cartográficos conforme expandiam seus domínios.

Naturalmente, em épocas como essa, não havia a tecnologia necessária para que os mapas fossem precisos e fieis como atualmente. Além disso, os mapas eram mais um elemento do jogo de interesses dos países, que muitas vezes gostavam de representar seus territórios maiores do que realmente eram.

A ciência também se misturava com os estilos de desenhos, por isso, mapas que ilustravam a fauna e a flora eram decorados envolvendo muitos ornamentos, como as iluminuras, tradicionais da Europa, conferindo a eles dimensões artísticas.

Os séculos seguintes mantiveram a tendência de valorizar as descobertas, com cientistas como o alemão Alexander von Humboldt obtendo fama com a divulgação de suas explorações de partes ainda inexploradas da América. Os mapas ilustravam as aventuras descritas nos livros que circulavam pela Europa, saciando a curiosidade de leitores ávidos.

Embora Humboldt, que viveu entre os séculos XVIII e XIX, não contasse com tecnologias como os satélites, o sistema de mapeamento já haviam melhorado significativamente, com o uso de técnicas matemáticas como escala e proporção, o que torna seus mapas mais exatos e verossímeis.

Com as grandes revoluções tecnológicas do século XX, os mapas foram revolucionados, tornando-se computadorizados e presentes nas mais diversas funções, principalmente devido ao uso de veículos.

Mas, mais do que fruto da técnica, mapas também são reflexos das sociedades que representam. Em um mundo permeado pela internet, onde há cada vez menos fronteiras entre o mundo real e o virtual, os mapas encontraram seu espaço muito além do universo dos aplicativos de direção.

Através da chamada tecnologia de geolocalização, que utiliza o sistema GPS para acompanhar a posição do usuário, surgiu uma nova lógica de mapeamento: a do compartilhamento de experiências entre pessoas conectadas.

A partir desta ideia, surgiram novos conceitos e maneiras de enxergar a convivência em grandes cidades, como a economia colaborativa, adotada por empresas como o serviço de transporte Uber ou o serviço de entrega de alimentos iFood.

Um representante brasileiro desta tendência é o aplicativo de classificados Skina. Nele, os usuários conseguem procurar produtos anunciados nas proximidades de sua atual localização, aproximando pessoas que, de outra forma, não saberiam que podem encontrar o que procuram em seu bairro. Uma oportunidade de negócios que poderia ser desperdiçada.

“Ao mesmo tempo em que é possível se conectar com pessoas do outro lado do mundo, muitas vezes não conseguimos fazer isso com nosso próprio vizinho. O surgimento da geolocalização permitiu que a tecnologia seja usada para essa conexão local”, comenta Gabriel Di Bernardi, Diretor de Marketing do Skina.

A tendência daqui para frente é a de que cada vez mais novidades surjam com o auxílio desta tecnologia, atendendo as demandas de praticidade, menores deslocamentos, reutilização e reciclagem de recursos, como afirma Gabriel.

“A gente acredita que ainda há muito a ser explorado nesse mercado. Quando um app usa a geolocalização, é uma ótima oportunidade de unir as preferências dos consumidores com a proximidade, assim conseguimos entender melhor o perfil de cada um e tratar suas necessidades”, disse ele ao Olhares do Mundo.

Prever os próximos passos da tecnologia é sempre instigante, mas também muito impreciso, afinal, cada vez mais os cientistas e engenheiros buscam nos surpreender. No entanto, é seguro afirmar que, seja qual for o futuro da geolocalização, de algum modo os mapas permanecerão presentes em nossas vidas, norteando o desenvolvimento e abrindo espaço para novos caminhos.

Pétalas de arte

“As três orquídeas brancas eu sonharia que durassem,
com sua nervura humana,
seu colorido de veludo,
a graça leve do seu desenho,
o tênue caule de tão delicado verde.
Que elas não veem o mundo, que o mundo as visse.
Quem pode deixar de sentir sua beleza?”

Trecho do poema As Três Orquídeas, de Cecília Meirelles

Quando o assunto são obras-primas da natureza, só mesmo a sutileza da arte é capaz de dar conta de tamanha complexidade. Originais dos trópicos, mas presentes em todo o mundo, as orquídeas são sinônimo de beleza e elegância por onde passam.

A família à qual pertencem, a Orchidaceae, contém cerca de 35 mil espécies, sendo considerada uma das maiores famílias de plantas floridas do mundo.  Apesar de sua enorme variedade, as orquídeas não apresentam usos alimentares, medicinais ou industriais significativos: seu verdadeiro valor está presente em sua beleza.

Elas estão entre as espécies mais colecionadas do mundo e o comércio dessas plantas movimentam bilhões de dólares anualmente.  A tradição remonta a eras históricas, em lugares tão distintos quando o Reino Unido e o Japão.

Na terra do Sol Nascente, eram um símbolo da coragem e algumas só podiam ser cultivadas pelos maiores samurais.

Já na Inglaterra da Era Vitoriana, o cuidado com orquídeas era sinônimo de luxo e sofisticação, pois, como são mais frequentes nas zonas tropicais, mantê-las em um país com baixas temperaturas como a Inglaterra exigia mais recursos e esforços.

A paixão pelas orquídeas levava os colecionadores mais ricos a financiar expedições de aventureiros para países da Ásia ou da América para que trouxessem espécimes raros e, fora isso, havia muita competição, com alguns “caçadores” chegando a estragar os espécimes dos concorrentes para lucrar mais com os seus. Muitas vezes, uma única planta chegava a custar fortunas, dependendo de sua raridade. O período marcou a história do cultivo de orquídeas e ficou conhecido como “orquidelirium”.

