A mesa do mundo - Olhares do Mundo

A mesa do mundo

Sob a influência das culturas, a hora da refeição é um ritual único em países de todo o mundo

Viver em sociedade é passar por rituais. Do nascimento à morte, vivenciamos cerimônias que atuam como elementos norteadores da existência, situações que nos lembram das razões pelas quais nos identificamos como seres humanos, que comemoramos a vida.

Celebrar é uma forma de conectar-se com a própria essência. Não à toa, em qualquer lugar do mundo, são feitos preparativos e nos esforçamos para tornar a ocasião a mais especial possível, incluindo decoração, música, dança e… comida.  Seja em um banquete ou um lanche trivial, a hora da refeição – especialmente em grupo – é por si só um ritual, que complementa e traz ainda mais significado aos demais.

Quando se trata de uma celebração, o compartilhamento de alimentos com os entes queridos pode ser considerado a conexão máxima com as origens humanas, símbolo de união e confraternização.

Isso porque, na visão de nomes como o jornalista Michael Pollan, o ato de cozinhar e compartilhar o alimento não é apenas um produto do que somos, mas um dos fatores que nos levou a chegar onde estamos hoje.

“Cozinhar nos proporcionou não apenas a refeição, como também a ocasião: o costume de comermos juntos num momento e num lugar determinados. (…) o ato de nos sentarmos para fazer uma refeição em comum, olhar nos olhos uns dos outros, compartilhar a comida e nos comportar com um certo decoro, tudo isso serviu para que nos civilizássemos”, explica Pollan em seu livro “Cozinhar: A Arte da Transformação”.

Analisando a hora das refeições por essa perspectiva, é interessante observar o equilíbrio entre o que nos torna uma espécie, mas nos diferencia como indivíduos: pessoas do mundo todo se reúnem diariamente para comer, mas em cada lugar o ritual acontece de modo diferente.

Isso ocorre devido às particularidades culturais, grandes influenciadoras da gastronomia e também do modo como os alimentos são consumidos. Desta forma, a cerimônia de uma refeição começa muito antes da degustação dos pratos.

“Pode-se dizer que esse processo se inicia no planejamento ‘do que se vai comer’, ‘com quem vai comer’, para chegar em ‘como e onde devemos prepará-lo’. Esse processo também é individualizado por sociedade e pelo motivo sobre o qual a confraternização será realizada, podendo ter mais ou menos requinte, dentre outros fatores. Esse conjunto determina o rito de preparo dos pratos e sua forma de apresentação à mesa, que ganha importância fundamental e simbólica no processo de preparo da refeição como um todo”, disse ao Olhares do Mundo a professora Camila de Meirelles Landi, Coordenadora do Curso de Tecnologia em Gastronomia, da Universidade Presbiteriana Mackenzie.

Fatores como a disponibilidade de materiais e crenças religiosas também influenciam na maneira como os povos do mundo fazem suas refeições.  Na cultura ocidental, popularizou-se o uso de talheres como padrão, no entanto, mesmo com uma base em comum, cada país adota costumes de acordo com seus hábitos.

Na França, por exemplo, quando há pão na refeição, ele deve ser utilizado para apoiar a comida no lugar da faca, apesar de também fazer parte do prato. Já no Chile, comer qualquer alimento com as mãos pode ser considerado falta de educação.

As sutilezas vão muito além do que a maneira correta de utilizar os utensílios e se estendem pela maneira como o povo encara o ritual da refeição. Em países como Portugal e Itália, pedir complementos como sal, pimenta ou queijo é uma grande ofensa ao cozinheiro, pois significa que a comida não está bem temperada, o que pode gerar grande desconforto para ambas as partes.

Quando se pensa nas diferenças entre cultura ocidental e oriental, as discrepâncias parecem ainda maiores. Enquanto fazer barulho para tomar sopa é considerado muito desagradável para ocidentais, no Japão o ato é interpretado como sinal de satisfação.

Em culturas como a indiana, a religiosidade também se manifesta à mesa. Na Índia, comer com a mão esquerda é um ato visto como falta de higiene, uma vez que ela seria impura. A milhares de quilômetros dali, no Oriente Médio, alguns países também têm essa visão.

Na Tailândia, observa-se o conflito entre o moderno e o antigo, com o uso dos tradicionais palitos de madeira – os hashis – sendo considerado fora de moda. No país asiático também se destaca a ressignificação de costumes, com os garfos sendo utilizados apenas para apoiar o alimento e a colher eleita como único utensílio que se deve levar à boca.

Mais do que meras visões opostas, essas diferenças representam a riqueza cultural que construímos ao longo de milênios e, como tal, devem ser consideradas um importante patrimônio, como explica a professora Camila.

“Cada sociedade nasce de uma formação distinta, com valores e bases históricas e culturais diferentes. É mágica a possibilidade de ter acesso a outras culturas. Torna-se importante saber respeitar essas culturas, entendê-las, interpretá-las e praticá-las com todos os seus ritos, que possuem um significado importante para aquela sociedade”, ressalta a professora.

Para aproveitar de verdade uma experiência culinária multicultural, é preciso ter respeito, mas também humildade. Pesquisar sobre os costumes com antecedência é fundamental, mas aprender com os ensinamentos de um anfitrião é uma chance única, que só se concretizará se houver disponibilidade e compreensão por ambas as partes.

O diferente significado das refeições pelo mundo é um lembrete permanente de que, mesmo aquilo que acreditamos conhecer, ou achamos trivial, pode despertar ideias e sentimentos novos e ser fonte de conhecimento. Basta aprender a olhar.

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