A Arte da Precisão - Olhares do Mundo

A Arte da Precisão

De arma do cupido a esporte olímpico, conheça a história do arco e flecha

Seja pelas confusões de Cupido ou pela pontaria certeira de Robin Hood, arco e flecha são uma dupla inseparável presente em nosso imaginário há milênios. Nascidos como armas vitais para a sobrevivência, estão presentes no desenvolvimento de civilizações desde a China até as Américas, e são considerados uma das ferramentas mais antigas criadas pelo homem, com registros de materiais usados para confecção de arcos e flechas com mais de 60 mil anos de idade.

Hoje, com o fim do uso para ações militares, essa antiga tradição sobrevive através do tiro com arco – nome do esporte praticado com arco e flecha – e na caça esportiva. O torneio mais antigo de tiro com arco que se tem notícia aconteceu na Inglaterra, em 1583, mas foi a partir da participação da modalidade nas Olimpíadas de 1900 que se popularizou e, desde então, a modalidade está conquistando cada vez mais adeptos no mundo.

A participação do tiro com arco nos Jogos sofreu um hiato entre 1920 e 1968, devido à falta de uma regulamentação unificada. Neste período, o esporte chegou ao Brasil por meio do aficionado Adolpho Porta. O comissário de vôo da companhia PanAir conheceu o esporte quando morava em Portugal, e o trouxe para o Brasil em 1955. Em 1958 foi criada no Rio de Janeiro a Federação Metropolitana de Arco e Flecha, e em 1980 o Brasil participou de sua primeira olimpíada na modalidade.

Talvez a imagem mais marcante envolvendo o esporte em Olimpíadas seja de 1992, quando o paratleta espanhol Antonio Rebollo atirou uma flecha acesa com o fogo olímpico que acendeu a Pira em frente a milhares de pessoas.

A cena emocionante ressalta alguns dos aspectos mais bonitos do tiro com arco. Além do exercício de força, concentração e precisão, poucos esportes são também tão democráticos.  Desde as primeiras participações, o tiro com arco tem categorias femininas, e também foi uma das modalidades de estreia da paralimpíada, em 1960. E, uma vez que se aprende, não existe uma idade limite para continuar praticando.

Nos Jogos Olímpicos, apesar da grande variedade de tipos de arcos, materiais de fabricação e modalidades de competição, existe uma padronização. A modalidade praticada é a target, em que os alvos têm círculos, cuja pontuação vai de 1, no centro, a 10, nas bordas, e ficam alinhados em um campo aberto. O procedimento é o mesmo tanto na competição individual quanto na por equipes, e apenas arcos recurvos são aceitos.

Existem também as modalidades field – em que os alvos ficam em matas onde há trilhas e obstáculos –, e a 3D, que ocorre em meio à natureza, mas com o uso de alvos de figuras de animais esculpidas em madeira ou resina.

As modalidades também são divididas de acordo com o tipo de arco utilizado pelos competidores. Entre os mais comuns estão o recurvo, o composto e o tradicional.

Em todas elas, a habilidade do arqueiro é fundamental. Para atingir a excelência no tiro com arco, os atletas treinam por muitas horas fundamentos como mira, postura – do corpo e dos braços –, força e até a sincronia da respiração com o lançamento da flecha.

O campeão brasileiro e sul americano de tiro com arco composto pela International Field Archery Association, Rodnei Ramos, considera que o caminho para a perfeição no tiro passa pelos detalhes:

“A precisão no arco e flecha é composta por vários fatores. Cada pessoa, dependendo da estatura, vai ter um arco diferente pra ela e ele precisa ter a potência exata para pessoa, a puxada exata, o tipo de flecha adequada. Além da parte corporal, porque o atleta tem que ter uma resistência física muito boa”, disse ele ao Olhares ao Mundo.

A prática constante acaba modificando não apenas o corpo, mas também a mente dos arqueiros. A busca pela mira perfeita acaba se traduzindo em vários aspectos da vida, como conta Rodnei: “eu sempre pratiquei vários esportes, mas nunca fiquei em nenhum. Quando eu entrei no arco, mudei alguns aspectos da minha vida pessoal. Passei a ficar um pouco mais calmo, passei a ter mais foco, direção de vida. O arco e flecha tem várias coisas que podem te ajudar no cotidiano”.

O esporte ainda não é muito conhecido no Brasil mas, com o apoio  do cinema, arco e flecha começam a ser redescobertos. Personagens como Légolas, o elfo criado por J.R.R. Tolkien em “O Senhor dos Anéis” e Katniss Everdeen, a heroína da trilogia “Jogos Vorazes” despertaram o interesse do grande público para a prática desse esporte e, consequentemente, sua tradição.

Mesmo para quem só conhece o arco e flecha pelas telinhas, apreciá-lo é uma maneira de resgatar nossa história ancestral, além de ser um espetáculo para aqueles que gostam de precisão, velocidade e técnica.  Um esporte único, que merece todo o respeito e incentivo.

 

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