Hoje, o cenário da orquidofilia é muito diferente. Saiu a competição e entrou o compartilhamento de experiências. Um exemplo dessa nova tendência é o biólogo Sergio Oyama Junior, autor do blog Orquídeas no Apê. Desde 2009 ele coleciona as plantas em uma varanda com menos de 1 metro quadrado em seu apartamento em São Paulo. O espaço, que chegou a ter 70 espécimes, hoje abriga 50 e é cenário de um blog que conta com mais de 28 mil seguidores no Instagram.

Na internet, Sergio troca dicas e conhecimentos com milhares de pessoas, o que tornou o hobby ainda mais especial.

“Graças às orquídeas, passei a interessar-me por fotografia e me tornei blogueiro, meio que por acaso. Comecei o blog para registrar as florações que surgiam no apartamento e acabei transformando este diário em um canal para compartilhar minha experiência no cultivo de orquídeas, principalmente em interiores”, contou ele ao Olhares do Mundo.  “Hoje, apesar de esta não ser minha atividade profissional principal, é a que mais me dá prazer e a que ocupa a maior parte do meu tempo”.

Além da experiência positiva, o desafio representado por cuidar de plantas tão delicadas em um ambiente hostil, com pouco espaço, muito vento e excesso de Sol também o mantém empolgado em continuar se esforçando.

“O convívio com as orquídeas ensinou-me a olhar o mundo com outros olhos. Passei a enxergar beleza em fenômenos simples como o crescimento de uma raiz, o surgimento de um botão floral ou o fenecer de uma flor madura”, comenta. “Ser responsável pelo crescimento e desenvolvimento de outros seres vivos, cuidar, cultivar plantas em geral pode ser, na minha opinião, bastante terapêutico. Tenho tendência a ser depressivo e este contato ajuda-me bastante a superar momentos difíceis”.

De fato, é muito difícil entrar em contato com as orquídeas e não sair transformado. Assim como as obras de arte, as orquídeas falam um idioma universal, que torna sua aura de beleza compreensível em qualquer época ou lugar – do Japão a uma pequena varanda, apreciá-las é apenas uma questão de olhar.

Geometria entre o céu e a terra

Imponentes, as pirâmides do Egito se destacam entre os patrimônios arquitetônicos da humanidade há milênios. Estão entre os monumentos mais conhecidos e lembrados de todo os tempos e, não por acaso, receberam status de maravilhas do mundo.

Com tamanha beleza e grandiosidade, é natural que as pirâmides do Egito impressionem. Além disso, mesmo com tantas pesquisas e avaliações, elas ainda conseguem guardar alguns segredos que intrigam os estudiosos e aumentam seu fascínio entre os admiradores de antiguidade.

Os túmulos dos faraós Queóps, Quéfren e Miquerinos, no entanto, estão longe de ser a única tentativa da humanidade de construir utilizando esse formato peculiar. Menos famosos, porém igualmente fascinantes, os monumentos de povos como os kush e os maias intrigam cientistas e começam a criar sua própria geração de admiradores.

Perto do Egito, no Sudão, o povo kush floresceu por volta de 1.000 a.C. tornando-se uma grande potência regional. Inspirados em seus vizinhos, os reis kushite construíram uma verdadeira necrópole em Meroé, capital do reino.

No total, são cerca de 200 pirâmides entre 6 e 30 metros de altura, que abrigavam os restos mortais de dezenas de reis e rainhas. As pirâmides eram tantas que muitas chegavam a ser coladas umas nas outras, um esforço da engenharia para aproveitar cada centímetro da necrópole.

O local, que é considerado patrimônio da humanidade pela Unesco, sofreu muitas avarias no século XIX, quando arqueólogos e exploradores descobriram o sítio e retiraram dezenas de relíquias. Um dos danos mais visíveis foi a destruição do topo de várias construções causada pelo italiano Giuseppe Ferlini, e a perda de decorações.

Ainda hoje, as pirâmides da Núbia, como também era conhecido o reino kush, sofrem ameaças devido às instabilidades políticas e guerras que afligiram o Sudão, mas graças à qualidade de sua construção, permanecem de pé, enfrentando o tempo. Justamente pela falta de segurança da região, permanecem desconhecidas da maioria dos turistas, ofuscadas pelas famosas colegas egípcias.

Do outro lado do mundo, outro povo também encontrou nas pirâmides um modo de honrar sua cultura e tradição. Em meio à bela cidade de Chichén Itzá, os maias ergueram no século XII d.C. uma pirâmide em homenagem a Kukulcán, o deus serpente emplumada, que permanece encantando os turistas que vão ao México especialmente para conhecê-la.

O templo impressiona por sua precisão matemática. Os maias, que foram grandes astrônomos, projetaram cada detalhe da pirâmide para que representasse a passagem do tempo. De certa forma, a pirâmide funciona como um enorme calendário para aqueles que conhecem seu funcionamento.

Ao todo, são 9 patamares, acima dos quais se encontra um templo. Cada fachada lateral tem escadas com exatos 91 degraus. Somados, equivalem-se a 364. Para atingir o templo, é necessário subir mais um degrau, completando 365 – ou seja, um degrau para cada dia do ano, segundo o Haab, um dos calendários maia.

O Haab, um calendário agrícola, dividia-se em 18 meses com 20 dias, totalizando 360, e mais 5 dias adicionais. Cada mês chamava-se uinale, os dias eram os kinles e os 5 dias adicionais, os uayeb.

Já de acordo com o calendário sagrado, chamado Tzolkin, o ano era composto por 13 meses, cada um com 20 dias. Da união do Haab e do Tzolkin, surgiu a roda calendária, na qual, cada ciclo completo com os dois calendários tem 52 anos.

Cada fachada foi decorada com 52 painéis em baixo relevo, representando os anos da roda calendária. Como as escadas dividem os pavimentos ao meio, é possível multiplicá-los por 2. O resultado? 18, o mesmo número de meses do Haab. No topo do templo também existiam 5 adornos em cada face, totalizando 20, uma para cada dia.

As relações da pirâmide de Kukulcán com o passar do tempo não terminam aí. Todos os anos, no solstício de outono e no de primavera – períodos em que o dia e a noite têm a mesma duração – a posição do sol forma uma sombra na pirâmide exatamente igual à de uma serpente. Um efeito que só foi possível graças aos amplos conhecimentos do povo maia sobre a astronomia.

Para quem se dispõe a conhecer Kukulcán, outro fenômeno é fonte de encantamento. Na porta do templo, aplausos soam como o canto do pássaro quetzal, devido à maneira como as ondas do som se refratam nas pedras. Uma dica é aplaudir em grupo: quanto mais pessoas, mais forte fica o som.

Para preservar este tesouro maia, o maior segredo da pirâmide fica escondido dos turistas, em um local onde é proibida a entrada. Não bastassem seus imponentes 30 metros de altura, a pirâmide Kukulcán guarda mais um templo em seu interior, que foi palco para cerimônias religiosas e serviu de base para a construção dedicada Kukulcán.

A capacidade humana de transformar o espaço ao seu redor, levando em conta os fenômenos da natureza, nunca para de surpreender. O fato de distintas civilizações, em locais e épocas diferentes, se unirem para criar monumentos tão perfeitos que resistem ao tempo é prova de que todas as pessoas guardam em si potenciais únicos e são capazes de realizar as proezas mais incríveis. Resta a cada um de nós aproveitar a inspiração dos antigos e dar consequência a seu legado, criando um mundo cada vez mais espetacular.

A mesa do mundo

Viver em sociedade é passar por rituais. Do nascimento à morte, vivenciamos cerimônias que atuam como elementos norteadores da existência, situações que nos lembram das razões pelas quais nos identificamos como seres humanos, que comemoramos a vida.

Celebrar é uma forma de conectar-se com a própria essência. Não à toa, em qualquer lugar do mundo, são feitos preparativos e nos esforçamos para tornar a ocasião a mais especial possível, incluindo decoração, música, dança e… comida.  Seja em um banquete ou um lanche trivial, a hora da refeição – especialmente em grupo – é por si só um ritual, que complementa e traz ainda mais significado aos demais.

Quando se trata de uma celebração, o compartilhamento de alimentos com os entes queridos pode ser considerado a conexão máxima com as origens humanas, símbolo de união e confraternização.

Isso porque, na visão de nomes como o jornalista Michael Pollan, o ato de cozinhar e compartilhar o alimento não é apenas um produto do que somos, mas um dos fatores que nos levou a chegar onde estamos hoje.

“Cozinhar nos proporcionou não apenas a refeição, como também a ocasião: o costume de comermos juntos num momento e num lugar determinados. (…) o ato de nos sentarmos para fazer uma refeição em comum, olhar nos olhos uns dos outros, compartilhar a comida e nos comportar com um certo decoro, tudo isso serviu para que nos civilizássemos”, explica Pollan em seu livro “Cozinhar: A Arte da Transformação”.

Analisando a hora das refeições por essa perspectiva, é interessante observar o equilíbrio entre o que nos torna uma espécie, mas nos diferencia como indivíduos: pessoas do mundo todo se reúnem diariamente para comer, mas em cada lugar o ritual acontece de modo diferente.

Isso ocorre devido às particularidades culturais, grandes influenciadoras da gastronomia e também do modo como os alimentos são consumidos. Desta forma, a cerimônia de uma refeição começa muito antes da degustação dos pratos.

“Pode-se dizer que esse processo se inicia no planejamento ‘do que se vai comer’, ‘com quem vai comer’, para chegar em ‘como e onde devemos prepará-lo’. Esse processo também é individualizado por sociedade e pelo motivo sobre o qual a confraternização será realizada, podendo ter mais ou menos requinte, dentre outros fatores. Esse conjunto determina o rito de preparo dos pratos e sua forma de apresentação à mesa, que ganha importância fundamental e simbólica no processo de preparo da refeição como um todo”, disse ao Olhares do Mundo a professora Camila de Meirelles Landi, Coordenadora do Curso de Tecnologia em Gastronomia, da Universidade Presbiteriana Mackenzie.

Fatores como a disponibilidade de materiais e crenças religiosas também influenciam na maneira como os povos do mundo fazem suas refeições.  Na cultura ocidental, popularizou-se o uso de talheres como padrão, no entanto, mesmo com uma base em comum, cada país adota costumes de acordo com seus hábitos.

Na França, por exemplo, quando há pão na refeição, ele deve ser utilizado para apoiar a comida no lugar da faca, apesar de também fazer parte do prato. Já no Chile, comer qualquer alimento com as mãos pode ser considerado falta de educação.

As sutilezas vão muito além do que a maneira correta de utilizar os utensílios e se estendem pela maneira como o povo encara o ritual da refeição. Em países como Portugal e Itália, pedir complementos como sal, pimenta ou queijo é uma grande ofensa ao cozinheiro, pois significa que a comida não está bem temperada, o que pode gerar grande desconforto para ambas as partes.

Quando se pensa nas diferenças entre cultura ocidental e oriental, as discrepâncias parecem ainda maiores. Enquanto fazer barulho para tomar sopa é considerado muito desagradável para ocidentais, no Japão o ato é interpretado como sinal de satisfação.

Em culturas como a indiana, a religiosidade também se manifesta à mesa. Na Índia, comer com a mão esquerda é um ato visto como falta de higiene, uma vez que ela seria impura. A milhares de quilômetros dali, no Oriente Médio, alguns países também têm essa visão.

Na Tailândia, observa-se o conflito entre o moderno e o antigo, com o uso dos tradicionais palitos de madeira – os hashis – sendo considerado fora de moda. No país asiático também se destaca a ressignificação de costumes, com os garfos sendo utilizados apenas para apoiar o alimento e a colher eleita como único utensílio que se deve levar à boca.

Mais do que meras visões opostas, essas diferenças representam a riqueza cultural que construímos ao longo de milênios e, como tal, devem ser consideradas um importante patrimônio, como explica a professora Camila.

“Cada sociedade nasce de uma formação distinta, com valores e bases históricas e culturais diferentes. É mágica a possibilidade de ter acesso a outras culturas. Torna-se importante saber respeitar essas culturas, entendê-las, interpretá-las e praticá-las com todos os seus ritos, que possuem um significado importante para aquela sociedade”, ressalta a professora.

Para aproveitar de verdade uma experiência culinária multicultural, é preciso ter respeito, mas também humildade. Pesquisar sobre os costumes com antecedência é fundamental, mas aprender com os ensinamentos de um anfitrião é uma chance única, que só se concretizará se houver disponibilidade e compreensão por ambas as partes.

O diferente significado das refeições pelo mundo é um lembrete permanente de que, mesmo aquilo que acreditamos conhecer, ou achamos trivial, pode despertar ideias e sentimentos novos e ser fonte de conhecimento. Basta aprender a olhar.

Dança das cores

Para a mitologia nórdica, são os reflexos dos escudos e elmos das virgens guerreiras Valquírias que conduzem o espírito dos guerreiros para Valhalla. Para os índios Cree, são os espíritos dos mortos. Para os chineses, são as chamas lançadas na luta de dragões do bem contra os do mal. Para os gregos, é a biga da deusa Eos anunciando um novo dia.

Aurora boreal, o nome dado pelos cientistas às misteriosas luzes que dançam nos céus do ártico, é uma homenagem à junção de duas lendas gregas – a da deusa Eos, conhecida como Aurora pelos romanos, e o deus Bóreas, símbolo do vento norte.

A explicação para este belo fenômeno envolve ciência, mais do que a magia. A aurora boreal se forma quando partículas subatômicas emitidas pelo sol são carregadas até a Terra, onde interagem com as partículas que viajam nas linhas dos campos magnéticos do planeta.

A troca de energia entre essas partículas ocorre nas camadas mais altas da atmosfera e gera um desprendimento de energia em forma de luz. O resultado desse fenômeno ilumina as regiões polares do planeta, especialmente nos meses de março, abril, setembro e outubro. O polo sul também apresenta o fenômeno, mas a ele se dá o nome de aurora austral. No entanto, ele costuma ser menos visto que a aurora boreal, pois os países vizinhos estão mais distantes do polo que as nações do norte, como Canadá e Noruega.

Mas, não é porque foi descoberta uma explicação científica para a aurora boreal que ela perdeu sua atmosfera inspiradora. Um exemplo desse poder criativo é a cidade de Tromsø, na Noruega,  que floresceu inspirada pelo balé das luzes.

Conhecida como “a porta de entrada para o Ártico”, Tromsø é um famoso ponto comercial e cidade universitária, conhecida no mundo todo por ser um dos melhores locais para a observação da aurora boreal. Inspirada pelas luzes, a cidade criou o Nordlysfestivalen, ou Festival das Auroras Boreais, que desde 1988 já recebeu mais de 500 apresentações musicais de artistas de toda a Noruega e também performances internacionais, como a da orquestra de São Petersburgo.

A aurora também é parte importante do folclore de diversos povos e está presente em suas representações como a animação Irmão Urso, produzida pela Disney em 2003. O filme retrata a mitologia dos povos nativos da América do Norte, através da história do guerreiro Kenai, que mata um urso após seu irmão ter sido morto pelo animal e é transformado em outro urso pelos espíritos da floresta, em sequências nas quais a Aurora Boreal ganha vida.

Mas a fama desse espetáculo ultrapassa fronteiras e atinge até mesmo quem nunca teve contato com o fenômeno pessoalmente. É o caso da artista plástica e arquiteta brasileira Fernanda Alonso, autora de uma série de pinturas intituladas “Aurora Boreal”.

Adepta do estilo de pintura abstrato, ela conta ao Olhares do Mundo que o significado da série foi atribuído pelo público a princípio, porém, a ideia se encaixava tão bem com seu estilo que passou de sugestão a nome oficial.

“Eu evito colocar significado nas minhas obras, para que isso venha por parte das pessoas que estão admirando-as. Acabaram criando esse nome para a série por conta do que surgia com o abstrato, foi uma consequência do que as pessoas identificavam na minha pintura”, diz Fernanda. “A partir disso eu resolvi ir mais a fundo, pesquisar, saber onde acontecem as auroras boreais e foi quando eu resolvi assumir a série como aurora boreal”.

Hoje o fenômeno é uma das grandes inspirações de Fernanda, e vê-lo pessoalmente tornou-se um sonho de vida.

“Acho que todo esse mistério em torno dela é que torna tão interessante, mas o que realmente me inspira é a composição das cores, a forma que elas vão adquirindo no decorrer do processo”, explica Fernanda.

Seja na pintura, na música, no cinema ou pessoalmente, a aurora boreal inspira e encanta aqueles que podem observá-la, mesmo que à distância. Uma dádiva da natureza transformada pelo olhar dos homens.

Janelas para o infinito

Observar as estrelas tem sido, há milênios, um dos passatempos favoritos da humanidade.  Com o avanço da tecnologia e de ciências como a astronomia, o que antes parecia impossível virou realidade e, aos poucos, o prazer de divagar sob o estrelado céu noturno deixou de ser uma exclusividade de quem vive longe das luzes da cidade para estar ao alcance de todos – dia ou noite.

O começo dessa revolução remonta ao ano de 1913, quando o engenheiro Oskar von Miller, patrono do Deutsches Museum, entrou em contato com a fábrica de lentes alemã Carl Zeiss para dar vida ao sonho do astrônomo Max Wolf, que desejava criar um aparelho que possibilitasse a observação do céu em 3D e em movimento.

Dez anos depois, o Deutsches Museum, em Munique, ganhava o primeiro planetário moderno, o Mark I. Criado pelo engenheiro-chefe da Zeiss, Walther Bauersfeld, e sua equipe, o planetário é um projetor complexo, que utiliza lentes curvas para reproduzir imagens precisas do espaço, incluindo estrelas e planetas em movimento, em grandes salas com cúpulas arredondadas e escuras.

As possibilidades para ensino ou entretenimento são únicas: observar o aspecto do céu em qualquer ponto da Terra, estação do ano e época geológica, ver as trajetórias de planetas e estrelas, acompanhar processos que levam milhões de anos para acontecer em apenas minutos. Quase como navegar em uma espaçonave que viaja também pelo tempo.

Não à toa, a enorme máquina foi capaz de emocionar multidões com projeções do céu estrelado e logo se espalhou para todo o mundo. Nos anos 20 e 30, cidades como Hamburgo, Estocolmo, Milão, Viena e Chicago – a primeira fora da Europa – ganharam seus próprios planetários.

Com o passar do tempo, a Zeiss aperfeiçoou sua tecnologia e foram desenvolvidas novas versões do Mark, além de outros modelos de planetários, como o Universarium.  Hoje, os planetários Zeiss utilizam fibras óticas na projeção das estrelas e, como são digitais, conseguem regular a quantidade de pixels usados em cada uma – o que as torna mais ou menos brilhantes de acordo com a distância, aumentando a sensação de ver o céu em três dimensões.

Além disso, é possível combinar a projeção do planetário com sistemas digitais que incluem gravações, animações, vídeos e outros recursos que podem ser projetados na cúpula, tornando as apresentações ainda mais impressionantes.

Aos poucos, os planetários foram ganhando espaço na vida cotidiana das cidades e o termo passou também a nomear os prédios que abrigam os projetores. Alguns se tornaram verdadeiros orgulhos locais, como o planetário de Hamburgo, na Alemanha.

Inicialmente, o prédio foi projetado para ser uma torre de água, mas exerce a função de planetário desde 1930. A partir de então, resistiu aos bombardeios da Segunda Guerra Mundial e hoje é um dos mais visitados da Europa.  Em 2015, o prédio passou por uma reforma completa e reabriu para o público este ano, mantendo características históricas como a pintura de constelações no teto do loby, porém, renovando completamente a estrutura tecnológica e firmando-se como um dos mais modernos do mundo.

Outro imponente planetário que fez parte de um processo de renovação urbana é o da cidade de Nagoya, no Japão. Conhecido como “Brother Earth”, é o maior planetário do mundo, com uma cúpula com 35 metros de diâmetro e capacidade para 350 assentos.

Ele faz parte do complexo Nagoya City Science Museum, dedicado ao ensino da ciência, e foi inaugurado em 1962, para comemorar o aniversário de 70 anos da cidade. Em 2011, o complexo passou por uma enorme reforma para resistir a terremotos e também se atualizar tecnologicamente. O projeto transformou o prédio em um marco do design e, com a adição de equipamentos como o Universarium IX, máquina da Zeiss ideal para cúpulas de larga escala, o planetário ficou famoso por ser um dos melhores do mundo, atraindo centenas de milhares de turistas anualmente.

No Brasil, a história dos planetários começou com a construção do Planetário Professor Aristóteles Orsini, nos anos 1950 em São Paulo, que continua sendo até hoje o mais famoso do país. Instalado em um edifício projetado por Oscar Niemeyer, também passou por uma grande reforma, foi reaberto em 2016 e atualmente é uma das principais atrações do Parque do Ibirapuera, símbolo da arquitetura modernista no país.

Nos quatro cantos do mundo, os planetários continuam encantando multidões ao apresentar um novo olhar para a ciência, com o apoio da tecnologia. Um lembrete de como é possível aliar tradição e inovação para criar experiências inesquecíveis e acessíveis para todos.

Palácios Subterrâneos

Poucos países no mundo podem se orgulhar em unir tantos contrastes quanto a Rússia. A maior nação do planeta em termos territoriais se estende da Ásia à Europa, enfrenta temperaturas congelantes no inverno e escaldantes no verão e consegue abrigar mais de cem etnias diferentes, desde a maioria russa até povos que correspondem a menos de 0,1 por cento da população.

A história, a paisagem e a cultura russas são marcadas pelos extremos e não seria diferente com a capital. Moscou, a cidade que abrigou czares e dirigentes soviéticos, aprendeu de um jeito único a conviver e exaltar seus opostos.

Um dos grandes exemplos disso é o metrô local, conhecido como palácio subterrâneo. Criado em 1935, em plena era soviética, o metrô deveria servir como um exemplo de modernidade para a nova era industrial que o país atravessava, mas também impressionar a população, como os monumentos da era czarista. O resultado foi uma linha de transporte eficaz e resistente para o transporte de milhões, mas que também tem uma estética capaz de rivalizar com os famosos marcos arquitetônicos da cidade, como a Praça Vermelha e o Kremlin. Em outras palavras, palácios para o povo.

Com materiais nobres, como mármore, granito, bronze e até ouro, peças de arte dão vida a momentos, personagens e símbolos da história russa e soviética, incluindo o próprio Stalin, que foi homenageado com diversas esculturas e murais com sua imagem. Após sua morte, em 1953, o Stalinismo entrou em declínio, e em 1955 o partido soviético decidiu investir mais na modernização e ampliação da rede, em detrimento da arquitetura.

Como resultado, as estações passaram a ter decorações mais simples e muitas das obras de arte criadas para homenagear Stalin foram removidas. No entanto, a maioria das estações foi preservada em sua beleza original.

Hoje, as 196 estações são parada obrigatória para turistas que estão explorando a Rússia. Embora unidas por um belo conjunto de 12 linhas, que se estendem por 346 km e transportam mais de 9 milhões de pessoas diariamente, cada estação tem uma decoração particular.

Entre as mais bonitas está a de Elektrozavodskaya, inspirada em uma fábrica de lâmpadas que ficava próxima. O projeto foi atrasado devido à Segunda Guerra Mundial, porém, ainda assim, a construção não foi interrompida e a estação foi inaugurada em 1944. O clima de conflito que marcou a época está estampado em baixos-relevo de mármore contando a história da guerra nas plataformas, obra do artista Georgiy Motovilov.

Mas o grande destaque está nas 318 lâmpadas dispostas em seis fileiras no teto, que rementem à fábrica vizinha, ideia dos arquitetos Vladimir Shchuko, Vladimir Gelfreich e Igor Rozhin.

Já a estação de Komsomolskaya é extremamente interessante, tanto do ponto de vista da engenharia, quanto da arquitetura. A primeira parte da estação, construída em 1935, pertence à linha Sokolnicheskaya e apresentou diversos desafios devido às fortes chuvas que inundaram o solo no verão de 1934, além de estar localizada em um dos pontos com tráfego mais movimentado de Moscou, o que exigiu vários reforços estruturais.

Por dentro, as plataformas são cobertas por calcário rosa e as colunas têm topos de bronze com o símbolo da liga de trabalhadores juvenis do partido comunista, chamada Komsomol.

Já a segunda estação, que pertence à linha Koltsevaya, é de 1952 e também está ligada à Segunda Guerra.  A ideia para a decoração, que evoca grandes chefes militares russos,  foi inspirada em um discurso de Stalin realizado em 1941, no auge do esforço de guerra.  Seus oito mosaicos principais, instalados no teto, são inspirados nos da Catedral de Santa Sophia, em Kiev, e retratam nomes como Alexander Nevsky, Dmitry Donskoy e Mikhail Kutuzov.

No entanto, os painéis que registram as vitórias na Segunda Guerra e, especialmente Stalin, sofreram modificações até 1961, com alguns sendo totalmente reformulados, como o que atualmente mostra uma mulher comemorando a vitória contra os nazistas em frente ao mausoléu de Lenin, mas que, antes, apresentava uma parada militar.

Ainda hoje, como toda obra de infraestrutura, o metrô de Moscou passa por reformulações para ampliar seu alcance e eficiência. Apesar disso, sua arquitetura e tradição são mantidas como um patrimônio da população russa, servindo como um lembrete de sua história em meio ao mais cotidiano dos transportes.

Tecendo tradições

Qual a diferença entre um objeto do cotidiano e uma obra de arte? No caso dos tapetes persas, esta linha tênue se perde entre os milhares de fios, e é impossível separar uma ideia da outra.

Usados ainda hoje na decoração, os tapetes persa têm uma tradição que remonta à Idade do Bronze na região da antiga Pérsia, atual Irã. Inicialmente, sua função era aquecer o chão das tendas, protegendo os habitantes do frio do deserto, mas, com o tempo, passaram a ter significados simbólicos, artísticos e até religiosos, muito além de sua função prática.

Os tapetes persas autênticos são produzidos de maneira totalmente artesanal pelas populações nômades do Irã, utilizando como matéria-prima a lã das ovelhas de seus rebanhos.

Depois de retirada da lã, ocorre o processo de tingimento, que utiliza corantes naturais encontrados na região, como flor de índigo, raiz de rubia e sulfato de cobre.

As lãs são tingidas em caldeirões com água fervente e corantes naturais por muitas horas, depois são expostas para secar ao ar livre. Em seguida, os fios são tensionados verticalmente no tear, formando a urdidura que, junto com os fios tecidos horizontalmente, a chamada trama, criam a base do tapete.

Na confecção também podem ser utilizados materiais nobres, como seda e fios de ouro ou prata, para criar o veludo, nome dado aos fios que são amarrados na base para criar os padrões do tapete. É esse trabalho que determina a riqueza da peça, pois quanto mais detalhados forem os padrões e quanto mais rente os fios forem cortados em relação à base, mais caros serão.

O trabalho de tecer os tapetes é tradicionalmente feito por mulheres, que os fabricam baseadas em padrões já estabelecidos ou desenhos originais. O processo pode levar anos, dependendo do tamanho do tapete, característica que também determina seu tipo.

Os motivos bordados também variam de acordo com a criatividade do autor, porém, como o islamismo proíbe a representação de figuras humanas e animais, os temas mais adotados são formatos geométricos e florais. Já os tapetes para uso religioso reproduzem o mihrab, nicho construído dentro das mesquitas que orienta as orações em direção à Meca.

Quanto mais decorados e mais complexos os padrões estabelecidos, mais tempo levará para o tapete ficar pronto, o que, consequentemente, aumenta seu valor. Sendo assim, era comum na antiguidade encontrar tapetes ricamente ornamentados, com fios de ouro e pedras preciosas, nas residências da realeza e de comerciantes ricos, pois eram também um sinal de status.

Cada uma dessas características sofre variações, desde o tipo dos nós do veludo até a intensidade de coloração, passando pelas estampas, o que faz com que seja impossível encontrar dois tapetes iguais.

Por isso, os tapetes são reconhecidos como um patrimônio cultural do Irã, através do qual é possível compreender a história do país e suas dinastias, além de ocuparem posição de destaque na arte islâmica.

Embora seu valor seja único, atualmente os tapetes sofrem com a concorrência de produtos industrializados e imitações, o que tem tornado difícil sua viabilidade econômica e o sustento das populações que ainda hoje encontram neles sua maior fonte de renda.

Isto mostra que, para apreciar a verdadeira beleza de um tapete persa é preciso compreender suas dimensões sociais, artísticas e culturais – elementos que apenas uma verdadeira obra de arte pode conter.

Pontes Monumento

As pontes têm sido uma maneira de contornar obstáculos para a humanidade desde a pré-história. Se antes eram fruto de elementos naturais, como árvores caídas, aos poucos tornaram-se objeto de estudo da engenharia de vários povos ao redor do mundo, sendo consideradas uma das primeiras estruturas dominadas pelo homem, ainda na Idade do Bronze.

Valorizadas primeiramente por sua funcionalidade, as pontes evoluíram paralelamente a arquitetura, modificando-se de acordo com a necessidade do ambiente ao qual se destinavam, mas também com os propósitos e valores das sociedades que as construíam.

Desta forma, suas estruturas sofreram alterações estilísticas e estruturais, evoluindo desde a madeira, passando por pedras e ferro, até as modernas estruturas, fruto da mais alta tecnologia, que comportam milhões de veículos no mundo todo.

Hoje, além de sua importância logística fundamental, as pontes também são consideradas marcos históricos e estéticos e é impossível dissociá-las de sua dimensão artística e influência na sociedade. Um símbolo da importância das pontes nos projetos urbanos atuais são as pontes exclusivas para pedestres em centros urbanos. Dentro da tendência global de retomada das ruas pelas pessoas, valorizando o convívio e a interação no espaço público, em vez de enxergá-lo como mera via de transporte, elas se destacam como uma alternativa de deslocamento seguro e interativo.

A Ponte da Paz, localizada em Tbilisi, na Geórgia, é um exemplo de projeto que se encaixa em um ideal mais completo de renovação da cidade. Inaugurada em 6 de maio de 2010, ela atravessa o rio Kura e conecta o centro antigo de Tbilisi ao Rike Park, novo espaço destinado ao lazer da população local, tornando-se o elo entre a tradição e as modernidades locais.

Seu design inconfundível, em forma de arco, é obra do italiano Michelle de Lucchi. A bela estrutura ondulada, forjada em aço e vidro ganha ainda mais destaque durante a noite, quando são acesas as milhares de lâmpadas de LED embutidas na construção através de um sistema criado pelo designer de iluminação francês Philippe Martinaud.

Além de ser a principal entrada para o Rike Park, a própria ponte é um convite ao lazer e ao relaxamento, uma vez que também é ponto de observação para outros destinos turísticos, como a fortaleza Narikala. No distrito de Rike Park, os moradores da cidade podem usufruir de belos jardins, instalações artísticas e também um centro de shows e exposições.

O belo contraste entre as estruturas seculares de pedra e o projeto futurista da ponte é uma lembrança constante da união entre tradição e modernidade, em um país que foi assolado por conflitos durante seu processo de independência, nos anos 90, mas que hoje seguiu em frente e busca prosperar.

Do outro lado do mundo, em Cingapura, está mais um exemplo de ponte que une contrastes. O design impressionante da ponte Henderson Waves, que evoca formas orgânicas das ondas do mar, forma o elo ideal entre a paisagem da cidade, uma das mais modernas e urbanizadas do mundo, e um cinturão verde de parques.

É possível ver a integração até mesmo em suas matérias-primas, o aço, que forma as colunas de 36 metros de altura, e os arcos, feitos de tiras de madeira Balau, típica do sudeste asiático. Ao todo, são 274 metros de comprimento que fazem parte de uma trilha de 5 quilômetros de extensão entre três parques de Cingapura, com pontos para descanso e observação da paisagem ao redor.

A Henderson Waves, que comemora seu décimo aniversário em 2018, é fruto de um projeto mais amplo do governo de Cingapura que visava renovar a cidade. Criada pelo escritório de arquitetura RSP Architects lanners & engineers e a IJP corporation, a Henderson Waves é hoje a ponte para pedestres mais alta de Cingapura e já ganhou prêmios de design importantes, como o prêmio de design do presidente da Singapore Design Week em 2009, tornando-se uma atração famosa da cidade.

Fora do meio urbano, as pontes também servem como atração e representam alguns dos maiores desafios da engenharia moderna. A famosa ponte de vidro de Zhangjiajie, na China, foi inaugurada ano passado com o objetivo de quebrar recordes e movimentar o turismo local. Suspensa em um Canyon de 300 metros de profundidade, ela se estende ao longo de 430 metros e é considerada a maior ponte de fundo de vidro no mundo.

O resultado é impressionante, tanto pela magnitude quanto pela beleza do projeto, que está localizado em um dos mais belos parques naturais da China. No entanto, seu sucesso foi além do esperado e atualmente ela não está aberta ao público. Após sua inauguração, ela precisou passar por adequações para conseguir receber mais turistas que sua atual capacidade, de 8 mil visitantes por dia. Um ótimo exemplo de que mesmo com tantos avanços da tecnologia, ainda há muito a explorar.

Seja para fins de lazer ou transporte, as pontes continuam impressionando e se reinventando com o passar do tempo, em uma prova de como até mesmo conceitos já conhecidos podem se renovar se analisados sob novas perspectivas.

 

A Regra de Ouro

“Então explica-me, forasteiro, que é esse belo?” A pergunta feita por Sócrates ao sofista Hípias é tão direta quanto complexa mas, embora tenha ficado registrada no célebre diálogo escrito por Platão, está longe de ser a primeira ou a única interrogação do ser humano acerca do que seja a beleza.

Para os artistas gregos contemporâneos de Sócrates, só uma resposta era possível para essa questão: beleza é equilíbrio. Portanto, para homens como o escultor e arquiteto Phídias, o caminho para a perfeição passava necessariamente pela proporção. Não à toa, o instrumento preferido do autor do Parthenon nesta jornada acabou sendo batizado em sua homenagem.

O número phi, no entanto, tem tantos nomes quanto dígitos. Em grego, idioma de onde surgiu, representa-se como Φ.  Para cálculos, ele é abreviado em 1,618, mas, como é um número irracional, ele não tem um resultado exato, estendendo-se infinitamente. No entanto, este está longe de ser o único fato curioso sobre o número.

A “proporção divina” é um fruto da chamada sequência Fibonacci. Descoberta no século XIII pelo matemático italiano Leonardo Fibonacci, a sequência determina que a soma dos dois números anteriores será igual ao próximo número. No entanto, quando se divide um número pelo anterior, o resultado gira em torno de phi e se aproxima cada vez mais de 1,618 conforme o valor aumenta. Os dez primeiros números da sequência costumam ser os mais estudados como exemplo. São eles: 1, 1, 2, 3, 5, 8, 13, 21, 34, 55.

O phi é encontrado nos mais diversos elementos da natureza sendo, por isso, considerado por muitos o símbolo da perfeição do universo. O “número dourado”, como também é conhecido, determina o crescimento de uma população de coelhos, a razão entre as espirais de sementes no miolo dos girassóis, o tamanho das espirais das conchas, a proporção entre machos e fêmeas em uma colmeia e diversas medidas do corpo humano.

Este último exemplo tem sua imagem máxima registrada no famoso “Homem Vitruviano”, desenhado por Leonardo da Vinci. O autor da Monalisa foi o primeiro a conseguir demonstrar a existência do phi nas proporções no corpo humano.

Mas é na arquitetura que o phi atinge seu potencial máximo, evidenciando o equilíbrio, simetria e proporcionalidade das construções. Alguns dos monumentos mais famosos do mundo carregam em seu projeto a chamada divina proporção, como as pirâmides do Egito, e se tornaram sinônimo de beleza e do potencial humano.

Para Rafael Manzo, prof. de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Presbiteriana Mackenzie, o phi representa o conjunto dos propósitos da arquitetura –  a união entre funcionalidade e representação de nossas visões de mundo de modo a tornar a vida das pessoas melhor – e por isso,  pode ser considerado um símbolo da beleza:

“Os parâmetros de análise se transformam com o tempo, mas não o conceito básico, e é uma consequência de relações de proporcionalidades matemáticas entre as partes com o todo. E é justamente aí que reside como um dos mediadores a Secção Áurea, ou Proporção Divina, ou phi”, explicou ele.

Hoje a ideia de belo é mais abrangente que os conceitos adotados na Grécia Antiga e alcança uma ampla diversidade de estilos, como barroco, neoclássico, contemporâneo e outros. O phi permanece como um fundamento clássico da perfeição, no entanto, é possível usá-lo de diversas maneiras, ou até mesmo não aplicá-lo e ainda assim ter um resultado interessante, baseado no contraste entre as formas e desequilíbrio.

“Não há apenas um conjunto de parâmetros para a análise da arquitetura da nossa época”, conta o professor. “Podemos encontrar tanto o phi na base dos fractais (formas geométricas cujas partes são frações idênticas do todo, como um floco de neve) utilizados para a formulação de algumas obras de arquitetura como a sua negação constituindo-se em um de seus aspectos básicos”.

Para os amantes das Belas Artes, entender o phi e suas aplicações permanece como uma maneira de entender os esforços de arquitetos, artistas e da própria natureza ao longo do tempo em busca da perfeição. O resultado desta jornada se encontra nos locais mais inusitados, pronto para inspirar aqueles que se dispõem a surpreender o olhar.

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